‘A Ciretran corre o risco de entrar em colapso’, alerta delegado


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Sidnei Martins de Oliveira, 57, diretor da Ciretran de Franca, faz uma previsão pessimista para a repartição que “presta muitos serviços e o número de funcionários não é suficiente”
Sidnei Martins de Oliveira, 57, diretor da Ciretran de Franca, faz uma previsão pessimista para a repartição que “presta muitos serviços e o número de funcionários não é suficiente”

A 21ª Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) de Franca, que tem quase 200 mil veículos cadastrados em seu sistema e atende, em média, mil pessoas por dia, pode entrar em colapso por falta de funcionários. A afirmação foi feita pelo diretor da repartição, o delegado Sidnei Martins de Oliveira, 57. “A Ciretran presta muitos serviços e o número de funcionários não é suficiente. Os pedidos de exonerações crescem. Cinco já saíram e ao longo do tempo vamos perder mais gente. Se o Estado não fizer reposição, a Ciretran corre o risco de entrar em colapso”. Atualmente o órgão conta com dois delegados, uma escrivã, dois agentes policiais, seis servidores cedidos pela Prefeitura Municipal e 31 concursados. Todos os setores, segundo o delegado, “funcionam a contento”, mas os problemas registrados no ano passado podem voltar se não forem contratados novos funcionários. “Hoje, além de repor as vagas dos cinco que saíram, seriam necessários, no mínimo, mais dez novos servidores”.

Apesar da previsão pessimista, o delegado Sidnei Martins se diz um otimista. Quem o vê, não imagina que ele já trabalhou como boia-fria. Nascido na zona rural de São Tomás de Aquino (MG), ele foi obrigado, devido aos poucos recursos, conciliar os estudos com a enxada. Quando tinha 10 anos, a família se mudou para Itirapuã, onde “as coisas melhoraram”. O pai comprou um pequeno sítio, adquiriu um trator e a vida começou a mudar. “Fui um exímio tratorista. Fazia manobras que ninguém mais conseguia. Causava inveja nos outros (tratoristas) por causa da minha habilidade”, falou, sorrindo. Mas esta vida na roça não durou muito. “Eu descobri que a zona rural não era meu caminho e fui prestar um concurso público”.

O primeiro emprego foi como motorista da Unesp de Franca, em 1975. “Abria e fechava a porta do carro para o diretor, viajava toda semana para São Paulo. Era um motorista à moda antiga”. Menos de dois anos depois, passou no concurso para investigador de polícia. “Não tinha a menor noção do que era ser um policial. Fui na ilusão”, lembrou o delegado. Ele conciliou o trabalho com o curso na Faculdade de Direito de Franca. Delegado desde 1991, Sidnei Martins é casado com a professora Aparecida Norberta Pontes de Oliveira, 57, com quem tem dois filhos: Frank Pontes de Oliveira, 28, advogado em Franca, e Adriel Pontes de Oliveira, 27, juiz Federal do Trabalho da 9ª Região do Paraná, em Guarapuava. Os filhos, segundo ele, só lhe dão orgulho. “Eles não precisam mais da mesada do pai (risos). Estão bem encaminhados”.

Desde novembro do ano passado, Sidnei Martins responde pela direção da Ciretran. No mês em que completa um ano à frente da instituição, ele também chega aos 35 anos de serviço público - na Unesp e na polícia. Poderia se aposentar e se dedicar à sua segunda maior paixão depois da família: a pescaria. Mas avisa aos que estão “de olho em seu posto” que deve ficar na ativa por mais dois ou três anos.  
 

Comércio da Franca - Como foi a chegada do senhor na Ciretran de Franca?
Sidnei Martins - Quando cheguei, a Ciretran estava em fase de transição. Os funcionários antigos, que tinham total experiência, estavam saindo por serem contratados e não concursados. Assumiram os funcionários novos, só que eles não tinham experiência nenhuma de trânsito, assim como eu também não tinha. Na faculdade não foi ensinado legislação de trânsito. No concurso de delegado também não caiu legislação de trânsito e, de repente, eu me vi titular da unidade de trânsito desta “metrópole”, que é a nossa Franca. Eu estou gostando de trabalhar aqui. Na minha trajetória de vida, eu sempre me pautei por prestar o melhor serviço, quer na esfera particular, que era lá no sítio do meu pai, quer no setor público. Sempre fui um trabalhador no serviço público e, mesmo com toda a dificuldade do início, acho que minha chegada à Ciretran foi boa.

