A afirmação é da presidente do Magazine Luiza, Luiza Helena Ignácio Trajano, 57. Prestes a transferir o escritório de negócios do grupo para São Paulo, a empresária anuncia investimentos em Franca, berço da rede varejista. “O Magazine Luiza trará para a cidade, a partir do próximo ano, cerca de 500 novas vagas, com a chegada de uma Central de Atendimento ao Consumidor. O novo espaço cuidará de todos os atendimentos de cartões, cobranças...”, anunciou Luiza Helena, explicando que a rede pretende centralizar o teleatendimento, hoje terceirizado e espalhado por cidades como Campinas e São Paulo. A transformação mais próxima da empresa, porém, está programada para outubro deste ano. O Magazine Luiza vai transferir para a Capital parte significativa de suas operações administrativas - hoje concentradas em um prédio ao lado da loja matriz, em Franca. Os departamentos de compras, marketing, vendas, logística, loja virtual e partes do TI (Tecnologia da Informação) e da gestão de pessoas (Recursos Humanos) serão instalados em um novo escritório na Capital paulista. Cerca de 180 profissionais também serão transferidos. Em Franca continua a matriz da empresa, com os setores de controle financeiro, correspondência e parte do TI. Luiza Helena evita dizer que está deixando a cidade. Segundo ela, em São Paulo, será instalado o escritório de negócios, focado na parte estratégica. “Não estamos indo embora. Só estamos facilitando o nosso trabalho e vou continuar revezando entre o escritório de Franca e o novo de São Paulo”.
Sinônimo de garra e determinação, a empresária é referência nacional como líder empresarial no mercado de varejo. Com estilo cativante, conquista seus funcionários e é - inclusive - frequentemente convidada a realizar palestras motivacionais. Entretanto, ela também enfrenta obstáculos. Em novembro do ano passado, Luiza Helena passou por um momento que considera um dos mais difíceis de sua vida - a morte de seu marido, o empresário Erasmo Fernandes Rodrigues, aos 63 anos. Erasmo sofreu um infarto fulminante do miocárdio no dia 2 de novembro. Mesmo sem ter se recuperado totalmente da perda, Luiza continuou trabalhando. No mês passado, comprou a rede Lojas Maia, marca presente em nove estados do Nordeste, com investimento estimado por analistas de mercado de R$ 300 milhões. A empresária não confirma o valor, mas diz que o Magazine Luiza deve triplicar o faturamento até 2015 e chegar a R$ 15 bilhões.
A empresa e a família são as paixões de Luiza Helena. Formada em Direito e Administração, ela começou a trabalhar na empresa da tia Luiza ainda criança, aos 12 anos. Lá tomou gosto pelo setor comercial e, pouco tempo depois, já atuava no setor de cobrança. Passou também pela área de vendas, foi gerente e diretora comercial. Em 1991, com a criação da holding para administrar as ações da rede, tornou-se superintendente, função que desempenhou por quase duas décadas. No ano passado assumiu a presidência da empresa, novo cargo criado na estrutura administrativa, e contratou como superintendente o ex-presidente das Casas Pernambucanas, Marcelo Silva - que também passará a atuar no novo escritório de São Paulo.
Comércio da Franca - O Magazine Luiza registrou aumento de 40% em faturamento no primeiro trimestre deste ano. A senhora disse ter sido surpreendida pelo salto de vendas no final de março. Qual é o balanço dos seis últimos meses?
Luiza Helena Trajano - Mantivemos o mesmo nível de crescimento nos três meses se-guintes (a partir de março). Em todo o semestre, crescemos 36%. Foi um salto espetacular.
Comércio - Como a se-nhora avalia este avanço?
Luiza Helena - No primeiro semestre, tivemos o melhor resultado dos últimos anos, porque este período é considerado mais difícil para o varejo.
Comércio - No ano passado, o Magazine faturou R$ 3,8 bilhões. A expectativa é fechar 2010 com qual faturamento?
