A distribuição de um livro contendo conto com temática sexual causou mal-estar entre pais de estudantes do ensino médio de escolas estaduais. Também dividiu a opinião de educadores. O volume Os cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Italo Moriconi, chegou a Franca nos últimos dias. Nele, o conto "Obscenidades para uma dona de casa", de Ignácio de Loyola Brandão, reconhecido escritor, causou constrangimento em algumas famílias e polêmica entre professores. Pais mostram-se preocupados com os efeitos da leitura sobre seus filhos adolescentes. Professores se dividem entre defesa e ataque ao livro e ao escritor.
O texto narra a história de uma mulher casada que recebe cartas com detalhadas descrições de sexo explícito. No final, o autor revela que a própria dona de casa era quem criava os subtextos como forma de extravasar suas fantasias sexuais. Grande parte da narrativa tem linguagem chula, fazendo o narrador uso de termos sexuais considerados pelos pais como impróprios a comentários fora de um contexto de intimidade e confiança. A ficção foi publicada pela primeira vez em 1983 numa revista dirigida ao público adulto. Na época houve quem a definisse como erótica e quem a considerasse pornográfica. Aqui é preciso frisar que embora usados como sinônimos, erótico e pornográfico são conceitos diversos, inclusive nas páginas polissêmicas da literatura. O erótico é uma instância do mundo psíquico que pode ser inspiradora de ações expansionistas da vida afetiva. O pornográfico não; é reducionista, tem justificativa em si mesmo como exploração do sexo tratado de maneira rude, grosseira, despudorada e até vil.
Como material de apoio didático, o livro organizado por Moriconi, com o conto de Loyola incluído, já tinha chamado a atenção em outras cidades do Interior do Estado: em Itapetininga, na região de Sorocaba, uma escola se recusou a distribui-lo aos alunos; em Jundiaí, depois de distribuídos, eles foram recolhidos das salas de aula. A polêmica atingiu outras escolas em pontos diferentes do Estado. Não se questiona o valor literário da obra, mas a sua inadequação para leitura em sala de aula, especialmente em classes de adolescentes e cuja luxúria tem se mostrado já por demais evocada por outros estímulos.
Distribuído a estudantes entre 16 e 17 anos, o conto de forte apelo libidinoso deve ser visto com ressalvas no universo escolar. Terá relevância nos estudos da Língua Portuguesa ou como auxiliar numa hipotética educação sexual, uma disciplina que ainda não faz parte da grade curricular do ensino público no País? É uma questão na qual pensar. Muitos pais e educadores defendem um amplo debate para discutir a pertinência de um texto como este no ensino médio. É uma sugestão que se deveria levar em conta. Os problemas verificados nos últimos anos com livros didáticos e paradidáticos demonstram o despreparo daqueles que deveriam selecionar as melhores ferramentas no auxílio da leitura. Ao que parece, nem sempre o bom senso tem vigorado. Há que se ter cautela com o que se faz chegar aos estudantes.
Além disso, os livros que o governo vem distribuindo aos alunos da rede pública pertencem a edições bem trabalhadas e caras, pagas com parte de verbas da educação. Este dinheiro sai do bolso dos contribuintes, ou seja, também do bolso dos pais que não concordam com o que seus filhos estão sendo orientados a ler. Eles merecem ser ouvidos e não apenas criticados pelo autor, o que aconteceu até agora.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.