Comércio - A Ciretran passou por grandes dificuldades no final do ano passado (atrasos na entrega da documentações, substituição de funcionários, entre outros). O órgão corre o risco de passar pelos mesmos problemas novamente?
Sidnei - Corre o risco de entrar em colapso, a começar pelo prédio que não é adequado. Pelo dinamismo da legislação, a emissão da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) não é feita pela Ciretran, mas por uma empresa terceirizada de Ribeirão Preto. A documentação é feita pela Ciretran, que insere tudo no sistema e manda para Ribeirão Preto, onde é feita a CNH. A Abnote, empresa responsável pelo serviço, vendo a demanda de Franca, que é de 700 habilitados por mês, mais a renovação da CNH que passa de 2 mil mensalmente, mandou funcionários para tirar foto dos motoristas aqui no prédio da Ciretran. Agora não precisa mais de foto para se habilitar. O candidato vem, tira foto aqui e ela já entra no sistema junto com impressão digital, evitando fraudes. O prédio já não comportava de forma adequada a Ciretran e agora, com esta medida de tirar foto aqui, tivemos que ceder uma sala. Com o passar do tempo ficará inviável e alguém terá que sair. Penso eu que a Abnote poderia estar em outro lugar, mas quem sou eu para julgar. Veio a ordem do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) para arrumar espaço e arrumei. 

Comércio - E quanto ao número de funcionários?
Sidnei - Há ainda o agravante da falta de servidores. A Ciretran presta muitos serviços e o número de funcionários não é suficiente. Tenho muitos pedidos de exoneração e, ao longo do tempo, vamos perder mais funcionários. Pedi ao Estado cinco novos servidores para os lugares dos que saíram e mais dez para desafogar a equipe que está trabalhando atualmente. Se não houver reposição, poderemos ter grandes problemas em um futuro próximo. Todos os setores estão funcionando a contento, mas pode voltar a ter problemas se não forem contratados novos funcionários.

Comércio - Quantas pessoas trabalham hoje na Ciretran?
Sidnei - Somos em um total de 42 pessoas. Dois delegados, uma escrivã, dois agentes policiais, seis funcionários cedidos pela Prefeitura e os meninos novos concursados que vieram junto comigo.

Comércio - E os novos funcionários já aprenderam todo o serviço?
Sidnei - Assumimos juntos e estamos aprendendo todos os dias, porque a legislação de trânsito é muito dinâmica. O Código (de Trânsito Brasileiro) é uma verdadeira colcha de retalhos. Mas estamos atentos à sua evolução.

Comércio - Como é o relacionamento do senhor com as autoescolas e despachantes?
Sidnei - Muito bom. Se detectar problemas mando chamar, evitando comunicar o Detran. Eu gosto do olho no olho. Chamo aqui para saber o que está acontecendo e juntos tentarmos resolver os problemas sem que isto se transforme em um processo.

Comércio - Quantos atendimentos são realizados mensalmente pela Ciretran de Franca?
Sidnei - Nossas estatísticas apontam que de 17 mil a 20 mil pessoas são atendidas por mês. 
Comércio - As pessoas fazem fila para conversar com o senhor ou com o delegado adjunto Augusto Ricci. Quais são os questionamentos feitos por elas?
Sidnei - São diversos questionamentos. Como disse antes, não estudei legislação e não sou nenhum expert no trânsito. Imagina então a dificuldade que é para um leigo no assunto. Mas posso afirmar que boa parte nos procura devido a problemas relacionados à compra e venda de veículo. Dentro da medida do possível a gente atende. Como bom mineiro, gosto de explicar muito bem explicado (risos).

Comércio - A Ciretran está em ordem?
Sidnei - Posso dizer que tudo está funcionando. 

Comércio - Vamos falar um pouco sobre sua vida pessoal. O que o levou a ser policial?
Sidnei - Foi uma ilusão. Ninguém na minha família tinha seguido para este lado e o acaso me levou a esta profissão. Na Unesp, o pessoal recebia o Diário Oficial e acompanhava os editais. Alguém sugeriu que todos fizessem concurso. Como eu era motorista, perguntei qual concurso que tinha e me falaram que tinha para a polícia. Várias pessoas foram fazer a prova para investigador de polícia e somente eu passei. Eu não sabia o que fazia um investigador. Nunca passou pela minha cabeça ser um policial. Mas enfrentei. Comecei trabalhando em Igarapava, fiquei um ano lá antes de vir para o 2º DP (Distrito Policial) de Franca. Gostei tanto que estou até hoje. São 33 anos como policial.