Luiza Helena - Sem a compra das Lojas Maia, a expectativa era de alcançar os R$ 5 bilhões. Com a compra da rede, teríamos um potencial de fechar o faturamento em até R$ 6 bilhões. O Marcelo (Silva, superintendente do Magazine) até fez um planejamento de que a empresa pode chegar em 2015 aos R$ 15 bilhões, mas isso ainda nos exigirá muito suor e dedicação.
Comércio - Como foi a aquisição da rede nordestina Maia? Por que as negociações duraram cerca de dois anos?
Luiza Helena - Não é que elas duraram dois anos, é que há dois anos a rede estava à venda e nós estávamos montando mais lojas em São Paulo. Tentamos negociar, mas resolvemos não comprar. Eles também resolveram recuar e não vender. Nos últimos três meses, entramos em negociação novamente e compramos.
Comércio - Qual foi o valor do investimento?
Luiza Helena - Não posso falar o valor em respeito aos ex-proprietários.
Comércio - As Lojas Maia estão presentes em nove estados do Nordeste. O que esta aquisição representou para o Magazine Luiza?
Luiza Helena - Vivi uma dor muito grande nos últimos meses (a morte do marido) e nada substituirá essa perda. Mas a compra da rede deixou a tia Luiza, minha família, eu e todo mundo aqui muito feliz. A rede Maia se parecia muito conosco, com a mesma filosofia intimista. E, com presença em todo o Nordeste e lojas com pontos comerciais acima de mil metros quadrados, foi como se comprássemos uma engrenagem já funcionando. Se fôssemos entrar aos poucos no Nordeste, iríamos demorar mais de três anos. Teríamos de trabalhar muito e não conseguiríamos pontos comerciais tão bons como os já existentes lá. Foi um ótimo negócio e estamos muito satisfeitos.
Comércio - Hoje o Magazine Luiza conta com 611 lojas espalhadas por 16 Estados. Quantas lojas vocês pretendem abrir ainda este ano?
Luiza Helena - A ideia é abrir mais 14 unidades até o final do ano, sendo uma megaloja na Capital paulista.
Comércio - Quais são os planos de expansão da empresa?
Luiza Helena - A nossa empresa compra e se solidifica, não temos a pretensão de estar em 1º ou 2º lugar. Chegar ao Nordeste era uma consequência natural. Ainda não chegamos aos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Tudo que compramos até hoje, em relação às novas redes, foi questão de oportunidade. Como, por exemplo, a compra de lojas na região Sul, realizada antes de chegarmos à Capital paulista. Foi oportunidade. Nós sonhamos e caminhamos ao mesmo tempo.
Comércio - Como pretende vencer a concorrência em estados onde já há empresas com suas marcas firmadas?
Luiza Helena - Hoje a concorrência está em todo lugar. Pela internet você pode comprar de quem quiser e a qualquer hora. Creio que o Magazine Luiza ainda tem um diferencial: o respeito ao consumidor. Temos uma linha direta com os clientes e os funcionários. Esse DNA da empresa encanta as pessoas. É um desafio muito grande manter esse jeito intimista, nosso.
Comércio - Neste ano, o Magazine Luiza foi considerado uma das sete melhores empresas para trabalhar pelo Instituto GPTW (Great Place To Work). Está entre entre as cem maiores empresas do País em faturamento de vendas, segundo o jornal Valor, e sempre está entre os mais lembrados no Top of Mind. A que se deve tantos destaques?
Luiza Helena - Tudo isso é fruto do trabalho de uma equipe, de uma união familiar. Aqui as pessoas não são tratadas como máquinas, elas têm certeza que não vão ser traídas. Claro que há conflitos e competição, mas isso não é predatório. A transparência é uma luta constante nossa.
Comércio - A empresa está com vagas de trabalho abertas atualmente?
