Reportagem de Joelma Ospedal (editora-chefe) e Nelise Luques, da Redação
O estudante Leandro Caldeira da Cruz, de 15 anos, foi levado pelos pais na quarta-feira, 8, ao Pronto-Socorro “Janjão” porque estava com dores no peito. O primeiro médico que o atendeu pediu exames para poder avaliá-lo melhor. Quando os resultados do eletrocardiograma e raio-x do coração ficaram prontos, outro plantonista avaliou os exames. Segundo o pai, o lavrador Adão da Cruz, 37, o clínico geral disse que seu filho estava com o “coração inchado” e deveria passar pelo cardiologista no NGA-16. O adolescente foi, então, medicado no pronto-socorro e liberado. Leandro morreu 48 horas depois, em casa, sem ter passado pelo especialista. O jovem de 15 anos sofreu uma parada cardiorrespiratória na chácara em que morava com a família e morreu na tarde de sexta-feira. Para a família, houve falha do médico, que deveria ter internado o garoto.
É impossível afirmar, neste instante, se houve negligência ou erro no atendimento, uma vez que o caso ainda será investigado pela Secretaria de Saúde. Mas o fato é que Leandro é o terceiro paciente que morre pouco depois de passar por atendimento no “Janjão” no intervalo de apenas dez dias. E, em todos os casos, é difícil não associar as ocorrências às dificuldades de entendimento entre “Janjão” e Santa Casa no tocante à internação de pacientes. O tempo distendido entre o pedido de internação encaminhado pela prefeitura e a definição de uma vaga pelo Governo do Estado é um dos pro-blemas que precisam ser revistos. Assim como também precisam ser reavaliados os critérios que levam a autoridade responsável em São Paulo a negar internações.
Os pais do garoto, muito abalados com a morte ainda inexplicada do filho mais velho, estão inconformados com o atendimento oferecido. Eles alegam que pediram para que o filho fosse internado, mas não conseguiram. “A gente pediu para o doutor mandar para a Santa Casa ou para o Hospital do Coração porque a gente mora na roça e é complicado. O médico falou que ele passando pelo especialista iam ver se precisava internar”. Para o pai, se fosse para o hospital, o filho poderia ter sido salvo. “Foi falha do médico que viu que o coração estava inchado e não mandou internar. Fiquei desesperado, danei com o médico, mas não adiantou. Eles deixaram meu filho morrer. Ele não podia deixar um menino de 15 anos com o coração inchado voltar para a roça”, desabafou.
A TRAGÉDIA
Na quinta-feira, dia seguinte ao atendimento no PS, a família disse que foi até a UBS (Unidade Básica de Saúde) da Vila São Sebastião para agendar a consulta no NGA. Segundo Adão, a atendente disse que não tinha vaga e pediu para voltarem na sexta-feira às 17 horas.
Preocupada, a mãe de Leandro, a lavradora Maria dos Anjos, 34, antecipou a ida à UBS. Chegou ao local horas antes do combinado e soube que a consulta havia sido marcada para terça-feira. Ela relata que, apesar de pedir urgência, conseguiu agendar a consulta com um especialista apenas para o dia 14 de setembro (terça-feira que vem), mas não houve tempo. Três horas depois de ser informado da data, Leandro morreu em casa.
A mãe acredita que pressentiu que algo pior iria acontecer. “Meu filho não estava mais com dores no peito, mas me deu crises de choro. Não sei o que aconteceu comigo que eu só chorava, parece que eu estava adivinhando”, disse ela, muito abalada, enquanto esperava o corpo do filho chegar para ser velado na tarde de ontem.
A mãe, muito emocionada, detalhou como foram os últimos momentos de vida do filho. Ela contou que, depois de ir até a UBS pela segunda vez, Leandro voltou para casa e passou mal enquanto tomava leite e comia bolo, por volta das 17 horas. Ele estava sentado na varanda quando a mãe ouviu o irmão de 11 anos gritar que o adolescente estava caído no chão. “Quando cheguei ele estava roxinho. Pegamos o carro e corremos para a Santa Casa. Eu abraçava meu filho e via que estava mole, sem pulso”, disse ela. “Meu filho era tranquilo e saudável. Tinha bronquite, mas as crises haviam parado”, disse o pai.
Leandro era o mais velho de quatro irmãos. Os pais têm duas filhas de 13 e 5 anos e um menino de 11. Estudava na Escola Estadual “Luiz Paride Sinelli”. Seu sonho era, ao completar 18 anos, tirar carteira de motorista e comprar uma moto. Amigos da escola ligaram para saber se estava bem e foram informados da morte de Leandro. Ficaram chocados. O atestado de óbito aponta a morte por cardiopatia e parada cardiorrespiratória. A família deve denunciar o caso à polícia. O adolescente foi enterrado no Cemitério Santo Agostinho.
CASOS
Além de Leandro outras duas mortes ocorridas em circunstâncias de difícil compreensão devem ser investigadas pela Secretaria de Saúde.
A primeira morte ocorreu no dia 1º. Com hipertensão, Maria das Graças de Souza, 47, passou 17 horas numa maca no “Janjão” aguardando vaga para ser internada na Santa Casa. Não houve autorização e ela morreu. No dia 7, a sapateira Luciana Mendes Cruz, 21, morreu de insuficiência respiratória na Santa Casa. Ela havia passado pelo pronto-socorro três dias seguidos com dores de cabeça, no peito e fraqueza. O enca- minhamento para a internação chegou tarde.
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