A carta


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Morava na Rua Padre Anchieta uma velha tia viúva, lado paterno. Havia sido professora. Contava e recontava a todos que ainda lhe tinham ouvidos da sua didática im-pe-cá-vel, de seus critérios e rigor quanto ao comportamento dos alunos em classe. Eu era criança e me lembro, ainda, de alguns detalhes de sua existência. Terrível, com pelos que lembravam bigodes, sobrancelhas espessas, olhar fulgurante, um humor de cão. Muito mais velha do que se pudesse crer, era com certo e disfarçado pesar tida pela família como imortal. Trazia aos pés uma cadela, de nome Brotinho, tão velha e ranzinza quanto a dona.


No quintal de sua casa havia, enfileiradas, três jabuticabeiras. Mais para o centro, uma goiabeira e uma frondosíssima mangueira. Nós, os primos, planejávamos mil e um modos de se chegar às frutas amadurecidas. A velha tia não apenas impedia a chegada de qualquer ser vivo às árvores, como não repartia os frutos com ninguém. Talvez comprazesse em vê-los apodrecidos ao chão. Outro detalhe a ser revelado: trazia já de tempos de moça, se é que fora moça algum dia, dotes culinários admiráveis. Sua compota de goiabas, por exemplo, diziam ser um néctar de deuses, assim como sua perfumada ambrosia. Quando calhava de eu pegar bonde com minha mãe para visitá-la, não havia escapatória: a velha tinha de servir, meio que resmungando, um tiquinho desse doce, outro daquele outro, mas tão pouquinho, tão pouquinho que nem dava para chegar ao céu da boca. A goiabada esparramava-se pela língua e a gente engolia aquela delícia odiando a tia por saber que não tinha repetição.
 

Por uma dessas razões de família à moda antiga, que ainda hoje não chegamos a entender muito bem, nossos pais insistiam em visitá-la, por cortesia. Afinal era parente, era da família, embora cheirasse a naftalina. Íamos aborrecidos, mas curiosos. A velha tia acomodava-se numa cadeira de balanço, com a cadela aos pés, e punha-se a responder o que lhe fosse perguntado. Nunca a conversa partia dela própria. Na sala, tudo era velho e mesmo o relógio de parede parecia andar para trás: o tempo ali não passava.
 

Não era rica, mas possuía um tesouro que costumava atirar à cara da família: uma carta de Getúlio Vargas! Mantinha-a trancada numa caixa metálica com apliques de porcelana. Ninguém jamais vira a carta, mas a velha ameaçava cada um dizendo: “Nem você, nem você e nem você vai ficar com a carta de Getúlio quando eu morrer.”
 

Não que fosse uma peça de imensurável riqueza, mas sua teimosia e a importância histórica do inusitado davam à carta relevos de documento valioso ao qual todos almejavam acessar, e vender ou doar ao museu histórico em nome da família.


Muito bem!


Viveu ainda por um tempo absurdo: veio o Zuluaga e pedalou por mais de 120 horas circulando um canteiro da Major Nicácio, quase em frente da igreja Nossa Senhora das Graças, inauguraram o Cine Avenida, o Gosuen foi prefeito, Granduque José era o eterno candidato, Jânio Quadros proibiu o lança-perfume e os biquínis nas praias, a mãe guardava nacos de carne em banha de porco nas latas de alumínio de 20 litros, acabaram com a água da careta na Voluntários, os ônibus alaranjados da São José ostentavam os dizeres “Franca, terra que produz o melhor café do mundo”, a Pharmácia Orestes na Júlio Cardoso, e perto de um 25 de dezembro, quando um caminhão entregava as cestas de Natal Amaral, a velha deu seu último suspiro.


Mal o médico dobrou o estetoscópio e anunciou o óbito, a família voou para a caixa, apesar do rosnado rouco e fraco de Brotinho. Forçaram-na e, quando se abriu, lá estava, em cima de quinquilharias, a carta de Getúlio Vargas. Mas não era uma carta escrita por Getúlio Vargas, mas sim pela velha tia endereçada ao Presidente quando ela ainda era professora... Uma carta que a tia escrevera e que nunca enviara...


Decepção geral e risos amarelos... Mas em algum lugar muito quente, em meio a labaredas infernais, a velha tia deveria estar dando gargalhadas.
 

Em compensação, agora o quintal era nosso. Pegamos apenas uma estação de frutas maduras, até que venderam o terreno todo. Mas aí já éramos crescidinhos e as vontades tornaram-se diferentes!

 

Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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