Escolas públicas estão sem preparo para ler conto erótico


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Em imagem de arquivo, uma das mães que se assustou ao saber o que a filha aprendia na escola
Em imagem de arquivo, uma das mães que se assustou ao saber o que a filha aprendia na escola

O conto Obscenidades para uma dona de casa  (clique aqui para ler o conto), escrito por Ignácio de Loyola Brandão, presente em um livro distribuído pelo Estado aos alunos do ensino médio, aqueceu uma grande discussão nos últimos dias entre pais, professores e os próprios estudantes de Franca. Até que ponto o sexo, em uma linguagem direta, deve ser discutido pelos adolescentes dentro da sala de aula? 

O conto que virou polêmica faz parte do livro Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, uma antologia compilada por Ítalo Moriconi, que reúne outros 99 contos. O texto de Loyola Brandão, "Obscenidades para uma dona de casa", narra as fantasias sexuais de uma mulher casada com descrições de sexo explícito. A maioria dos especialistas entrevistados não critica a linguagem adotada pelo autor e elogia a construção do texto, mas discorda da aplicação dele em sala de aula, pois acredita que professores e estudantes não estão preparados para trabalhar com o tipo de linguagem adotada, muito embora os jovens tenham acesso a outros materiais de conteúdo erótico.
 
O professor e pedagogo Paulo de Barros, coordenador do ensino médio de uma escola particular, diz que os jovens podem não estar maduros o suficiente para entenderem o real significado do texto. “Sei bem que a intenção do autor foi mostrar o contraste do puritanismo aparente da personagem com seus desejos mais ousados, porém o público alvo deveria ser o adulto. Não condeno a doação do livro, apenas acho que o conto em questão chega aos jovens numa fase inadequada e talvez não tenham maturidade para perceber a intenção do autor. Em suma, não é nada absurdo, mas apenas um conto um tanto fora de época e lugar”.
Paulo afirma que existem formas “mais elegantes” de traduzir as fantasias sexuais. “Nas rodas de meninos e meninas rolam conversas com teor semelhante ao conto e alguns dos meninos poderiam nos dar aulas práticas. Como professor acho que não recomendaria, não por hipocrisia, mas porque existem coisas mais nobres”. 
 
Na opinião de Juscelino Pernambuco, professor dos cursos de mestrado em Linguística e de Letras da Unifran (Universidade de Franca), “com bom senso e capacidade de discernimento dos professores” o texto com a linguagem adotada pelo autor poderia ser debatido por adolescentes de 16 e 17 anos e “até ajudar na boa educação deles”, mas é preciso estar preparado para a leitura, o que não ocorreu nas escolas. “Acho imprudente colocar textos eróticos nas mãos de alunos sem um preparo. Faz mal à Literatura e à Educação. Ambas não existem para provocar sustos e constrangimentos. Há aqui um choque entre duas esferas: a literária e a pedagógica. Literatura é o espaço da liberdade de pensar e dizer; ela não combina com imposição. Já a esfera pedagógica é o lugar da educação, do bom senso, da prudência, da discussão de valores, de respeito ao desenvolvimento psicológico pleno dos estudantes. É preciso saber colocar as duas em sintonia”.
 
O professor e escritor Everton de Paula também é contra a distribuição do conto nas escolas pelo despreparo de professores e alunos. Ele cobra uma vigilância maior por parte de quem seleciona os títulos para distribuição nas escolas. A Secretaria Estadual de Educação alega que o livro foi analisado por uma comissão de professores da USP (Universidade de São Paulo) e da Universitat Heidelberg, da Alemanha (veja opiniões no quadro).
 
DE ACORDO
Pelos menos duas professoras não se opõem ao uso do texto nas escolas, mas fazem ressalvas. A mestre em Linguística e professora da rede pública, Maria Ângela Chiachiri, que leciona atualmente para 300 estudantes do ensino médio, acredita que a leitura do conto com os adolescentes é possível, mas que seria necessário preparo dos professores antes de trabalhá-lo em sala de aula. “Não vejo escândalo nenhum. Há alunos do terceiro ano que já leem tanta coisa na internet, na televisão, no jornal. Alguns alunos meus não estranhariam ler esse texto”.
 
A dirigente regional de Ensino, Ivani Marchesi, não discorda da distribuição do livro para os estudantes. Defende que o conto possibilita discussões e que os professores da rede estão “acima da média do Estado de São Paulo e dominam linguística” e estariam, portanto, aptos para trabalhar com a linguagem usada por Ignácio de Loyola Brandão. “É um conto que se abre para aspectos polêmicos da sociedade que são tratados na escola e têm de ser tratado nas famílias até para preparar os jovens para a vida. É uma possibilidade de debater o tema sexualidade e seus tabus”.
 
Após publicação de reportagens e artigos sobre o assunto, diversos leitores jornal do Comércio da Franca se manifestaram a respeito. O portal GCN.net.br realizou uma enquete para saber se os internautas concordavam com o uso de livros com conteúdo erótico em sala de aula e 50% se posicionou contra, 40% a favor e 10% pensa que depende do título escolhido. A enquete é apenas uma sondagem e, diferente de uma pesquisa, não tem caráter científico.
Clique no quadro para ampliar:
 

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