O vaso sem flor, preso à parede, recebeu um novo hóspede. No começo, nem lhe notei a presença, mas depois percebi que a rolinha voava quando me aproximava. Um dia, admirei surpresa que ela havia feito um ninho. Acompanhei de longe, para não atrapalhar, o vai-e-vem do casalzinho que se revezava para cuidar da cria. Digo que era um casal, pois havia uma mancha em um deles.
Um dia não agüentei de curiosidade e coloquei uma cadeira para ver o que havia lá dentro. Que mimo! Um ovinho e um serzinho sem penugem, com os olhinhos ainda fechados. Gritei de alegria:
- Plantaram um passarinho aqui!!
Confesso que voltei lá outras vezes para verificar o crescimento do bichinho, quando os pais não estavam de plantão. Mas ficava arrependida, logo que olhava pra cima e via um dos dois lá, no alto, pendurado nos fios, me vigiando.
O filhote cresceu, mal cabia no vaso e parece que os pais o incentivavam a sair dali, fazendo-o aventurar-se em pequenos vôos desengonçados. Era difícil colocá-lo de novo no ninho. Por que não esperar mais um pouco?...
Que dia infeliz foi aquele!
Uma tentativa frustrada de vôo. O andar desajeitado pelo chão. O portão aberto. Um cachorro na rua. Uma bocada. Um grito. Um leve bater de asa. A fragilidade da vida...
Fácil foi recolhê-lo e levar de volta ao aconchego. Olhei para cima e lá estavam eles me observando. Que dor lancinante sentimos.
Eles ainda ficaram lá por alguns dias, se revezando nos cuidados. O bichinho não mais se mexia.
Criei coragem, tirei-o de lá e o enterrei numa cova rasa. Pedi a Deus que o deixasse voar livre no céu dos passarinhos.
Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português
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