Comércio - E o cargo de delegado, surgiu como?
Sidnei - O delegado surgiu na sequência da carreira. Na medida em que a gente vai trabalhando, vai vendo o que é ser policial e o cargo máximo é o de delegado de polícia. Pensei: sou bacharel em Direito (formou-se em 1983) e está na hora de começar a me preparar. Em 1988 comecei a estudar para ser delegado e em 1990 passei no concurso. 

Comércio - Como delegado, o senhor trabalhou em quais locais?
Sidnei - Em 1991 eu fiz o curso de delegado e, neste mesmo ano, comecei a trabalhar como plantonista do 8º DP em São Paulo. Um ano depois voltei para a região de Franca. Fui ser delegado em Buritizal. Na minha época tinham 410 veículos cadastrados na Ciretran daquela cidade e aqui (na Ciretran de Franca), hoje, tenho 200 mil (risos). Em 1994 voltei para Franca para ser delegado titular do 5º DP. Entre 1997 e 2007 fui delegado assistente da Delegacia Seccional. Tive uma passagem relâmpago pelo 1º DP e depois assumi o cargo de titular da Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes). Desde novembro de 2009 estou à frente da direção da Ciretran, onde pretendo finalizar minha fase policial.
 
Comércio - Nestes 33 anos como policial, qual foi a ocorrência de maior repercussão que o senhor participou?
Sidnei - Eu ainda era investigador, quando, em 1986, surgiu a “Gangue dos Oliveiras” (em alusão ao sobrenome da família que comandava a quadrilha). Eles compraram um sítio em Patrocínio Paulista, fixaram residência e montaram um verdadeiro quartel general do crime. Foram vários delitos cometidos, como assalto a um banco em Cássia (MG), casa de armas em Franca, posto de combustível em Capetinga. Na época, conseguimos desmantelar a quadrilha. Nós fomos de madrugada para o sítio, onde eles nos receberam a bala. Felizmente ninguém ficou ferido. Prendemos alguns no sítio, outros em Franca e alguns escaparam. Este foi um dos maiores trabalhos que já fiz. Anos depois, eles sequestraram o irmão (Wellington) da dupla Zezé di Camargo & Luciano.

Comércio - Algo o deixa triste como policial?
Sidnei - Eu sou muito otimista em tudo que faço, mas o Estado deixa um pouco a desejar no investimento. Não reclamo do salário. Não ganho bem, mas acho que vivo confortavelmente. Mas na parte técnica é lamentável a atuação do Estado. A polícia, por falta de investimentos, também é vítima de bandidos. A polícia tem que estar aparelhada, treinada para enfrentar e prender. Este é o objetivo da polícia, mas que fica a desejar por puro descaso do Estado. Polícia tem que prender e não confrontar ou matar bandido. A minha obrigação é investigar, prender e preparar para a Justiça julgar. Essa é a função do policial. Sem querer criticar o Rio de Janeiro, mas os policiais daquela cidade sobem os morros para guerrilhar e não prender. Hoje, como policial, a falta de investimento é o que me entristece.

Comércio - O senhor, em algum confronto, precisou ferir alguém para se defender?
Sidnei - Sempre usei minha arma como defesa. Tem policial que fala que se você tirar a arma tem que atirar. Aquele que fala assim, para mim, é um policial que não tem prática. Eu tenho o direito e o dever de andar armado. Quando eu percebo que pode haver um confronto, tenho a obrigação de sacar a arma e me posicionar. O policial tem que estar com a arma em posição de ataque para evitar outro ataque. Já dei tiros, mas nunca precisei matar ou ferir alguém. 

Comércio - Como o senhor encara as críticas?
Sidnei - Eu as encaro como necessárias, desde que de uma forma construtiva. Desta maneira serão sempre bem-vindas. A população deve continuar acreditando na carreira policial, mesmo com o Estado deixando a desejar na parte de investimento de material e técnica. Que as pessoas não percam a crença no trabalho policial. Há muitos bons policiais. Eu acredito muito no trabalho da polícia, sem o qual não há cidadania e não há como vivermos num regime democrático de Direito.

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