Josiane Barbosa de Oliveira, psicanalista e psicóloga, membro associado da SBPRP, escolheu o filme dirigido por Yojiro Takita, que trata o tema da Morte, com leveza e profundidade.
O protagonista, Daigo, é um violoncelista que perde o emprego depois de dissolvida a orquestra. Lê um anúncio de jornal e pensa encontrar um outro em uma agência de viagens, tomando a palavra “partida” como “viagem”.
Na realidade, o emprego oferecido era para ser um nokanshi, pessoa a desempenhar um cerimonial tradicional japonês para o acondicionamento dos mortos no caixão, que ancestralmente era feito em família, sendo relegado a um serviço profissional contratado pelas funerárias.
Acompanhamos a transformação de Daigo, que se envolve com o ritual “nokan”, palavra que exprime o ritual de preparação da passagem do morto para outra vida. O ritual consiste em limpar-lhe delicadamente as partes do corpo, vestir-lhe com roupas novas e maquiá-lo antes de colocá-lo no caixão, em presença dos amigos e familiares.
Daigo, que não presenciou o enterro dos avós e da mãe, e não mais vira o pai, que o abandonou aos 6 anos, passa a viver a experiência afetiva do significado da partida, mesmo não tendo visto nenhum cadáver antes.
Na casa herdada da mãe, depois de perder seu emprego como músico, reencontra-se com o violoncelo que tocava quando criança e ressoam sinais (dentro e fora de si mesmo) que desencadeiam intensas emoções ligadas ao passado. Daigo não retinha a imagem do rosto do pai, borrado pela excessiva raiva e ressentimento pelo abandono (comum em crianças que sofrem separações traumáticas).
As lembranças vão fluindo, o novo emprego o faz entrar em contato com profundas vivências de desamparo e abandono, e Daigo as ressignifica.
Ser um nokanshi, intermediário entre a morte e a vida, o faz ligar sua sensibilidade de artista ao serviço cerimonial. Cuidar do morto, defronte aos familiares, com ternura, respeito e tranquilidade, com precisão, vai também - aquietando seus sentimentos e aprofundando sua ligação com a música, com as pessoas, com a vida. Ao tocar o mistério da Morte confere significado à vida, religa-se .
A música-tema principal chama-se Memória, melodia interpretada em violoncelo, que toca fundo o coração. A fotografia marca, através da passagem das estações, as transformadas travessias de Daigo em sua alma, ao reviver o que parecia morto dentro de si.
Seu empregador cerca-se de plantas, e cozinha, metaforizando a comida e chamando a atenção de Daigo para a transformação vida-morte-vida.
Tememos a consciência da fragilidade da vida, e a irrupção do Acaso (ou, para outros, o Destino). Não sabemos dia, mês, ano que morreremos. Poucos têm a consciência de que a Morte não é o contrário da Vida.
Bebe-se e come-se a morte todos os dias, e, inelutável, chega o dia da Partida, por morte ou acidente. Os gulosos, “bebem a morte” de uma só vez (H.Pellegrino).
Daigo prepara várias partidas no filme, até estar preparado para uma especial. Acompanhamos o seu questionamento sobre o significado de ser nokanshi, trabalho difícil e delicado.
Daigo enfrenta preconceitos da comunidade por ser “acondicionador de corpos no caixão”. Como se a morte deixasse nas mãos - de quem toca um corpo morto - Mistério e Maldição. Mesmo sua jovem e encantadora esposa, quando descobre o que faz Daigo, sente nojo por ele e não se deixa ser tocada. O que há em um corpo sem vida que se torna tabu? No Japão, quem toca matéria morta é tratado como “pária” social. No entanto, o trabalho de Daigo é reconhecido pelos familiares do morto, pelo profundo afeto com que ele trata seus entes queridos, em hora tão extrema.
Muitos detalhes da cerimônia do nokan escapam a nós, ocidentais. Emociona o agradecimento de quem fica a quem parte, e a consciência da brevidade do intervalo de separação - de quem permanece vivo e de quem parte - para a derradeira viagem para a outra vida (consciência budista).
Perdurável é a delicadeza dos afetos, esta a grande esperança do viver e, também, no morrer. Afetos nos reunirão novamente (na platéia que renasce mês a mês no Centro Médico) em torno de Josiane que vai nos contar, com seu irresistível bom humor, sua rica travessia pelo bem- humorado filme (apesar do tema). Às 15 horas, acheguemos.
O DIRETOR
YOJIRO TAKITA
Takita recebeu a seguinte crítica do maior jornal japonês, Yomiuri Shimbun, considerado o de maior tiragem do mundo mais de 14 milhões e trezentos mil exemplares, distribuídos de manhã e à noite: -”os filmes de Takita são de calorosa ternura, refletindo sua personalidade vibrante e otimista”.
Oscar de “melhor filme estrangeiro” em 2009, maravilhosa trilha sonora, com composições de Joe Hisaishi, esgotada no fornecedor, sic Livraria Cultura (pode ser acessada no youtube).
O roteirista do filme “A Partida”, Kundo Koyama, se baseou no livro autobiográfico de Aoki Shinmon: O diário de um agente funerário budista.
Y.Takita participou, ele mesmo, de cerimônias fúnebres para se preparar para este filme. Pensou, à época, que, por conta de o tema ser tabu para os japoneses, não haveria sucesso comercial.
No entanto, o primeiro ministro chinês Wen Jiabao disse que gostou de assistir ao filme, que lhe foi recomendado pelo ministro japonês Yukio Hatoyama (de família tradicional de políticos japoneses, como a família Kennedy nos EUA).
O ator que desempenhou o papel de Daigo, Motoki, estudou a arte do nokan, na sua dupla função religiosa e de agente funerário. Também aprendeu a tocar violoncelo..
Título: A Partida
Gênero: Drama
Duração: 130 min
Distribuidora: Paris Filmes
Diretor: Yojiro Takita
Onde: Hoje, às 15 horas, na sede campestre do Centro Médico de Franca
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