"Rastros de Cantos"


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TENHO costume de listar livros que gostaria de comprar e ler. Periodicamente percebo por onde meu interesse passeou através desta lista: resenhas que li, temas que gravitam meu espírito, uma indicação, são os motivos que fazem a lista engordar para o lado da psicanálise, ou para a filosofia, antropologia, poesia, romance. É um leque amplo e inesgotável.


Um dia, revi na lista este título que me seduziu, pela polissemia despertada em mim “Rastro de cantos” -reli a resenha que digitei, então, copiada de um jornal de São Paulo, há alguns anos. O autor do livro é Bruce Chatwin, escritor que narra suas viagens, morto em 1989, com 49 anos. O escritor John Updike diz que Chatwin condensa mundos em páginas.


Achei, depois de muito tempo procurando, um exemplar no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa, um lugar de delícias para quem adora livros.
 

Li, devorando, esta viagem do autor à Austrália, focada na distribuição das tribos de aborígenes pelo território australiano. Trata-se de uma trajetória feita pelos antepassados e repetida, ritualmente, pelos descendentes, através de cantos. Os cantos dos antepassados retratam as plantas, os bichos, os obstáculos (monstros, batalhas) que cada tribo, desde tempos imemoriais, encontrava em seus caminhos. Uma tribo define o seu rastro através do canto, e este se torna, assim, bastante identificador.


Há nisso uma maravilhosa poesia. Há um personagem, narrador, com o mesmo nome do autor Bruce. Seus personagens têm sabor, e cor humana. Vemos, através deles, a diversidade de um pensar e sentir de quem vive numa terra diferente da nossa.
 

Como o canto das diferentes tribos deixa rastros? Com que delicadeza Bruce Chatwin conta sua experiência, como viajante, um antropólogo de almas, um cantador ele mesmo. Não seguimos catálogos, uma classificação técnica, e sim a visão de um homem que segue o inefável, e tenta compreendê-lo a partir de sua condição de estrangeiro. É livro tanto de ficção como de não-ficção.
 

Ao fechar o livro não me tornei, imagino, mais sabedora do mundo exótico australiano. Mas confesso que me senti povoada, enriquecida. Fiquei atraída pela forma como o autor se inseriu no meio de um povo que guardava, no sangue e no espírito, sua história e sua cultura, através de cantos. Mais além de informação sobre uma cultura, aprende-se a olhar e sentir os preconceitos que nos impedem de olhar e sentir o essencial, a poética do viver.


É possível algo mais delicado e profundo? Marcar território com música, palavras e silêncios? Chatwin relacionou estes cantos com a criação mítica, com a localização político-geográfica, atlas, e com a história pessoal do aborígene.
 

Relacionou as andanças dos aborígenes com suas próprias viagens, e com o longo nomadismo humano, no passado.
 

Eu me deixei levar por um devaneio: qual rastro deixo, na minha vida para os netos e bisnetos? Que tipo de canção lego na minha trajetória?
 

Rastros. Pegadas. Sinais. Trilhas. Veredas. Sendas.
 

Que tipo de clã, saga, agrupamento decorre dos rastros que deixamos?
 

Chatwin, a uma dada altura, relaciona a “inquietação geográfica”, que o levou a se deslocar em inúmeras viagens, com o desejo de reencontrar o pai. Um canto pessoal, seu.
 

Seu canto “à procura de” ressoou humanamente em mim. É bonito pensar assim: procuramos e deixamos rastros, ao longo de infinitas andanças.
 

Os aborígenes australianos são convictos de que seus rastros se definem pelos cantos. Cantando sabem quem são, quem foram, quem serão.
 

 O biógrafo de Chatwin, Nicolas Shakespeare, responde às controvérsias provocadas pelo autor sobre os personagens que descreve em suas viagens, dizendo que Bruce Chatwin não diz meia verdade, mas sim verdade e meia.
 

O livro é o seu rastro e seu canto.

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