Olho que olho no espelho, leio que leio, busco que busco e nada. Sinto-me um mistério complicado no que diz respeito a afetos e amores. Possuo uma mente complexa, meu raciocínio segue por linhas tortas e me surpreendo com o final das trajetórias das minhas sinapses.
Não há uma razão específica para tantos desajustes e pode ser que eu seja mais lúcida que a maioria das pessoas da minha geração. Pode ser. Meus amigos mais sinceros dizem que eu não tenho mais jeito; o terapeuta segura minha onda - numa prova evidente de sua competência, habilitação, formação e bondade. O que eu acho? Bem, tenho minhas teorias.
Anos quarenta - tempo de gerúndios: guerra mundial terminando. Europa ganhando nova configuração. Estados Unidos e Rússia despontando como nações poderosas. Japão, derrotado, começando a aparecer. O mundo despencando, a indústria hollywoodiana produzindo seus ídolos de acetato. E eu, nascendo. Encontrei escombros de guerra, não ela propriamente dita, porém estavam me esperando no caminho Carmen Miranda, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins, Rita Hayworth, Ava Gardner, Cid Charisse, Emilinha e Marlene, Cauby, Ataulfo Alves, Fred Astaire e Ginger Rogers, Francisco Alves. (Agora pergunto: eu podia crescer normal?). Imagine só a trilha sonora dos meus primeiros anos: mamada da manhã ouvindo Orlando Silva cantar Rosa, do Pixinguinha. Nelson Gonçalves me premiando com Renúncia (Hoje não existe nada mais entre nós) no almoço. Minha mãe cantando Número Um (Passaste hoje ao meu lado) para eu dormir à tarde. No jantar meu avó solando Estrellita (Manuel Ponce) no violão, intercalando com Boneca (Benedito Lacerda e Aldo Maoraes), que ele aprendeu com Sílvio Caldas. Pergunto novamente: no que diz respeito à formação de conceitos românticos, amores e felicidade, era para eu ser normal?
Cresci assim, na chamada época de ouro da MPB, alinhavando minha formação romântica com músicas melancólicas e apaixonadas; lendo e acompanhando nos livrinhos de música as letras trágicas e melodramáticas dos sucessos radiofônicos da época, a nostalgia tomando conta do meu peito. Bem, teve a Bossa-Nova, o Twist e o Rock, mas aí minhas preferências já estavam sedimentadas e eu preferia mil vezes cantar sob a lua qualquer boleraço, que rebolar ou me contorcer... Se as outras meninas tinham bonecas, eu tinha um rádio para me divertir. Nessa época, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins faziam parte da minha infância.
Ao crescer, esqueci-me deles. Conheci Pery Ribeiro - o filho - numa apresentação musical. Li, em 2006, o livro sobre o polêmico e tórrido amor dos dois - leitura triste e trágica ao mesmo tempo. O tempo passou. Dalva e Herivelto voltaram à minha vida, desta vez em forma de vídeo! Com eles ressuscitaram as canções que minha mãe cantava e as tardes de sábado da Rádio Nacional. Vieram como tufões as emoções provocadas pelo duplo sentido das músicas que cantavam um para o outro, cujas palavras se tornavam verdadeiras lanças afiadas e venenosas. Agora estou aqui, com os olhos inchados de tanto chorar por um romance frustrado de duas pessoas que nunca conheci pessoalmente. É. Não tive a menor chance de ser normal...
Tudo mudou. A música romântica é tão estranha para os jovens, quanto a eletrônica para os mais velhos. Se a letra das antigas é rebuscada e cheia de voltas e reviravoltas gramaticais, a letra das eletrônicas repete unicamente um som - que faz as vezes da letra: tum-tum-tuntistum. Não há mais sax, clarineta, flauta: só um agudo sintetizador. A gente dançava colados dos pés à cabeça. Os jovens dançam balançando a cabeça pra cima e pra baixo. Nosso torpor era provocado por hormônios: nada de estimulantes químicos. Se romances aconteciam, duravam mais que a parceria do tempo de execução da música. Diante disso, prefiro não ser normal e ser ‘antiga’. Prefiro ter Dalva e Herivelto como casal referência. Prefiro me emocionar com paixões mal resolvidas. Prefiro ter lembranças. Mil vezes ser romântica!
LIVRO
Minhas duas estrelas é o título do livro/depoimento escrito por Peri Ribeiro e Ana Duarte, no qual ele pormenoriza a vida e a relação turbulenta dos pais famosos. Lançado em 2006, voltou às livrarias depois de ter sido usado como referência para a criação do roteiro da minissérie produzida pela Globo e apresentada no início deste ano. Traz ricas informações sobre música e compositores brasileiros, principalmente os dos anos 40 e 50.
MINISSÉRIE
Em janeiro deste ano a Globo levou ao ar a minissérie Dalva e Herivelto - Uma canção de Amor. Figurino perfeito, produção impecável, artistas fantásticos. O DVD já está nas lojas, item de colecionador, sem dúvida. Depois que se separaram os dois artistas ficaram com seus egos feridos e começam um antológico duelo musical que repercute ainda hoje, tantos anos passados.
DUELO
Dalva gravou Errei Sim (manchei o teu nome, mas foste tu mesmo o culpado), Tudo acabado (tudo acabado entre nós, já não há mais nada...), Atiraste uma pedra ( no peito de quem só te fez tanto bem...), Palhaço (Sei que é doloroso um palhaço se afastar do palco por alguém...). Agora me diga: uma briga conjugal travada em público e com trilha musical vendida em discos bolacha preto, de 78 rotações? Isso existe?...
DÚVIDA
Herivelto Martins e David Nasser foram estranhos parceiros: um usou o outro como alavanca de promoção. No entanto compuseram uma das mais belas declarações de amor de todos os tempos: Pensando em ti (Eu amanheço pensando em ti. Eu anoiteço pensando em ti. Eu não te esqueço, é dia e noite pensando em ti...). Mesmo tendo visto o vídeo, não consigo descobrir: para quem Herivelto fez a música?
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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