O dentista e produtor rural José Alexandre, candidato a deputado federal pelo PV, foi sabatinado pelo GCN Comunicação na última quinta-feira, 9 de setembro. O candidato disse que sua principal proposta é estimular a produção de alimentos orgânicos e a agricultura familiar. Alexandre criticou os alimentos transgênicos e afirmou que uma de suas grandes preocupações é a falta de proteção das “sementes crioulas”. O candidato não se posicionou sobre diversos temas importantes, como segurança pública e a falta de recursos para Santa Casa de Franca. Sobre educação, Alexandre propôs um modelo alternativo: a “pedagogia Waldorf”, ainda mais flexível que o sistema atual de progressão continuada no Estado.
PRIMEIRO BLOCO
GCN Comunicação - Por que o senhor quer ser deputado federal?
José Alexandre - Já há alguns anos venho trabalhando com as questões de saúde. Mais recentemente, de 2004 para cá, tivemos a oportunidade de estar com um grupo de pequenos produtores, processadores de alimentos orgânicos, na Alemanha, em uma feira internacional. Tivemos a oportunidade de fundar uma associação que vem fazendo a mediação entre governo, produtor e processador, que é a Brasil Bio. Precisamos ter uma representação a nível nacional para que esse movimento continue a crescer.
GCN - O senhor é pouco conhecido em Franca. Na prestação de contas entregue à Justiça Eleitoral, está registrada uma receita pouco superior a R$ 14 mil. O tempo do seu partido no horário eleitoral gratuito também é pequeno. Como espera conseguir os votos necessários para se eleger deputado federal?
Alexandre - Tive várias reflexões sobre essa minha iniciativa na política. Percebi que, durante a minha vida, desde que me formei em odontologia, venho trabalhando por uma causa maior do que eu. Exerci por dois mandatos a presidência da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas aqui em Franca. Tivemos vários contatos com todas as regionais no Estado de São Paulo. São 80 regionais no Estado, são mais de 80 mil dentistas. Entramos também para esse movimento orgânico. Só no Estado de São Paulo, são muitas cidades do interior que estão trabalhando com essas propostas, com a agricultura familiar, da alimentação saudável. Estamos fazendo um trabalho via internet, tentando lembrar todos esses contatos que eu tive no decorrer da minha vida.
GCN - Mas candidato, R$ 14.995,50 é muito pouco dinheiro para uma campanha de deputado federal. Como o senhor vai fazer para alcançar o número de eleitores minimamente necessário para vencer as eleições?
Alexandre - Estamos trabalhando via internet, com website. Estamos fazendo um trabalho com a classe odontológica, com todo o movimento orgânico. Temos também um grupo em algumas cidades do interior que está fazendo um trabalho voluntário.
GCN - O senhor acha que é suficiente? Isso coloca o senhor em condições de vencer a disputa?
Alexandre - Acho que não seria o suficiente, mas estamos trabalhando com os recursos e doações que recebemos.
SEGUNDO BLOCO
GCN - Recentemente, os EUA liberaram as pesquisas com células-tronco embrionárias para testes em seres humanos. A ciência aposta numa revolução, especialmente na chance de cura de doenças degenerativas, a partir dessas pesquisas. A Igreja Católica condena a pesquisa. Qual a posição do senhor a respeito? Caso eleito, votaria a favor ou contra a liberação de pesquisas com células-tronco embrionárias?
Alexandre - Esse tema requer um aprofundamento na área, um estudo mais detalhado. Para você ter uma noção, estamos trabalhando em uma pesquisa dentro da odontologia com células-tronco maduras, onde existe a possibilidade de desenvolver a terceira dentição. Com relação às células-tronco embrionárias, defendo a pesquisa, defendo a ciência como um processo de continuidade e de comprovação, mas também quero estar bem atento às comissões de ética.
GCN - A Argentina aprovou há algumas semanas uma legislação que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo, seguindo muitos países onde a situação já está regulamentada, como Canadá, muitas nações européias, a África do Sul e alguns estados americanos. No Brasil, a questão segue controversa. O senhor defende a regulamentação dos direitos dos homossexuais?
Alexandre - Relacionamento é uma coisa muito individual. Temos que respeitar. Vivemos em um país democrático. Isso tem que ser regulamentado.
GCN - O senhor votaria a favor?
Alexandre - Sim, votaria.
GCN - E o senhor é contra ou a favor de que estes casais tenham o direito de adotar crianças?
Alexandre - Isso é um trabalho que prefiro aprofundar melhor, requer um estudo melhor sobre isso, no sentido de que a gente possa dar condições dessas crianças serem acolhidas dentro de uma amorosidade que proporcione o desenvolvimento. Não podemos padronizar. As leis não podem ser lineares, não podemos definir as regras para todo mundo.
