O CVV - Centro de Valorização da Vida, entidade mundial de prevenção do suicídio, voz amiga com a qual os que têm problemas podem contar nos momentos de depressão ou ansiedade, chegou à internet.
Surpreendi-me. Sou um ex-voluntário desta causa. Participei da montagem do grupo francano do CVV ao início da década de 80 e aprendi, lá, que ouvir sem ajuizar e sem aconselhar significa devolver a qualquer um, sua capacidade de pensar com a própria cabeça, criar soluções para problemas que até então julgava incontornáveis.
Para tanto, também aprendi que tinha que haver ponte sonora ou física entre os interlocutores. O som da voz preocupada tem um calor diferente que transfere o grau de excitação, exaltação ou ansiedade que acomete a pessoa que fala. Quem treina, aprende a mensurar. Torna-se capaz de identificar nuances, palavras soltas, silêncios que identificam o que vai na alma. Pessoalmente é ainda melhor: o gestual escancara a história mesmo quando há silêncio absoluto.
Durante décadas, voluntários do CVV tornaram-se especialistas em gente. Quantas vidas foram preservadas pela prática da empatia, do exercício do saber ouvir e escutar. Você já ouviu dizer que tem gente que só ouve mas não escuta? Os plantonistas escutam. E compreendem. Quantos desassossegados encontraram, por si mesmos, respostas para seus males quando alguém, mesmo desconhecido, lhes deu atenção, parou, ouviu, não ameaçou com conselhos impróprios.
Pois é. Enderecei a incontáveis que o CVV é uma das únicas escolas capazes de ensinar as pessoas as ouvirem num mundo em que fazer isso é a última das preocupações. Ninguém tem tempo, sabe?
Pois volto à minha surpresa. Um de meus companheiros de pauta deste Comércio comentou sobre a mais nova experiência do CVV: atendimento por chat!!! Agora, se você se sente só em qualquer parte do mundo, isolado pela barreira do idioma ou pelas mazelas do coração ou da mente, pode lincar-se ao site www.cvvnet.org.br e, pasme, teclar com um plantonista da entidade. Pus-me a pensar. Como é possível praticar o que o reverendo Chad Varah, criador da entidade mundial (com quem tive a honra de conviver e até, de presentear com um par de calçados Donadelli, feito especialmente para que ele celebrasse dia especial de sua vida de sacerdote na Catedral de Saint Patrick, em Londres) chamava de “befriending”, ou, em português livre, aceitação integral do outro seja ele quem for, “olhos nos olhos”, “ouvidos dedicados a ouvir”, rumo à empatia de relacionamento que permite a reconstrução de quem está destruído?
Sérgio Marcos de Oliveira, da Comunicação do CVV de Franca explicou: “as palavras fluem hoje, na Internet, carregadas de emoção, especialmente quando a gente sabe que conversa com alguém em quem pode confiar”.
Ele é um dos 56 plantonistas virtuais que estão atuando no site que registrei ai em cima. Conta-me que a experiência deu certo e funciona desde novembro do ano passado. Comentou sobre casos de pessoas jovens que chegam a mostrar, durante o chat, trechos de mensagens que pretendiam deixar para suas famílias, caso pusessem termo à vida. Falou de outros casos (e, fiquem todos tranquilos. Nenhum plantonista da entidade abre detalhes sobre quem quer seja. O anonimato continua garantido e basilar do trabalho essencial ao qual se dedicam), típicos da ausência de fronteiras da grande rede: brasileiros nos Estados Unidos, Portugal, Alemanha teclando, encontrando com quem conversar sobre seus problemas, alcançando resultados.
A nova sistemática aumentou em muito o acesso de jovens à entidade. O sonho de Varah toma novo fôlego. O que o reverendo pôs-se a fazer voluntariamente em uma pequena sala dos fundos de uma igreja em ruínas para oferecer conhecimento capaz de salvar jovenzinhas cuja primeira menstruação significava “doença” e desejo de ‘morrer antes” que a “doença se agravasse”, moderniza-se. Divulgo. A Globonews entrevistou, há alguns dias, Arthur Mondim, um dos líderes do CVVnet. Veja em http://globonews.globo.com/Jornalismo/GN/0,,MUL1616574-17671,00.html. Vale a pena saber que o mundo ainda tem jeito.
DÓI, NÃO DÓI?
E não é que recebi várias comentários para a pergunta sobre fibromialgia que grafei em minha coluna da semana passada? Grato a Ramon Ribeiro, que falou em Terapia Real, que vou conhecer melhor para direcionar a meus leitores. Também, ao Saulo Bueno, que revelou integrar o grupo estressado que luta contra as “dores andantes”. Vamos vencer, caros. Somos muitos e já somos quase a “normalidade” dentre os poucos privilegiados que não sentem rigorosamente nada e são a exceção. E que a Medicina nos acuda!
ELEIÇÕES 2010
A assessoria mais próxima de Paulo Skaf comentou com a gente: “vocês são referenciais no jornalismo que praticam. Estas sabatinas são o que de melhor vimos para que as candidaturas possam divulgar pensamentos, propósitos, crenças, sem ‘pegadinhas’, ameaças ou distorções. A inquirição é profissional, antenada, capaz de formular controvérsias inteligentes. Aula de democracia. Quem não aparece, perde”.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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