Luiza Helena - Estamos com contratação de trainees, que é um estilo de emprego do qual gosto muito. Temos vários funcionários que eram trainees e agora ocupam cargo de gerência. O Magazine Luiza está contratando sempre. Em cada loja que abrimos, são mais de 50 novos funcionários. Estamos com 17 mil funcionários em todo o Brasil. Só em Franca são 1,8 mil nas lojas, depósitos, consórcio e escritórios.
Comércio - Quando o escritório de negócios será transferido para São Paulo?
Luiza Helena - O Magazine Luiza vai levar uma parte estratégica para São Paulo em outubro deste ano. Cerca de 180 funcionários daqui irão para lá. Na Capital ficarão a área de negócios, os principais diretores e o gerente de compras. Em Franca ficará a parte de impostos, movimentações e pagamentos de ICMS. Não temos escritório em São Paulo. Quando vamos para lá, usamos o escritório do Luiza Cred. Este novo escritório de negócios será construído em uma área de 9 mil metros quadrados em cima de uma nova loja perto do Center Norte, próximo ao bairro de Santana, onde devem morar essas pessoas que estamos levando junto. Além disso, abrigará 300 funcionários do magazine.com, que fica em Louveira (SP). O local está ficando bem bonito, o layout foi feito lembrando uma cidade do interior, os corredores do escritório receberão nomes de ruas de Franca, como Voluntários da Franca e Praça Nossa Senhora da Conceição. Aqui em Franca estava impossível trabalhar com esse número de pessoas aglomeradas. Além da parte física, as questões estratégicas influenciaram muito para a mudança. Voo aqui é mais difícil, os contatos profissionais com São Paulo ficam mais inviáveis. Tivemos até que comprar um avião para facilitar esses trajetos, mas têm ficado muito cara essas viagens a São Paulo.
Comércio - Os 180 funcionários de Franca estão satisfeitos com a mudança?
Luiza Helena - Essas pessoas tiveram a opção de ficar em Franca, porque a empresa vai continuar aqui. Nosso departamento de Recursos Humanos está dando todo apoio para quem ficará e para quem está indo, até mesmo com ajuda de custo. O Magazine Luiza não quis que estas pessoas se mudassem sem a família. Estão indo para São Paulo somente os funcionários cujas famílias podem ir junto.
Comércio - A senhora não acha que essa mudança estratégica prejudicará Franca?
Luiza Helena - Não, porque ficará aqui toda a parte de impostos, movimentações e pagamentos de ICMS. Todos os pagamentos do Magazine Luiza continuarão sendo feitos nos bancos de Franca. Além disso, vamos gerar mais empregos, porque o Magazine Luiza trará para a cidade, a partir do próximo ano, cerca de 500 novas vagas, com a chegada de uma Central de Atendimento ao Consumidor. O novo espaço cuidará de todos os atendimentos de cartões, cobranças... Hoje este trabalho é feito por empresas terceirizadas de várias cidades, como Campinas e São Paulo.
Comércio - Como ficará a sua rotina?
Luiza Helena - Eu vou continuar com a minha casa em Franca. Vou ficar lá (em São Paulo) e aqui - como já fico. Talvez um pouco mais lá e um pouco menos aqui. Minha sala vai ficar aqui montada. Mudar também não está sendo fácil para mim nem para os diretores daqui. Minha tia (Luiza) vai ficar. Estamos muito preocupados de não deixar a cidade perder, porque nós somos apaixonados por Franca. Adiamos muito essa mudança. Outra empresa já teria ido há mais tempo.
Comércio - A senhora é frequentemente convidada para dar palestras. Por que as pessoas gostam de ouvi-la?
Luiza Helena - Acho que porque eu tenho uma história concreta para contar. Acho que também tenho facilidade de comunicação e isso ajuda. Com minhas palestras, quero que as pessoas olhem a nossa história e digam que querem tentar também.
