Os fatos como eles são


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Críticos da imprensa costumam dizer que os jornais dão muito destaque a notícias
‘negativas’. De fato, há tragédias que necessitam de divulgação, seja para provocar conscientização em relação às causas e soluções, seja como registro histórico dos acontecimentos que provocam mudanças de comportamento e impactam uma cidade, o país ou a humanidade.

Não expor a debate a violência, as guerras e os fatos ruins do cotidiano seria o mesmo que fazer uma blindagem ilusória ao leitor, poupando-o das desgraças e traçando um mundo perfeito que não existe.


Quem conhece a história lendária do budismo sabe que o príncipe hindu Sidarta Gautama (Buda) veio conhecer o sofrimento humano somente aos 29 anos de idade quando resolveu deixar o pai, pois este o impedia de sair do palácio, onde não existiam miséria, morte e doenças. Isso se deu cinco séculos antes de Cristo. Com a invenção da imprensa por Gutenberg, há 500 anos, teve início a revolução da informação, que continua nos dias de hoje.


A notícia, boa ou ruim, agora se dissemina em tempo real, como a luz do sol. Vem para todos. E nesse canal cada vez mais amplo e diversificado da comunicação é possível encontrar de tudo e interagir por meio da discussão cidadã.
 

Os jornais da Rede APJ são uma amostra dessa tendência do jornalismo moderno: mostrar os fatos com a dureza que os tempos exigem. Mas também dar esperança e apontar caminhos alternativos de uma sociedade digna e melhor. Vejamos alguns exemplos.

 

Solidariedade
O Diário do Grande ABC mostrou em reportagem especial que são inúmeros os programas sociais destinados a garantir o direito à alimentação a todo e qualquer cidadão, mas que na prática as iniciativas estão longe de garantir que muitas famílias tenham acesso, todos os dias, a café da manhã, almoço e jantar. A manchete é dramática: “Famílias ‘invisíveis’ são isoladas pela fome”. A repórter Kelly Zucatelli visitou algumas famílias em situação de vulnerabilidade social. A maioria nem se lembra quando foi a última vez que se serviu de uma refeição completa, conta ela. O quadro se repete em todas as regiões do Estado. Essa é a notícia “negativa”. O outro lado é que não foram poucos os cidadãos que demonstraram disposição para se mobilizar e ajudar as famílias que enfrentam diariamente a fome, sensibilizados pela realidade revelada na reportagem. “Inúmeros foram os telefonemas e mensagens eletrônicas querendo saber como chegar até os carentes que não conseguem fazer dignamente as três refeições do dia”, relata o jornal.


Campanha
Em Sorocaba, a Fundação Ubaldino do Amaral, mantenedora do centenário Cruzeiro do Sul, promove campanha de conscientização dos motoristas sobre o respeito às regras de trânsito e a importância de atitudes mais humanas e positivas, como educação e cordialidade. O jornal que escancara em manchete o elevado índice de mortalidade no trânsito e o drama de jovens motociclistas mutilados e afastados da vida normal, é o mesmo veículo que distribui kits com sacolinha para colocação de lixo, flanela, cartilha e adesivos educativos. São duas faces da mesma realidade.
 

Comunidade
Há outros exemplos de participação comunitária. O Jornal de Piracicaba promoveu neste inverno campanha de doação de agasalhos em prol de instituições. Em Bauru, o Jornal da Cidade encabeçou venda de 23 mil sanduíches na festa de aniversário da cidade, que renderam R$ 150 mil a entidades filantrópicas. O Jornal de Limeira mostrou belas histórias de superação, que servem de conforto e estímulo a outras pessoas. O Jornal de Jundiaí publicou corajosa entrevista de um viciado em crack, que abriu reflexão de jovens, pais e educadores sobre a mais devastadora das drogas modernas. Quase todo santo dia os jornais falam sobre as agressões ao meio ambiente, mas também cresce a conscientização da população em relação a condutas como a reciclagem do lixo e o uso de sacolinhas retornáveis nos supermercados.
 

Conclusão
A lição que fica: o mundo tem problemas, mas é preciso atuar sobre eles. Enquanto houver jornais com essa sensibilidade e solidariedade entre as pessoas, haverá esperança de transformação da realidade. Deixem, então, fluir os fatos como eles são.

 

Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br

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