A lei do silêncio


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É estranho, muito estranho! Na época em que os políticos mais deveriam falar, discursar, debater, a sua fala, o seu discurso, a sua arte de polemizar são contidos, limitados e impedidos. As ações e participações dos candidatos passam a ser quantificadas, medidas, enquadradas e proibidas. Nas televisões e nos rádios, os minutos encerram rigidamente as suas exposições. Nos jornais e revistas, são os centímetros que determinam a sua aparição. Minutos e centímetros tornam-se muito mais importantes do que as ideias. Sobram-lhes os ruidosos carros de som com suas mensagens sincopadas, seus slogans massificantes, seus decibéis atordoantes. Sobram-lhes os panfletos entregues de mão em mão ou jogados nas ruas para se misturarem com milhões de outros que irão entupir os bueiros nas chuvas de verão. Sobram-lhes ainda o tapinha nas costas, o aperto de mão, as visitas domiciliares cada vez menos eficientes à medida em que cresce a população.


Paira sobre o político uma lei que atrapalha, dificulta, obstaculiza a comunicação do político com o povo na época em que ela é mais necessária. Paira sobre o político uma lei que pode torná-lo um delinquente antes mesmo de sua posse. O simples fato dele pagar um cafezinho para um correligionário, pode configurar um ilícito e submetê-lo a severas punições. Para evitar as garras da lei, o político deve fazer-se sempre acompanhar de um advogado especialista na matéria, de um bom administrador financeiro para documentar a receita e a despesa e de um tecnólogo conhecedor dos complicados programas de informática do Tribunal Eleitoral. Sem isso, ele poderá terminar a campanha com uma ficha muito suja.


A legislação eleitoral brasileira é cheia de boas intenções. Mas o inferno também. Ela procura evitar, dentre outras coisas, o abuso do poder econômico, a corrupção eleitoral. Deseja eleições limpas, liberdade de escolha, voto consciente. Porém, o que vemos? Os mais ricos continuam sendo eleitos, os corruptos continuam dando cartas e o eleitor escolhendo seus candidatos através dos santinhos que lhes são entregues e nada mais.


A lei foi feita pelos políticos. A lei é sempre feita pelos políticos, pelos velhos políticos, pelos antigos políticos cuja capacidade de criar ilusões é inesgotável e insuperável. Durante quatro anos eles aparecem nos rádios e televisões, dão extensas entrevistas para os jornais e revistas, espalham imensos “out-doors” pelos logradouros públicos, distribuem milhões de bolsas-família, inauguram inúmeras obras inacabadas. Porém, durante a campanha eleitoral, adoram o silêncio, eles querem e aceitam o silêncio. Afinal, nada melhor do que o silêncio para se evitar o surgimento de novas lideranças. Não é mesmo?

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