Já cansou de correr para lá e para cá sem saber exatamente aonde vai chegar? E para cima e para baixo, ignorando o motivo da corrida e da velocidade?
Já não aguenta mais que fiquem atrás de você advertindo sobre cumprimento de horários, confirmando sua obrigação de ir a lugares que você não quer ir, a encontros dos quais você quer fugir, a frequentar a casa de quem você não gosta, insistindo para convidar fulano (que dá nos seus nervos) e sua digníssima esposa (de quem você foge feito diabo da cruz) para um encontro social? Sente que há uma turba barulhenta como que perseguindo você com uma ‘cobrança’ nas mãos para lhe entregar, exigindo que você faça alguma coisa (que não quer fazer), dê alguma coisa (da qual você não quer abrir mão) e vá a algum lugar só para cumprir obrigação? Sente permanentemente uma espada afiada pendente sobre sua cabeça, prestes a cair? É mesmo? Então você sabe do que estou falando: daquela terrível sensação de que esta vida é uma porcaria, e o que você gostaria mesmo é de mandar tudo pelos ares, fugir de tudo, quem sabe ir para aquela ilha perdida no meio do oceano.
Se você é homem, é fácil: arrume as malas e vá pescar. Claro, você vai sozinho, quer dizer, sem mulher: mulheres atrapalham. Se você é mulher, a coisa é diferente. Para você sair, vai se preparar muito e devagar. Primeiro deverá convencer o companheiro e acalmar os filhos, explicando tal necessidade, que seria um direito seu. Aí, dar início à macro e à micro-organização. Deixar despensa abastecida, freezer cheio, encomendas no açougue e um pormenorizado cardápio a ser cumprido porque, claro, você acha que com sua ausência a casa não andará: na sua imaginação há um bando de incompetentes e desamparados morando nela. Vai correr às compras para deixar presentes prontos e embrulhados porque se alguém for convidado para uma festinha, precisará levar alguma coisa: na sua ausência, quem providenciará? Ligará para o pediatra das crianças para explicar que ficará fora, que é, por favor, para ele atender ao telefone de sua casa, se o chamarem. Idem para o dentista. Aposto como você descobrirá um responsável para o transporte das crianças, o balé das meninas, o inglês de todos, as aulas de reforço, o terapeuta, o catecismo, a preparação do crisma, a academia do adolescente, o basquete e a natação dos menores. (A essa altura você se questionará se realmente eles precisam de tanta atividade.)
Primeiro você organiza o geral, para depois planejar o particular. Pronto! Agora sim, pensa em você. Você vai escolher para onde ir! Rio de Janeiro? Parece bom: sai daqui, pega um avião, em duas horas desce no Galeão e daí pra frente é só felicidade... Espera: pensando bem, não. O Rio está violento, tem bala perdida. Rio, não. São Paulo! Vai de ônibus, um tiro! Oba! Vai ter cinema, teatro, exposições, restaurantes, shoppings... Você vai ligar para aqueles amigos que não vê há anos! Sim? Não? Não. São Paulo é muito caro, muito caro. Buenos Aires? Longe demais. Montevidéu? Esquisito demais. Conclusão: não descobre um lugar para onde ir. E aí você fica.
Fica por aqui mesmo com a boca amarga. De raiva, por não ter conseguido se desvencilhar do arquétipo da esposa e mãe perfeitas que lhe ensinaram. De frustração, porque abandonou a realização de um sonho de liberdade sadio e merecido. De dor, porque não há nada mais contundente que a autoflagelação. De ódio, por reconhecer-se responsável por mais essa demonstração de falta de autorrespeito. De tristeza, pela evidente covardia e fragilidade. Você fica. Fica por aqui tentando descobrir em que maldita cartilha estão determinados direitos, deveres e papel de subalternidade da mulher, que você segue tão à risca. Com sorte, irá até descobrir quem a obriga a seguir tão fielmente essas determinações.
CADÊ?
Cadê as muretas que serviam de bancos e ficavam sob o belíssimo caramanchão - igualmente feito de pedra - na pracinha ao lado da Igreja de Santo Antônio? E a pracinha, virou estacionamento?
DEFECTIVIDADE
Regina Duarte não tem-que gostar de Franca. Ela só nasceu aqui, cresceu alhures. Franca não tem-que reivindicar essa glória, muito menos homenageá-la com uma esquina inteira, mesmo porque - segundo o proprietário dos imóveis agora desapropriados - seu pai teria se mudado de lá devendo o aluguel. Esse verbo ‘ter-que’ fica todo dia mais e mais defectível!
AEC
A antiga sede da AEC ficou às moscas um bom tempo. Durante esse tempo efetivamente não houve protestos, nem reivindicações ou sugestões ou palpites por parte de pessoas ou grupos interessados no seu destino. Teria tudo para ser um belíssimo centro cultural - localização, arquitetura, funcionalidade, mas faltou quem pegasse o touro à unha. Faltou empenho. Para evitar chorar após o leite derramado, que tal lutar para a preservação do prédio da antiga Mogiana e dar-lhe, quem sabe, o status de Centro Cultural de Franca?
27 DE AGOSTO
27 de agosto é o 239º dia do ano no calendário gregoriano. Faltam 126 para acabar o ano. Nesse dia, em 1965, ocorreu nos EUA o único encontro de Elvis com os Beatles. É dia de nascimento de Madre Teresa de Calcutá; de Cesária Évora, cantora cabo-verdiana; do americano Iran Levin, escritor (O bebê de Rosemary, Os Meninos do Brasil), dramaturgo e autor de letras de canções (a belíssima He Touched Me) e do brasileiríssimo Paulinho Moska. Dizem, o mundo talvez acabe hoje: o planeta Marte poderá ser observado a olho nu, de tão grande. Teremos a impressão de haver duas luas no céu. Hoje, às 23h, Marte estará muito perto da Terra. Isso ocorrerá novamente apenas em 2687!
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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