Comércio - Vamos falar um pouco de política: seu tio Onofre Trajano demonstrou apoio em propaganda eleitoral ao candidato a senador Orestes Quércia. A senhora apoia algum candidato?
Luiza Helena - Eu torço pelos candidatos de Franca, mas não vou apoiar ninguém. Tenho minhas convicções políticas, mas como líder de varejo, não posso declarar quais são.
Comércio - A senhora teme que com a mudança de governo, após a eleição, o crescimento econômico do país fique ameaçado?
Luiza Helena - Nunca vi uma eleição tão tranquila. Estamos na véspera e, independente de quem esteja na frente nas pesquisas, o Brasil não teve nenhuma retirada de dinheiro (saída de investidores rumo a outros paí-ses), nenhum problema sério... O Brasil está consolidado. Preocupo-me com uma crise mundial na China ou uma mais séria como teve nos Estados Unidos. Pela primeira vez estamos vivendo em um País sem crise.
Comércio - O que espera dos seus candidatos?
Luiza Helena - Franca precisava ser mais forte no cenário nacional. Não temos um voo por dia, apesar de termos um aeroporto tão bom. Somos tratados ainda como “fim de linha”, apesar de termos um grande desenvolvimento econômico. Temos veículos de comunicações muito bons, uma cidade bem dirigida, empresas importantíssimas, mas precisamos que os políticos nos ajudem a nos projetar melhor no cenário nacional, assim como Ribeirão Preto, Bauru e São José do Rio Preto. Nós temos capacidade.
Comércio - Franca tem sete candidatos a deputado estadual e oito a federal. A senhora acredita no risco de haver divisão de votos e a cidade ficar sem representante?
Luiza Helena - Acho que não. A maior parte nem é conhecida. Acredito que a cidade vai votar em peso em dois ou três candidatos, que devem ser eleitos.
Comércio - Os empresários têm reclamado de um “apagão de mão de obra”. A senhora sente falta de qualificação na hora de contratar?
Luiza Helena - Eu sempre tive a ideia de que teria que formar novos profissionais. O Ma-gazine Luiza sempre investiu em cursos e treinamentos para os funcionários. Isso faz parte da nossa empresa. Mas é preciso lutar para que o País traga mais educação especializada a estes jovens, como as oferecidas por institui-ções como o Senac e Senai. É necessário que os empresários se unam para criar uma parceria de preparação para os jovens entrar no mercado de trabalho um pouco mais preparados.
Comércio - A senhora sofreu uma perda grande, em novembro do ano passado, com a morte do seu marido. A senhora se afastou do trabalho?
Luiza Helena - Fiquei fora apenas dez dias. Mas eu tenho muito tempo para mim. Foi muito sofrido mesmo, eu vivo isso até hoje. Mas nunca separo minha vida profissional da vida pessoal, eu sou a profissional-pessoa, a pessoa-profissional. Não consegui separar: eu chorava na empresa, chorava com os outros, chorava em reuniões, choro ainda... Eu sempre soube que a dor pior é a de perda, ainda mais de repente como foi. Agora eu já até melhorei, porque eu tive uma depressão durante três meses depois que ele morreu. É um sofrimento que eu não quero para ninguém. O trabalho aqui na empresa e meus netos, que são duas paixões minhas, me ajudaram muito a sair dessa tristeza.
Comércio - A senhora tira férias? Quando foi a última e onde costuma ficar?
Luiza Helena - Eu sou uma pessoa super normal. Em maio deste ano eu fiquei uma semana nos Estados Unidos e em outubro devo tirar mais dez dias de férias. Quando posso, vou à minha casa na represa aqui na região. Sou boa pilota de lancha, assisto novelas, leio jornais, faço ginástica, massagens, enfim, levo uma vida comum. Durmo no máximo umas cinco horas por noite. Durante a semana gosto de chegar em casa e ficar quietinha. Nos finais de semana, gosto de ir para a represa.