Menor de idade pode ver insinuações ou cenas de sexo na TV. Fazer, também pode. Não tem problema algum. No entanto, ler sobre sexo, nem pensar. Isso é sinal de perigo concreto para os bons costumes. Quem lê, acaba fazendo. De ato, a palavra vira um fato. Deve ser por isso, que se dificulta tanto o incentivo à leitura.
Já não bastasse a própria juventude ser pouco afeita ao hábito de ler, ainda existem pais com uma enorme preocupação sobre a leitura de seus filhos. Eles imaginam que têm poder para controlar um conteúdo literário, como se uma obra de arte fosse composta de frases descontextualizadas.
A Secretaria Estadual da Educação distribuiu recentemente livros de literatura aos alunos do Ensino Médio da rede pública do Estado. Entre os três títulos entregues para a terceira série está Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Trata-se de uma obra primorosa, organizada por Ítalo Moriconi, que selecionou os cem escritores mais significativos dos últimos cem anos.
Zelosos pais de algumas cidades entraram na Justiça contra a distribuição do livro. Para esses censores e guardiões da moral, seus filhos não podem ler o conto Obscenidades para uma dona de casa, de Ignácio de Loyola Brandão. Eles têm mais medo da palavra que do fato em si. Esquecem-se de que grande parte dos adolescentes vê cenas sexuais ou tramas mais fortes na novela.
Ou, pior ainda. Há pais que são verdadeiros avestruzes. Enfiam a cabeça na areia e nem percebem que o resto do corpo está de fora. Simplesmente fazem de conta que o namoro continua sendo uma inocente troca de carinhos. Fingem desconhecer o que rola entre os namorados e o que se fala. Quando a filha aparece grávida, acham que foi pelo processo de concepção da Virgem Maria.
No conto de Ignácio de Loyola Brandão uma mulher casada passa as tardes esperando por uma carta erótica. A cada dia, a correspondência apresenta novas e provocantes insinuações sexuais. Sozinha, filhos na escola, marido no trabalho, ela desnuda o desejo feminino. Só que tudo não passa de um jogo para espantar a solidão. No final, a personagem desvenda a origem das obscenidades de forma singela e inesperada.
Quem dera se cada estudante do terceiro ano do ensino médio lesse o conto e partisse para a leitura dos outros 99 títulos do livro! Ou então, que cada pai ou mãe conseguisse ler o texto para depois discutir o conteúdo com os filhos. Na certa, chegariam a conclusões desconhecidas sobre a sexualidade feminina.
Entretanto. isso dá trabalho. Além de ler, seria preciso também dialogar. O mais fácil é tentar barrar judicialmente uma obra de arte pelo simples fato de descrever as vontades obscenas de uma mulher.
Se fosse adultério de verdade, não haveria obstáculo algum. Todo mundo está acostumado. A televisão mostra sempre.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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