O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior divulgou em agosto o saldo comercial por município no Estado de São Paulo referente ao primeiro semestre de 2010. Os dados são importantes como termômetro da economia, para saber como e para onde caminhamos. Se em direção a um Estado produtor industrial ou importador.
Aprincipal informação é que o saldo da balança comercial paulista foi deficitária em US$ 5,5 bilhões. Ou seja, São Paulo mais importou do que exportou entre janeiro e junho de 2010. Os números são estes: as exportações somaram US$ 25,6 bilhões, o que representou expansão de 18,8% em relação ao mesmo período de 2009. Já as importações totalizaram US$ 31,1 bilhões no semestre, acréscimo de 37% em relação a igual período em 2009.
Para efeito de comparação, as exportações brasileiras no período foram de US$ 89,2 bilhões de janeiro a junho de 2010 (aumento de 27,5% em relação ao mesmo período de 2009) e as importações somaram US$ 81,3 bilhões (acréscimo de 45,1%). O saldo positivo da balança comercial do Brasil – e é esse o dado que realmente importa na análise – foi de US$ 7,9 bilhões no período, uma queda de 43,4% em relação aos US$ 13,9 bilhões registrados no mesmo período de 2009. Em resumo: o País está seguindo uma tendência de importar mais e exportar menos.
SINAL AMARELO
Os números fazem acender uma espécie de sinal amarelo entre os empresários industriais do Estado. O déficit comercial registrado no primeiro semestre não é um bom sintoma para a corrente econômica, especialmente a geração de empregos industriais que, se afetada, acaba interferindo em toda a cadeia de comércio e prestação de serviços.
E porque ocorre o déficit comercial? Por uma lógica simples, dizem os economistas. Tudo começa com o incremento nas exportações de commodities como grãos da safra agrícola. Commodities são matérias-primas produzidas em grande quantidade por diferentes produtores e de qualidade quase uniforme, sem valor agregado (industrialização). Quando os setores produtivos de commodities vão bem nas exportações, há um aumento na entrada de doláres no país e com isso cai a cotação da moeda (na sexta-feira, na faixa de R$ 1,70). Em consequencia, há uma perda de competitividade na indústria exportadora, que dessa forma perde receita no comércio exterior, fazendo provocar um ciclo vicioso negativo. Os efeitos todos conhecem: freio nos investimentos.
FATOR CHINA
A invasão de produtos importados, em decorrência do câmbio, é um problema que se agrava cada vez mais, analisa Ricardo Martins, diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior do Ciesp. “A exportação de commodities traz renda para os cidadãos que vivem desse setor, mas provoca a desendustrialização, para o Brasil e favorece os produtos chineses”, prognostica. “Leva o País a uma volta à situação de colônia”.
A tendência de deficit na balança comercial se verifica no País há dois anos. Sinais foram detectados bem antes da última crise global em 2009. Um indicativo de que está se agravando o problema é que o déficit paulista no primeiro semestre quadruplicou de US$ 1,1 bilhão em 2009 para R$ 5,5 bilhões para 2010.
Como reflexo disso, Santos teve superávit na balança comercial de R$ 1,8 bilhão devido as exportações de soja e outras commodities. Exporta a produção de outras regiões.
REGIÕES INDUSTRIAIS
Mas municípios industrializados como São José dos Campos, Jundiaí, Mogi das Cruzes e Sorocaba ampliaram o seu déficit em relação a 2009. Quase todas as regiões se ressentem desse problema macro. Bauru, por exemplo, registrou aumento de 171% nas importações no primeiro semestre de 2010 e de apenas 28% nas exportações, um desequilibrio que agravou o déficit comercial da região.
Um dos segmentos que mais ressente é o de máquinas e equipamentos, cujo parque se espalha pelas regiões de Americana e Limeira. Não é casualidade o fato de Santa Bárbara d’Oeste, que sedia tradicional indústria do setor, ter sido o destaque negativo no semestre no balanço do MDIC, com queda de 41,5% na exportação de máquinas e equipamentos.
Merece reflexão o alerta vindo da catedral do PIB paulista. “Hoje essa é a maior preocupação da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo”, afirma Ricardo Martins.
Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br
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