Passa-moleque


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Diga-me. Você consome habitualmente, determinada marca de perfume, calçado, vestuário, alimento, remédio e, de repente, não mais que de repente, vê-se abandonado pela empresa produtora, sem mais nem menos, sem qualquer aviso?

Sim? Claro. Quem de nós ainda não passou por algo semelhante e sentiu-se indefeso, impotente, disposto a um grande palavrão após peregrinar por dezenas de pontos de venda e não receber, em nenhum, palavra qualquer capaz de botar pingos nos “is”, ou explicação plausível para a falta do objeto do desejo?


Sei que muita gente ainda se lembra dos cobertores Parahyba, do Kichute, da Conga, das camisas US Top, do creme dental Kolynos, do adoçante Suita, das Pilulas de Vida do Dr. Ross, dos fogões Jacaré, do extrato de tomate Elefante. Das farmácias somem, vira e mexe, medicamentos de uso contínuo, sem qualquer aviso. Por coincidência, várias clientes de minha mulher esteticista descobriram-se, nos últimos tempos, vítimas da falta de Prefest, medicamento de reposição hormonal. Desafiaram-se: “vamos ver o que há”. Compraram nos últimos dois meses, confrontaram suas informações e concluíram: “as caixinhas que achamos, eram restos de estoque. Saiu do mercado”.


Minha mulher comentou comigo e eu fiz minhas pesquisas. Falei com vários farmacêuticos (“penso que tiraram do mercado porque a licença venceu”; “não estão fabricando mais”, “vão trocar a embalagem”) e, para valer mesmo, a única informação que bateu, foi: “sumiu do mercado, sem aviso”. Fui à prosa com médicos, especialmente ginecologistas e, estes sim, foram quase unânimes: “saiu do mercado e ninguém avisou nada sobre”.
 

Isso é grave. Trata-se de remédio de uso contínuo. A Janssen-Cilag Farmacêutica deixou para lá milhares de clientes dependentes da medicação que terão agora que migrar para um outro produto após nova bateria de exames e nova prospecção de substâncias capazes de proporcionar aos organismos que se acostumaram à formulação, o mesmo conforto.


E não se trata de algo simples. Há organismos que se dão bem com determinado princípio medicamentoso e outros, que não. Sei – das mesmas prosas com ginecologistas – que reposição hormonal não é algo simples. “Há que se testar, na maioria das vezes, até que a mulher se sinta confortável com um princípio ativo”, disse-me um dos profissionais com quem conversei longamente sobre o tema.


Há também o problema financeiro. O Prefest vinha sendo vendido nas farmácias a um preço médio de R$ 31. As indicações de substituição mais próximas – não há formulação similar, ou genérica e nem igual a seus componentes básicos, estradiol + norgestimato –, custam entre R$ 55 e R$ 60, mas os ginecologistas não aconselham mera troca. “É preciso nova consulta, novas dosagens hormonais e, finalmente, indicações adequadas”, disse-me o especialista com quem mais conversei. E ele está certo. Ninguém pode preceituar nada, à distância.
 

Vou ficar de olho. Se daqui há algum tempo a formulação voltar ao mercado com caixa nova, bula nova e meia micrograma de alguma substância panacéia “nova’ para descaracterizar o produto antigo; e preço “encostado” na média do mercado, será o caso de falar com Denilson Carvalho, nosso especialista em Direito do Consumidor.


Quanto à Janssen-Cilag, fabricante do Prefest, está em seu site um lacônico comunicado, datado de 1º de junho de 2010, informando sobre a “Descontinuidade de Prefest - A (empresa) decidiu globalmente pela suspensão do fornecimento e fabricação do produto Prefest (estradiol e estradiol+norgestimato), a partir de Junho de 2010. Esta decisão não se deve a reações adversas ou a qualquer problema médico. As autoridades de saúde competentes já estão sendo informadas sobre esta decisão. É importante lembrar que, embora o Prefest (estradiol e estradiol + norgestimato) esteja sendo descontinuado, o mesmo estará disponível para compra em algumas farmácias/drogarias até o término de sua validade”.
 

Simples assim. Atentem para as datas: em 1º de junho de 2010 a empresa informa que decide suspender a fabricação a partir de Junho de 2010. Nenhuma preocupação com seus clientes, com farmacêuticos, com médicos, com o mercado. Decide hoje, para hoje. Publica só no próprio site, local onde a esmagadora maioria da população não tem acesso e nem imagina como chegar lá. Rápido e rasteiro.


E a Anvisa também não diz nada. Parceria adequada, distante, muito distante do que se poderia chamar de ético, moral, respeitoso; outro “golaço” do País da bola e do passa-moleque.

 

FUNDAMENTAL
Respeito é fundamental. Se um fabricante decide descontinuar a produção de algo, reza a ética que deva oferecer explicações ao mercado e respeito a seus consumidores, proporcionando tempo de adaptação capaz de permitir a acomodação necessária. Se for o caso de medicamento, a necessidade de posicionamento antecipado é ainda ainda importante. Os órgãos reguladores e a sociedade organizada têm que agir com dureza.

 

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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