Conto obsceno


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Nesses últimos dias tenho acompanhado a polêmica gerada pela publicação do conto Obscenidades para uma dona de casa, do escritor Loyola Brandão, em livro distribuído pelo governo do Estado aos alunos das suas escolas de ensino médio.


Obviamente que não haverá consenso sobre a conveniência de tal texto em um livro distribuído a adolescentes. As pessoas tendem a se posicionar conforme os valores morais que acreditam corretos para a suas vidas e, portanto, para as dos seus filhos. Nada de errado nisso. O que mereceria uma reflexão é se não há outras palavras e expressões tão ou mais pornográficas do que as do texto circulando livremente, como, por exemplo, corrupção, desvio de recursos públicos, queimadas, nepotismo, barganha política, propaganda enganosa, falsificação e pirataria, pedofilia envolvendo religiosos etc. Cada uma também carrega valores degradantes.


O texto em questão possui frases e expressões muito mais comuns entre os jovens do que quantos possam suspeitar. É notório que vivenciamos uma realidade sociocultural que pode, muitas vezes, chocar aqueles que tiveram uma educação mais seletiva, ou limitada, sobre diversos assuntos e aspectos. O texto, na verdade, causa muito mais impacto e reações diferentes nos pais do que nos jovens. Temos os pais inconformados porque julgam o conteúdo do conto inapropriado para um livro escolar e, também, porque questionam, acertadamente, se nossos professores estão preparados para conduzir uma discussão sobre temas delicados e que envolve diversos aspectos na formação familiar dos alunos. Temos pais que ficam quietos, alguns com medo da polêmica, outros incapazes de polemizar. Temos, finalmente, aqueles pais que aproveitarão o texto para debater com seus filhos. Só não sei dizer se esses são em grande número. Desconfio que não. Mudam-se as gerações e a dificuldade de muitos pais em conversar com seus filhos permanece a mesma.


Dessa forma, não questiono o texto. Ele narra o cotidiano intimista de uma pessoa comum. Entretanto, não podemos ignorar que a sua repercussão dá a oportunidade para discussões de todos os tipos. Uma delas, e de essencial importância, é saber a finalidade da distribuição de livros com esse tipo de conto.
 

Se for o de divulgar a literatura brasileira e os nossos valores culturais, então, é necessário que o Estado se antecipe às polêmicas e os professores e pais possam conhecer o programa escolar através de ações participativas nas escolas. Isso possibilitará a manifestação das famílias e uma melhor preparação dos professores.
 

Sem um processo de interação família/escola, fica difícil aceitar textos com esse conteúdo que ficarão com seus significados perdidos na imaginação dos adolescentes. A falta de diálogo em muitas famílias pode causar alguns conflitos nos jovens que, após uma leitura desse tipo, não terão valores morais familiares que sirvam de comparação e que referenciem o seu comportamento social. Portanto, acho necessário estar sempre preparando a estrutura escola/família para as dúvidas e polêmicas naturais. o é papel do Estado.

 

Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário

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