Ri muito ao assistir àquela cena da novela Passione, onde Irene Ravache, conferindo grande veracidade à Clô, personagem emergente, diz que prefere o estilo grandalhista ao minimalista que a decoradora francesa lhe afirmou andar na moda.O mínimo quase nunca satifaz aos exuberantes, sabe-se bem.
Mínimo e máximo, na vida e nas artes, têm a ver com estilo, características de uma época ou estéticas de diferentes períodos. O barroco se caracterizou por longos desdobramentos, quem lê os sermões de Vieira sabe disso.Os haicais japoneses procuram conter em três versos as quatro estações do ano. O nosso tempo digitalizado privilegia cada vez mais a concisão: o twitter está aí sendo usado por escritores que criam contos de 140 toques.
Mas tamanho não é documento nem implica necessariamente juízo de valor. Minitextos ou macrotextos podem apresentar boa ou má qualidade, embora já tenha lido de pena mui ilustre que ‘o curto é muito maior que o comprido’. Mas o que seria de Guimarães Rosa, de Clarice Lispector, de Saramago, só para citar pós-modernistas em língua portuguesa, a se julgar verdadeiro tal conceito? Mas este vale para a poesia, isto é certo. E também para um gênero que escasseia pela ausência de cultores: as máximas, conhecidas por aforismos.
Concentração atômica de sentidos em pequeno número de palavras, as máximas foram cultivadas desde os antigos gregos. Uma delas, inscrita no Templo de Apolo, em Delfos, tem milhões de citações no Google. Conhece-te a ti mesmo, atribuída a Sócrates, moveu o homem para interiores que ele desconhecia e levou um filósofo do século XIX, Nietzche, a produzir outra frase, de atualidade intransponível: Torna-te quem tu és. Sócrates e Nietzche foram filósofos e frasistas.
No mesmo patamar irrompem outros, tentando traduzir em frases aforísticas suas descobertas a respeito da complexidade do ser humano. Hegel resvalará pela percepção ao afirmar que ‘o familiar não é conhecido simplesmente porque é familiar”; Confúcio, que ‘uma pessoa comum maravilha-se com coisas incomuns, um sábio, com coisas corriqueiras’; Aristóteles, que ‘aquilo de que os homens carecem é o que eles mais desejam’; La Rochefoucauld, um gênio setecentista na arte do sintético, deixará lapidado que: ‘ é tão fácil nos enganarmos a nós mesmos sem percebê-lo, como é difícil enganarmos os outros sem que eles o percebam’; Novalis, psicólogo avant la lettre, que ‘cada ser humano é uma pequena sociedade’. Bernard Shaw conferirá humor a cada letra: ‘existem duas tragédias na vida. Uma é não conquistar o que o coração deseja. A outra é conquistar.’
Os frasistas parecem pertencer a famílias espirituais, ainda que tenham vivido em séculos e latitudes bem diferentes, como Teofastro: ‘o tempo é gasto a um preço altíssimo’; Madame de Stael: ‘todas as maneiras de abreviar o tempo não o poupam’; Darwin: ‘um homem que ousa desperdiçar uma hora de seu tempo não descobriu o valor da vida’; Marta Nussbaum: ‘a consciência de mortalidade estimula o desejo de gerar valor.’ Machado de Assis escreveu que ‘a verdade sai do poço sem indagar quem se acha à borda’; Rousseau, que ‘nada é mais categórico que a ignorância’, Nietzsche, que ‘convicções são inimigos da verdade mais perigosos que a mentira’.
No âmbito da literatura, em metalinguagem de altos quilates, expressaram-se Holderlin: ‘o que permanece, os poetas o fundam’; Joaquim Nabuco: ‘a ilusão do autor é um dos mais finos estratagemas da criação’; Wittgenstein: ‘ toda uma mitologia está encerrada em nossa linguagem’; Sêneca: ‘o que o outro disser bem, é meu’; Karl Kraus, cuja coletânea Aforismos, da editora Arquipélago, acaba de ser relançada no Brasil: ‘quanto mais de perto se encara uma palavra, com mais distância ela nos encara de volta.’
Dois grandes prosadores resumiram em frases imortais o cerne das máximas. Montaigne ao afirmar que ‘as palavras pertencem metade a quem as fala, metade a quem as ouve’. Valéry ao lembrar que ‘é necessário mais espírito para prescindir de uma palavra do que para empregá-la’.
Sônia Machiavelli
Autora de Uma Bolsa Grená, Estações, Jantar na Acemira e O Poço
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