GCN - Mas as leis são feitas para o senso comum. As exceções são exceções. Via de regra, o senhor defende que um casal homossexual possa adotar uma criança ou o senhor pensa que não poderia?
Alexandre - Se realmente for algo que venha a trazer amor às crianças, acho que isso é viável.
GCN - Qual sua opinião sobre o projeto de lei que proíbe palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças e adolescentes?
Alexandre - Essas leis vieram para corrigir abusos. Quero fazer um trabalho em defesa da não violência. Vejo que os processos corretivos são importantes, desde que não sejam abusivos. A lei vem para corrigir as questões abusivas.
GCN - Mas o senhor não acha que as questões abusivas já estão corrigidas no âmbito do Estatuto da Criança e do Adolescente? O que esse projeto coloca, claramente, é a proibição total e absoluta de toda e qualquer palmadinha corretiva. O senhor concorda com esse projeto?
Alexandre - Acho que isso requer um estudo mais aprofundado, requer uma definição junto com a sociedade.
GCN - Sempre que crimes hediondos abalam o País, como os casos que envolvem Eliza e Mércia, supostamente mortas por seus namorados, ganha força a discussão da adequação das penas no Brasil. O senhor é contra ou a favor da pena de morte?
Alexandre - Sou a favor da vida. A pena de morte não resolve a violência, por pior que ela seja.
GCN - O senhor acredita que a pena máxima de 30 anos é suficiente, inclusive para autores de crimes hediondos? O senhor votaria a favor de penas mais duras?
Alexandre - Vejo o sistema penitenciário do Brasil como algo totalmente equivocado. Como você pode colocar alguém 30 anos em uma cadeia se você não dá condições de refletir, reformular e reestruturar a sua vida? Temos que reestruturar todo o sistema penitenciário. Não cabe a mim fazer isso, mas cabe à sociedade propor essas mudanças. Todo esse processo começa no processo educacional. E cabe ao país e aos nossos governantes começar a focar na questão pedagógica e educacional que ajuda a desenvolver a cidadania e os valores reais do ser humano.
GCN - Mas isso é para o futuro. O senhor tem um problema concreto e será eleito deputado federal, caso consiga, para representar uma população. Como o senhor se posicionaria? O senhor acha que 30 anos são suficientes?
Alexandre - Não tenho um estudo aprofundado sobre isso. Gostaria de estudar melhor junto com um grupo de pessoas para poder ter uma opinião. Não trabalho nesse sentido, mas quero aprofundar para entender melhor como posso ajudar essa pessoa que está condenada a 30 anos a reduzir a sua pena.
GCN - O senhor acha que, em tese, todo ser humano é recuperável?
Alexandre - Acredito no ser humano...
GCN - Mesmo um assassino que é autor de um crime hediondo?
Alexandre - Mesmo um assassino. Ele é vítima. Na maioria das vezes, ele é uma vítima do processo.
GCN - O debate sobre o avanço das drogas ilícitas, como maconha, cocaína e, especialmente, crack, é intenso. Há quem defenda a liberação do consumo de algumas drogas como meio de combater e enfraquecer o tráfico. Qual sua opinião sobre o tema?
Alexandre - Temos que combater. Temos que ir de encontro à origem disso. Agora, requer um estudo, requer um aprofundamento de leis que realmente consigam coibir, onde o ser humano não precise recorrer a uma morte lenta através da droga.
GCN - Uma pesquisa feita pelo Hospital das Clínicas em São Paulo aponta que no Brasil mais de 5,3 milhões de mulheres já praticaram um aborto, quase sempre em condições precárias em clínicas clandestinas. Na prática, uma em cada cinco mulheres em idade fértil já abortou no Brasil. O senhor é contra ou a favor a legalização do direito ao aborto?
Alexandre - Temos que aprofundar sobre isso. Hoje o aborto é uma questão de saúde pública. Requer uma atenção específica e uma orientação sobre como podemos ajudar estas questões dentro do Congresso. Não podemos fazer uma lei que possa simplesmente legalizar. Temos que estudar especificamente cada caso.
GCN - Qual a posição do senhor em relação à reforma trabalhista que moderniza as relações entre patrões e empregados?
Alexandre - As questões relacionadas à reforma trabalhista têm que passar por uma reforma tributária. Caso contrário, não conseguimos promover essa integração entre patrão e empregado.
TERCEIRO BLOCO
Alexandre - Em uma dessas viagens, precisei realmente me voltar para dentro de mim e tentar ver se existia espaço para a política. Percebi que, durante toda a minha vida, sempre fiz política como um servo, um trabalho para algo maior. Não sabia que isso era política. A partir daí, resolvi trabalhar em prol desse algo maior, que é a agricultura orgânica, a agricultura familiar.
Alexandre - (pausa) Estive turisticamente nessas três casas (risos). Mas nunca pensei que um dia estaria entrando nelas como uma casa de trabalho minha.
