Foi assim que ocorreu conosco. Não só nós tivemos tais ímpetos de desejo para vencer o rigor de uma vigilância - hoje entendemos - tão justa e adequada. Oscular o carmesim de seus lábios era a obsessão dos meus sentidos navegando em revoltas águas do amor. Permanecia vivo o desejo a sufocar-nos o anseio por solidão.
Quase seis décadas foram vencidas com lutas, percalços, amarguras e alegrias onde se incluíram momentos em que nos tornamos também vigilantes. Enquanto sorvo lentamente minha bebida, observo calado suas pernas cruzadas com pequenos pés marcando o ritmo das canções que dividimos em mútuo enlevo. As delicadas mãos e longos dedos são vistos envolvidos por fios de lã e agulhas de tricô a tecer mantas e vestimentas para aquecer corpos humanos. Aquecidas estão também nossas almas.
Muitos se somaram a nós; outros tantos se foram sem dizer adeus e de todos haveremos de guardar saudade alimentando nossa fé e oração para que sejam felizes. A pureza do carinho que cultivamos jamais será apagado na doçura de lembranças.
O encanto que vivemos ao som de tantos boleros, revigorando esperanças que nunca foram perdidas, agora na voz de Nana Mouskourt resgatando Augustin Lara com Piensa em mi. Recorda Roberto Cantoral, Alberto Dominguez, Manuel Alvarez Maciste, Consuelo Velasquez e suas respectivas composições: La Barca, Perfidia, Angelitos Negros, Besame Mucho.
Por que não registrar em nosso devanear, agradáveis lembranças de gente útil alimentando ilusões: Pixinguinha, Lamento; Lamartine Babo, Rancho Fundo; Lupicínio Rodrigues, Nervos de Aço; Lúcio Cardim, Matriz ou Filial; Cartola, As Rosas não Falam.
Mas, nesta noite, temos em nossas vidas a presença indispensável nos caminhos do jazz, de uma turma de escol que o mundo da arte não pode esquecer. Enquanto suas pernas cruzadas, por onde deslizei carícias, acionam seus pés marcando compassos, suas mãos pequenas que alisaram meus cabelos a encanecer, se perdem no tricô, um turbilhão do jazz de Sarah Vaughan desponta na passarela com Street of dreams, chamando a seguir Doris Day e Stardust. Neste nosso sonho chega Ela Fitzgerald, Tenderly, que puxa para a cena, Louis Armstrong, sua rouca voz magistral de ator para interpretar A Foggy Day e Judy Garland, Over The Rainbow.
Nestes tumultuados dias em que espaços da comunicação são invadidos para a inglória discussão de tema político interessante para alguns, não quero pensar, não quero achar, não quero fazer promessas, não quero mentir, não pegarei em armas, não sequestrarei, não mudarei o meu comportamento. Faço questão de manter-me como sempre fui: apreciador de boa música, compromissado com a verdade e... romântico...
Garcia Netto
Jornalista
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