A Prefeitura encontrou 180 crianças e jovens, entre 10 e 16 anos, vendendo balas, chocolates ou canetas, atuando como “flanelinhas”, pedindo dinheiro ou morando nas ruas de Franca. A maioria é do sexo masculino, mas há meninas também. São moradores da periferia, principalmente das regiões Oeste e Norte, de bairros como Leporace, Miramontes, City Petrópolis, Vila Gosuen e São Sebastião. As famílias são carentes e desestruturadas e, em alguns casos, os pais estão envolvidos com drogas e álcool.
O flagra foi feito por educadores do Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) que realizam a Busca Ativa em pontos diferentes da cidade para verificar a presença de menores de idade nas ruas. As buscas são feitas de duas a três vezes por semana em festas, shows, feira livre, quermesses, calçadão do Centro e outros pontos com grande fluxo de pessoas. “Diversos motivos os levam a ficar no que chamamos de situação de rua. Muitos precisam ajudar em casa, são obrigados pelos pais a vender algo nas ruas ou não tiveram oportunidade de estudar”, disse Maria Inês Coimbra, coordenadora do Creas.
Os meninos abordados nas ruas costumam ser acompanhados pelo Creas. Recebem, junto com a família, atendimento psicológico, de assistente social, terapeuta ocupacional e podem fazer cursos de percussão, dança ou profissionalizantes, oferecidos em parceria com outras instituições, como o Senac. “Fazemos visitas domiciliares para um trabalho educativo com os jovens e os familiares. Muitas mães não acham errado deixar os filhos na rua. Queremos conscientizá-las dos riscos disso. O problema é que nem todos aderem ao atendimento que oferecemos”. Maria Inês acredita que dos 180 identificados (sendo cinco adolescentes que abandonaram suas casas e moram nas ruas), 120 estão em acompanhamento. Em casos de não adesão, o Creas informa Ministério Público e Conselho Tutelar para intervirem.
A expectativa da Prefeitura é a de que os atendidos, a médio prazo, deixem as ruas. “Nosso objetivo é proteger os meninos. Ajudá-los a saírem das ruas e reduzir os danos que podem ter se continuarem nesta situação. Nas ruas, podem se envolver com o tráfico de drogas ou serem vítimas de exploração sexual. É uma situação de risco extrema”, disse Maria Inês.
Um adolescente de 16 anos é um dos acompanhados pela equipe do Creas. Aos 9 anos trocou os brinquedos por uma caixa de engraxate, escovas e graxa para lustrar os sapatos de clientes nas Praças Barão e do Itaú, no Centro da cidade. Mesmo tão pequeno, teve apoio da mãe, que alega não ter condições de comprar o que ele pedia (leia ao lado). “Passava no Centro e via os meninos trabalhando, por isso fiquei interessado. Ganhei a caixa e uns clientes me ajudaram a comprar os produtos”.
O jovem continua trabalhando. Passa manhãs e tardes nos mesmos pontos. Chega ao Centro por volta das 9 horas para aproveitar a abertura das lojas e volta para casa depois das seis. Não tem base de quanto tira por dia ganhando R$ 2 por par de sapato engraxado. Na última quarta-feira, voltou para casa com R$ 20 no bolso. “Uso o dinheiro para ajudar em casa e comprar as coisas para mim”, disse ele, que mora com a irmã.
Interrompeu os estudos na 5ª série porque não conseguiu vaga à noite e “acabou desanimando da escola”. Agora tenta completar a formação fazendo supletivo. O adolescente pretende continuar sendo engraxate, mas espera conseguir oportunidades melhores. “Acho bom demais trabalhar porque é melhor que ficar na rua vagabundando. Quero uma coisa boa para eu trabalhar registrado, com um serviço bom, como mecânico de carro”.
BALANÇO
O programa para identificar crianças e jovens nas ruas é desenvolvido desde 2007. No primeiro ano, foram encontrados 53 meninos. A Prefeitura encerrou 2009 com 160 pessoas. Para Maria Inês, o aumento ocorreu porque os educadores intensificaram as buscas. O Promotor da Infância e da Juventude, Augusto Arruda Neto, foi procurado pela reportagem para comentar o assunto, mas não foi encontrado.
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