A ginasta


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-Me tire daqui, pelo amor de Deus. Vou cair. Correu para socorrê-la. Ela estava pendurada no parapeito da área livre, do último andar do edifício.


- Agüente firme. Segure a minha mão. Me dê a outra. Isso. Agora venha, venha, venha, sem medo. Arre. Pronto.


Ela caiu ao seu lado. Continuou deitada, olhando o céu. 


- Que loucura foi essa, menina? Quis se matar?
- Não, não.
 

Tossia. Levantou-se, lívida, ajeitou-se, examinou-se.
- Fiquei toda arranhada.
- Quase morre. Que loucura foi essa, aqui no terraço, sem ninguém?


Permaneceu silenciosa. Desceram de elevador. Ele insistia em saber porque ela estava pendurada, sem socorro. Mantinha silêncio. Balançou a cabeça:


- Você é louca mesmo. Mora aqui neste prédio?


Ajeitava a blusa, a calça comprida justa. Lamentou:
 

- Perdi uma das sandálias. Caiu lá em baixo.


- Você me encontrou lá em cima por acaso. Estava vendo uns apartamentos e quis olhar o bairro, lá de cima. Mas diga o que lhe deu na cabeça?


O silêncio dela persistia e agora o riso também. Chegaram ao térreo. Ela correu em direção das amigas, que a encararam surpresas e perplexas. Abraçou-as, vitoriosa:


- Eu não falei que ficava pendurada lá em cima? Vocês viram aqui em baixo, não viram? Até a minha sandália caiu. Procurem por aí.


As amigas esbugalhavam os olhos de espanto e admiração.


Ela se virou para ele:


- Esse senhor viu tudo. Até bateu palmas para mim, elogiando a minha ginástica. Não foi?
Aquele olhar e aquele riso lhe chegavam de muito longe, distância de anos. Mesmo olhar, mesmo riso, que o perseguiam.


Meio escondido na folhagem do jardim do edifício, continuou olhando para ela, dançando, soltando beijos, faceira. Ela voltou a olhá-lo. Aquele mesmo olhar distante que o torturava. Fez-lhe sinal. Ela se aproximou, disfarçando das amigas, curiosa:


- O que é?


- Vou lhe fazer uma sugestão.


- Qual?


- Diga às amigas que vai repetir a ginástica. Estarei lá para lhe proteger.


- Será que devo?


- Uma exibição completa


Ela voltou correndo, confabulou com as amigas e curiosos, voltou e passou por ele:


- Vou subir.


Ele subiu logo depois, lendo um jornal abandonado.


Lá em cima animou-a:


- Pode fazer as belas piruetas. Quando se pendurar aproximo-me, escondendo-me. Vá. Vá.


Ela fez ginásticas, bailou, encostou-as à mureta. Aproximou, agachado:


- Pendure-se que seguro suas mãos. Ninguém vai ver as minhas, como não viram da outra vez. A multidão lá em baixo vai vibrar.


Ela obedeceu feliz. Aquele olhar e aquele sorriso, tão próximos, chegavam-lhe de longe, ampliavam-se cínicos e irônicos.


- Me puxe. Agora estou cansada.


O sorriso e o olhar eram penetrantes, como sempre foram.


- Adeus.


Soltou-a e ouviu apenas um sibilar de voz aflita que se foi perdendo na distância.


Ajeitou-se, tomou o elevador e, na rua, contra a multidão que corria para a direita, caminhou para a esquerda. Não se virou.


Dobrou a esquina. Socorreu cordialmente uma senhora, auxiliando-a delicadamente pelo braço, para evitar o carro que quase a alcança:


- Cuidado.


Ela agradeceu. Ele cumprimentou-a gentil e foi em frente. Dobrou ruas, chegou ao seu quarteirão, assoviando uma velha música do tempo daqueles olhos e daquele sorriso.


Entrou em casa, suado, palpitando. Sentou-se, suspirou fundo e acariciou a cabeça do cachorro.


Sentiu que o olhar e o sorriso abandonaram-lhe de vez com a voz aflita que fora se perdendo, trazendo-lhe paz.


Continuou a acariciar a cabeça do cachorro:


- Acabou, amigo.

 

Caio Porfirio
Escritor,  crítico literário  e secretário administrativo da União Brasileira de Escritores
 

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