Era já noite quando o telefone tocou. As palavras rápidas não me davam oportunidade de entendimento, aos poucos o ouvido organizou a sintaxe, desvendou palavras ditas pela metade, percebeu silabadas, o tio passava-me sermão, compreendi.
Após alguns impropérios o homem serenou a voz, contou que passara pela minha casa mais cedo, tocara a campainha, a alma sistemática proporcionara espaço à brincadeira, dera gravidade mentirosa à voz, pedindo um naco de pão que fosse, pois estava faminto e com sede.
O trotar dos minutos afugentou a paciência do homem, houve novo tilintar. O portão foi aberto: uma jarra de suco, dois pães com mortadela e alguns guardanapos equilibravam-se entre os braços da criança.
O tio irritado deu bronca:
- Como podia, em meio a tanta violência, tamanha ingenuidade, há pessoas muito más soltas pelo mundo e, pelo visto, bobo não falta.
O sobrinho recolheu quieto os alimentos, cerrou o portão sem devolver palavra.
Após colocar o telefone no gancho, ruminei toda a história, um silêncio dolorido desabou meus ombros, tive dó.
Dó do tio que habita em mim e que inúmeras vezes recusou conversa ao telefone, que mantém tranca rija no portão, mas que pede....pede....pede e raras vezes ouve um não.
Dó do bobo que vivia em mim, que neste momento erra distante, levando consigo boa parte daquilo que eu queria ser.
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