Fazíamos a travessia do Canal da Mancha de navio. Ventava frio quando uma moça loira, de camiseta sem mangas e bermudas curtinhas, estilo safari, se aproximou, conversou conosco, achando engraçado ver marmanjos tiritando.
Era uma excursão para o Marrocos. Vínhamos de Torremolinos. A moça sueca - depois ficamos sabendo de sua nacionalidade - estava de férias. E nos contaria que era dentista mas um dia percebeu sua verdadeira vocação: magistério. Quando dimensionou sua insatisfação, procurou um departamento de assistência social de Estocolmo, falou de suas dúvidas existenciais e profissionais, do seu desejo tardiamente despontado - não estava mais na faixa etária do não-sei-o-que-quero-fazer-na-vida. Sem problema: foi encaminhada a uma escola de formação de professores. Desenvolveria um currículo especial numa universidade também especial, pois seus estudos anteriores eram profundos, mas não incluíam pedagogia e psicologia infantil. Fiquei pálida de espanto e de inveja de um sistema social que procurava satisfazer as necessidades do povo, sem distribuição de esmolas e captação de votos camuflados por títulos como bolsa-isso, bolsa-aquilo. Respeito ao cidadão. Educação. Atendimento de suas expectativas. Satisfação de seus anseios. Primeiríssimo mundo. Democracia.
Lembrei-me dessa história ao ler a mensagem enviada pelo Maestro Nazir Bittar, através da qual ele faz um sensibilizado apelo. Alguns francanos sabem o quanto de orgulho e privilégio existe no fato de termos uma Orquestra Sinfônica na cidade. Alguns francanos sabem que não é fácil levar adiante um projeto dessa natureza neste País que valoriza e incentiva o imediatismo - para a orquestra sobreviver é preciso luta e sacrifício. Alguns francanos sabem que há quem compre um supérfluo por milhares de reais e ache estranho doar a metade dessa mesma quantia, uma vez por ano, para ajudar na manutenção de um empreendimento cultural. E todo mundo sabe que um músico não se forma da noite para o dia: precisa de estudo, noventa e nove por cento de transpiração, um por cento de inspiração. É mais ou menos essa a proporção para o crescimento. Na mensagem, o jovem maestro conta a história do jovem Jonatas.
Jonatas está na orquestra desde 2008. Para se manter e à sua família, já exerceu atividades como ajudante de pedreiro, escriturário, trabalhou em produção de fábrica, em telefonia móvel e até no pedágio. O que chamou atenção no relato foi o fato de Jonatas priorizar suas atividades como músico da orquestra, sempre sacrificando o emprego mais seguro, para não perder os ensaios da OSF. Recentemente foi aprovado para a Fatec, está fazendo um curso que lhe abrirá novos caminhos mas, para cursar a faculdade, teve de abdicar de emprego em tempo integral. Jonatas está precisando de um outro que lhe garanta tempo livre nas noites de terças e quintas-feiras, para os ensaios aos quais não falta. Jonatas toca violino e já cresceu bastante desde que entrou para o grupo. Se Jonatas morasse na Suécia, como minha amiga Mainy, seria mais simples. Ele se dedicaria ao estudo e prática do violino, receberia um salário que lhe garantiria moradia, material de estudo e partituras, saúde e alimentação. Mas ele mora em Franca. No Estado de São Paulo. No Brasil. Ele precisa de nós, seus conterrâneos: precisa de quem acredita na arte, que saiba avaliar a importância da música na vida humana.
Um dia - eu acredito! - conseguiremos acabar com a bandalheira, com a permissividade, com a corrupção, com os desmandos, com a farra da distribuição de cargos regiamente remunerados, com o nepotismo e colocaremos o País trilhando um caminho de ética e moralidade, de tal forma que todos os Jonatas terão suas necessidades atendidas. O dinheiro não será desviado para contas particulares ou projetos que beneficiem apenas “os do esquema”. Até que esse dia chegue, os poucos que enxergam mais terão sobrecarga na verdadeira ajuda ao próximo. Tudo que Jonatas precisa agora é de um emprego adequado. Está lançado o apelo para que ele o consiga. Vamos ajudar?
MECENAS
Foi cidadão romano, amigo e conselheiro hábil de César Otaviano - o Imperador Augustus. Político, estadista e patrono das letras. Ao se aposentar das lides políticas voltou-se para um círculo literário famoso que incluía Horácio, Virgílio e Propertius patrocinando-os com amizade, bens materiais e proteção política. Hoje, mecenas significa patrocinador generoso, protetor das letras, ciências ou artes ou dos artistas e sábios.
VIRTUOSE
Joshua Bell é violinista, nascido nos Estados Unidos em 1967. Começou seus estudos de violino com quatro anos de idade. Por seu talento, aos catorze já era solista da Orquestra de Filadélfia. Aos dezoito, estreou no Carnegie Hall. Como músico participou da trilhas sonoras de O Violino Vermelho e Ladies in Lavender. Fez rápida aparição com outros violinistas, no filme Music of the heart. Numa iniciativa do Washington Post, tocou - praticamente sem ser reconhecido - durante 45 minutos numa estação de metrô - momento que vale a pena ser visto como curiosidade: procure o Youtube e digite Joshua Bell.
VIOLINOS
O instrumento de Bell é um raríssimo e valiosíssimo Stradivarius, feito em 1713. Foi comprado por cerca de quatro milhões de dólares. O violino que Amadeuzinho – que participavados Seresteiros Francanos – tocava era produção tupiniquim: foi feito por ele mesmo, com aquelas mãos calejadas de pedreiro, sua profissão na vida real. Os sons que ambos tiram de seus respectivos instrumentos, evidentemente diferem na qualidade mas não no sentimento que a música executada provoca no ouvinte. Amadeuzinho nunca estudou, não sabe ler partituras. Toca - como se diz - de ouvido.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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