Por uma boa saúde


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A morte de um bebê com apenas 20 dias de vida, anteontem, em um hospital de Goiás, mostra bem a situação da saúde pública no Brasil. O recém-nascido ficou 10 dias internado e, segundo os pais, tinha um problema na veia aorta, precisava de uma cirurgia. Não havia um cirurgião cardíaco para realizar o procedimento médico necessário. Para melhor entender o caso, isto decorre da decisão de uma cooperativa de cirurgiões no Estado que, em dezembro passado, pediu descredenciamento junto ao SUS (Sistema Único de Saúde) por não aceitar o valor pago pela cirurgia cardíaca: R$ 894, para uma equipe de seis profissionais. Os médicos querem que o SUS pague a quantia prevista pela AMB (Associação Médica brasileira), que é de cerca de R$ 6 mil por procedimento.

Ao que consta, as negociações entre a cooperativa e o Ministério da Saúde continuam, mas não há nenhum indício de que os médicos voltarão a atender em curto prazo. Ao mesmo tempo em que o SUS vem pagando uma quantia irrisória para alguns procedimentos considerados de alto custo, a população que trabalha, paga impostos e depende do sistema público de saúde continua sendo a que menos é contemplada com alguma consideração. O sistema atual, voltamos a insistir, é injusto e penaliza os que mais precisam dele. Pobre não pode mais ficar doente porque não encontra vaga para se internar e nem mesmo atendimento emergencial satisfatório. Franca também vive o dilema. Têm se tornado frquentes novamente as queixas contra o serviço público de saúde. E, chegando à última semana de setembro, permanecem inexplicadas três mortes ocorridas entre Janjão e Santa Casa no começo do mês. Em Goiás, quem depende de uma cirurgia cardíaca para viver — e muitas crianças estão recebendo alta em hospitais sem que tenham sido pelo menos examinadas por um cardiologista — conta apenas com a sorte. Quem tem condições, paga um médico particular ou então contrata um plano de saúde e torce para que nada aconteça durante o período de carência.

O sistema todo é perverso: o SUS não reajusta o valor dos procedimentos, os médicos não se sentem constrangidos diante da morte de pacientes sem atendimento e a parcela menos afortunada da população vive numa preocupação constante, já que não sabe quando vai depender da boa vontade do sistema público de saúde para continuar vivendo. O governo tenta passar uma visão cor-de-rosa do atendimento médico à população, mas só a distribuição de ambulâncias não será capaz de melhorar o sistema que aí está. É necessária uma ação mais forte no sentido de fortalecer o caixa do Ministério da Saúde, permitindo que os profissionais médicos tenham uma paga justa pelo trabalho que realizam. E estes últimos precisam lutar pelo bem-estar do paciente, como claramente dispõe o Juramento de Hipócrates, que é feito por todos os formandos em Medicina. Cruzar os braços, exigir pagamento e deixar pessoas morrerem é, antes de tudo, desumano. Por isso, ambas as partes precisam encontrar um meio-termo, durante as negociações, para que o prejuízo não atinja apenas aqueles que dependem do sistema. Nada pode justificar a morte de um ser humano, dentro de um hospital, por falta de atendimento adequado. Chega a ser imoral.

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