A carroça do correio


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Meu pai, nas páginas de seu jornal Diário da Tarde, sempre defendeu a construção do viaduto da Rua General Teles, cognominado “viaduto de bambu”. Brigou até com o engenheiro da Prefeitura que afirmava não haver condições técnicas para a realização da obra. Na verdade, o “engenheiro” não era engenheiro coisa nenhuma. Ao contrário, era um bom boxeador e acabou acertando um soco no olho de meu pai e partindo os seus óculos em plena Praça Barão.


Para a satisfação do meu pai, o “engenheiro” escafedeu-se e o o viaduto foi construído na gestão do Gosuen. De início, o movimento foi pequeno. Lembro-me de meu pai, sentado no alpendre de casa, contando o número de veículos que transitavam pela rua. Certo dia, ele contabilizou seis por hora.


Em maior número, as carroças circulavam pela rua do viaduto. Eram as carroças do leiteiro, do padeiro, do verdureiro, dos transportadores de entulhos e mudanças. A rua ficava cheia dos dejetos dos cavalos; tanto que, de tardezinha, um senhor muito respeitado, morador nas vizinhanças, passava com um saco de papel nas mãos e ia recolhendo os estrumes dos animais. Com eles, adubava a sua horta que era farta, variada e viçosa. Sem que ele soubesse e sem que houvesse alguém com coragem suficiente para dizê-lo, o laborioso senhor recebeu o apelido de Catabosta.


O meu interesse maior não estava no fluxo de veículos e nem no Sr.Catabosta. O meu interesse concentrava-se na carroça do Correio que, entre as nove e dez horas, passava em frente de minha casa, conduzida pelo carteiro Miguel, irmão gêmeo do Noel. Vinha carregadinha de correspondência deixada pelos trens da Mojiana na tarde anterior. Miguel, o bom Miguel, via-me, dava uma paradinha e dizia:


- Quer uma carona, Zezinho?


Mais do que depressa, eu pulava em cima da carroça puxada por um cavalo branco e ia até o Correio central. Ia por ir. Ia pelo prazer de andar num veículo de tração animal. Ia para ter um dedo de prosa com o carteiro Miguel. Ia e voltava na esperança de ouvir novamente , no dia seguinte, o agradável convite:


- Quer uma carona, Zezinho?

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