A jovem Luciana Mendes Cruz, 21, conhecida como “Preta”, era coladeira de peças numa banca na Vila Formosa, mesmo bairro em que morava. Na sexta-feira passada, 3, trabalhou normalmente. Começou o expediente bem cedo, às 6h15, e encerrou o serviço às 5 horas da tarde. Ao chegar em casa, se queixou de dor de cabeça e fraqueza. Desconfiou que estivesse com virose. No sábado, o mal estar continuou e Luciana decidiu passar pelo médico no Pronto-socorro “Doutor Janjão”. Durante três dias seguidos, ela perambulou pela rede pública de saúde e foi até a unidade, segundo o companheiro Alex Rodrigues Costa, 28, por cinco vezes porque a dor não cessava. Luciana morreu de insuficiência respiratória e pneumonia no dia 7 após ser transferida para a Santa Casa. A família está revoltada e acusa os médicos de negligência. Os parentes registraram boletim de ocorrência na polícia.
Alex disse que a luta de Luciana para se livrar das dores começou no sábado. Primeiro, ela teve dor de cabeça, fraqueza e teria escarrado sangue. No domingo, começou a sentir dores no peito também. No “Janjão”, em dias diferentes, foi atendida, fez exames de raio-x, recebeu medicamentos e foi liberada para casa, exceto na segunda-feira quando o seu estado de saúde se agravou muito e precisou ser encaminhada para internação na Santa Casa, onde acabou não resistindo. “Os médicos me falaram três diagnósticos diferentes. Primeiro falaram que ela estava com bronquite, depois falaram que era virose e, na última vez que levei, quando ela estava bem ruim, disseram que era pneumonia”, disse Alex. O secretário de Saúde, Alexandre Ferreira, confirma que a vítima esteve três dias seguidos no pronto-socorro municipal, mas que teriam sido quatro vezes e não cinco como afirma o companheiro dela.
Alex alega que havia pedido para internarem Luciana, mas não foi atendido. Ele acusa o pronto-socorro de negligência. “Desde sábado a gente vinha pedindo vaga para internar. Fazia três anos que eu estava com ela e nunca teve gripe nem ficou internada. Ela tinha uma saúde estável. Para mim, é negligência porque uma menina saudável, de 21 anos, morrer assim não tem lógica”. O secretário de Saúde disse que, a princípio, os procedimentos adotados no “Janjão” foram corretos, mas ele irá investigar o caso para apurar se houve negligência (leia mais em apoio).
Lucicléia Mendes Cruz, 21, é irmã gêmea de Luciana e está indignada com a morte da jovem. Para ela, providências devem ser tomadas para evitar “que outras pessoas enfrentem o mesmo”. “Ela era saudável, sempre alegre e não reclamava de dores. Não entendi nada do que aconteceu com minha irmã. Estamos revoltados. Acho que foi erro médico. Deveriam ter atendido a Luciana melhor, mas deixaram minha irmã no corredor como um bicho. Quero que seja feita Justiça porque negligência já aconteceu com várias pessoas”.
COMOÇÃO
Luciana completaria 22 anos no dia 21 de setembro. Deixa três filhos pequenos: Kaíque, 6, Luís Gustavo, 5, e Rafaela, 3, filhos de outro relacionamento. Ela tinha seis irmãos, sendo uma gêmea.
O velório da jovem foi realizado no Cemitério Santo Agostinho, em Franca, e o enterro em Pedregulho, na tarde de ontem. Parentes e amigos fizeram homenagens a ela. Em cartolinas coloridas, escreveram frases como “Preta sempre em nossos corações. Jamais esqueceremos suas brincadeiras... suas trapaças e sua alegria...” e “Preta, sabemos que nenhuma folha cai se não for da vontade de Deus, mas vai ser difícil sem você! Esteja em paz!”
Colaboraram Daniel Rodrigues e Marcos de Paula