Frei Manuelzinho


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Por influência de pai e mãe, tenho a mania de conservar as coisas. Se pudesse ( e se espaço tivesse ) eu guardaria todos os vestígios de uma vida que passou: retratos, objetos, artigos, notícias de jornais, cartas, postais e muitas coisas mais. Para que o leitor tenha um exemplo desta minha mania, ainda conservo um cofrinho do Banco Artur Scattena; guardo com muita saudade a minha primeira lancheira; tenho algumas penas de caneta tinteiro usadas no tempo do Grupo Escolar e assim por diante. Todas as vezes em que me deparo com alguns desses objetos, recordo-me da vida que se foi, do tempo que fugiu , do passado que ficou para trás e que só pode ser mal e palidamente recuperado em nossa memória.


Pois bem! Remexendo antigos guardados, encontrei um pequeno retângulo de papel mais espesso que parecia conter a impressão de uma figura. Com efeito, tratava-se de uma gravura de Nossa Senhora de Fátima cercada pelos pastorzinhos e com os pés apoiados em uma nuvem. Cores desbotadas, papel amarelecido, aquela gravura tinha, seguramente, mais de 50 anos. Peguei-a na mão, corri os dedos pelo papel e, imediatamente, veio-me à mente quem ma havia dado. Foi Frei Manuelzinho. Sim, foi o Frei Manuelzinho.


Para quem não se lembra, Manuelzinho era um frade da Ordem dos Agostinianos . Residia na Casa Paroquial da igreja de Nossa Senhora da Conceição. Espanhol de nascimento, baixinho, cabelos completamente brancos, vestido com sua negra batina de frade, ele postava-se, todas as tardes, no portão principal de sua moradia. Velhinho, bem velhinho (devia ter mais de 90 anos ), ele já se havia aposentado de suas funções sacerdotais. Permanecia ali, ao lado do portão, e, quanto muito, caminhava pelo jardim lateral da Igreja. Caminhava a passos miúdos, balbuciando consigo mesmo algumas palavras, e assim aguardava o término de sua missão na terra. Sua audição também não era lá tão boa, mas o suficiente para atender aos pedidos da meninada que saía das escolas: gritando:
– Frei Manuelzinho, me dá um santinho!


E Frei Manuelzinho enfiava a mão no bolso, tirava um pacote de santinhos e ia distribuindo-os para a criançada


Frei Manuelzinho ficou gravado em minha memória. Não há como nos esquecermos daquele bondoso frade que alimentava a nossa fé com seus santinhos de papel.


Quando ainda passo pelo portão da antiga Casa Paroquial, tenho vontade de gritar:
– Frei Manuelzinho! Me dá um santinho.
 

Será que ele ainda me ouve?

 

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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