Alexandre - Acho complexo propor mudanças radicais. Mas temos que reconstruir todo um processo pedagógico, investindo, principalmente, nas questões dos professores, instruindo eles, mostrando para eles que existe outras metodologias de ensino que vêm de encontro com o desenvolvimento de talentos. Não podemos mais embutir um conhecimento para uma criança que ela nem está preparada para receber. Acredito na “pedagogia Waldorf” como uma ferramenta para trazer mudanças.
Alexandre - Não temo porque já vivi essas experiências e conheço várias escolas que adotam a pedagogia de Waldorf. Conheço as pessoas que saíram dessas escolas. Para você ter um noção, em Franca, tem uma indústria aeronáutica e uma das pessoas que é gerente dessa indústria saiu da escola Waldorf.
Alexandre - A questão teosófica é inerente ao ser humano. Cada um tem o livre arbítrio de escolher essa ou aquela teosofia. A “pedagogia Waldorf” respeita a teosofia individual dentro de cada um.
Alexandre - Sinto que a escola está muito alienada das questões ambientais. Temos que mostrar como funciona a produção de uma alimento saudável, levar a criança para dentro da natureza, fazer um estudo participativo em relação à própria natureza. A natureza continua sendo uma grande professora. Não podemos mais alienar as crianças dentro de um quadrado e jogar um punhado de matérias na lousa e obrigar elas a engolirem isso.
Alexandre - Gostaria de conhecer como funciona todo o sistema. Eu ainda desconheço como funciona a Santa Casa...
Alexandre - Acho que pode ser, mas não tenho conhecimento de tudo. Vou estar dentro de cada departamento aprendendo, estudando e aprofundando para poder defender realmente aquilo que vem de encontro à comunidade, que vem de encontro à sociedade.
Alexandre - Acho que a questão é uma ciência, tem que ser pesquisada. Tem que ser dada a oportunidade das crianças estarem pelo menos conhecendo essa faceta.
Alexandre - Não podemos impor nenhuma tese, principalmente a quem está em processo de formação. Temos que dar liberdade para as pessoas escolherem. Não podemos cercear a liberdade de escolha. Se viemos do criacionismo ou não, ou da própria pesquisa darwiniana que fala do evolucionismo, temos que dar opção de escolha.
Alexandre - Não. Acho que não.
Alexandre - Acredito no Partido Verde por todas as questões de sustentabilidade que ele traz. Ele está alinhado com aquilo que a gente vem fazendo durante a vida. Não gostaria de colocar um conceito disso ou daquilo. Gostaria de estar, de alguma maneira, dentro de todas as facções. E, voltando um pouco na pergunta anterior, vim de uma religião espírita, mas meus pais vieram de uma religião católica. Casei com uma pessoa católica, estudei muito a Bíblia. Passei a estudar e fiz uma busca pessoal. E, dentro desse caminho, vejo as questões religiosas como se fossem um jardim, onde cada religião tem um perfume divino. Acredito nisso.
Alexandre - Fiz o meu caminho de busca. Encontrei isso e, quanto mais eu saí de um processo individualista, encontrei o todo. Cada um tem a sua liberdade de buscar e nós temos de dar essa oportunidade para as crianças.
Alexandre - Sou a favor do direito de posse de cada um. Agora, podemos reestruturar um processo de reforma agrária fundamentada em projetos que ajudem a sedimentar o processo na terra. Existem muitos camponeses que, pelo êxodo rural, vivem na cidade e que não estão satisfeitos com suas vidas. Podemos nos organizar e discutir isso para poder construir algo que sedimente. Agora, se você vai e invade as áreas produtivas, não acho que esse seja o melhor caminho.
Alexandre - Tudo é uma imposição. Se você entra em um processo de imposição, você está transgredindo a liberdade humana. Sou contra.
Alexandre - A agropecuária tem que ser integrada ao sistema de produção alimentar. Ela, sozinha, tem provocado muito estrago no meio ambiente, na natureza. Temos que fazer um planejamento onde ela não deprede e não destrua as nossas florestas.
Alexandre - Os estudos que foram feitos do projeto de aumentar a produção, temos constatado cientificamente que não tem esse efeito, muito pelo contrário. O Brasil hoje é o país que mais consome agrotóxico no mundo.
Alexandre - Não.
Alexandre - Não posso falar muito. Se estamos em um processo de alto índice de tributação, por que votar a favor de uma CPMF? São questões que eu me questiono. E essa CPMF tinha questões específicas e não foram usadas. Temos que discutir, não podemos deixar passar em branco.
Alexandre - Vim de uma família de muitos políticos. Tenho uma admiração pelo Joaquim (Ribeiro, vereador), pelo tio Maurício (Sandoval, ex-prefeito de Franca) e pela Marina (Silva, candidata do PV à Presidência) . Ela é uma pessoa de paz, é uma grande brasileira.
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