Jean Oliveira
Da APJ, especial para o Comércio
Ignácio de Loyola Brandão -um dos destaques da 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo pela sua participação nas mesas de discussão “Meus professores fizeram de mim um escritor” - não está otimista com o presente e o futuro do Brasil e do mundo. O autor de Não Verás País Nenhum (1981) diz que os dias piores que ele previa no início da década de 1980 já estão acontecendo. A conversa com o renomeado e premiado escritor se deu por ocasião da Bienal, a terceira maior feira de livros do mundo que acontece no Pavilhão de Exposições do Anhembi, em São Paulo, até o próximo dia 22.
Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara (SP) em 1936. Fascinado por dicionários, ele conta que durante parte de sua vida escolar chegou a trocar palavras por bolinhas de gude e figurinhas com seus colegas de classe. Mais tarde, esse fato acabou se transformando no conto O Menino que Vendia Palavras, primeiro a ser publicado pelo autor.
O escritor trabalhou em jornais e teve participações no cinema. Em 1965, usando de uma divulgação inovadora, lançou seu primeiro livro, de contos: Depois do Sol. Sua carreira passou a ser marcada por lançamentos e participação em diversos eventos. Em 1974, na Itália, lançou o romance Zero que, no ano seguinte, chegou ao Brasil e ganhou vários prêmios.
São de sua autoria, ainda, É Gol (1982); Cabeças de Segunda-Feira (1983), e O Ganhador (1987). Ele recebeu, entre dezenas de prêmios, o Jabuti de “Melhor Livro de Contos”, em 2000, por O Homem que Odiava a Segunda-Feira.
Comércio da Franca - Durante visita a Araçatuba, no ano passado, o senhor comentou que começou a gostar de literatura por não concordar com o final de uma história lida em sala de aula. O senhor acredita que os estudantes, hoje, têm encontrado ambiente e preparo nos bancos escolares para se tornarem bons leitores e também escritores?
Ignácio de Loyola Brandão - No fundo, não foi apenas pelo final de uma história que acabei descobrindo meu destino, mas por uma série de fatores que, pelo que vejo, observo, sinto e ouço, não existem mais nas escolas. Ou seja, profundidade do currículo; atenção para com o aluno; professores bem preparados, bem pagos e que tenham tempo para ler e gostar de ler.
Faltam, ainda, professores que gostem de livros e de contar histórias, que olhem nos olhos dos alunos e vejam seres humanos e descubram neles criatividade, interesse, inquietação, loucura. Estamos carentes, também, de um Ministério da Educação que se interesse pela educação, pelo ensino, pela formação, pelas cabeças, pela vida e não somente escolas preparadas para fazer alunos passarem no vestibular. Falta um governo que cuide de, outra vez, tornar digna a profissão de professor, hoje avacalhada ao extremo por medo dos alunos, dos pais de alunos, que processam.
CF - Como os pais também podem incentivar os filhos à leitura?
Ignácio - Os pais precisam gostar de ler. Gostar de livros. Levar livros para casa. Contar histórias aos filhos. Conversar com eles, conhecer os filhos, se interessar por eles. Não largá-los diante da tevê, na lan house, diante do computador, dos videogames.
CF - O senhor acredita que a TV e a internet são vilãs da boa formação intelectual das novas gerações?
Ignácio - A internet e a televisão não são vilãs, elas são acessórios que é preciso aprender a manejar. Há pais que conduzem os filhos pelos labirintos do crescimento, com internet, televisão, vídeo, iPhones, toda tralha, e também pelos livros, passeios, vida. É fácil a um pai culpar os outros, culpar a tecnologia, desculpando-se da desatenção, dos descaso. Quantos pais leem? Vá à casa dos seus amigos, conte quantos livros eles têm em casa.
CF - O senhor acredita que outros jovens do interior, como o senhor, nascido em Araraquara, e Mário Prata, criado em Lins, têm condições hoje de se dedicarem à literatura e se tornarem, também, escritores nacionalmente conhecidos?
Ignácio - Acredito que há talentos soltos, espalhados, escondidos. No interior? Sim. Nas capitais? Sim. No mato? Sim. O talento independe do lugar de nascimento, da origem. Depende da loucura interior que é como Leonardo Da Vinci chamava a inspiração. É esse fogo que nos consome por dentro e nos obriga a criar, em qualquer campo que seja. Dedicar-se à literatura significa sentar-se e escrever, escrever, escrever, acreditar no que está escrevendo, deixar tudo de lado pela escrita, sofrer por ela, alegrar-se com ela. Entregar-se.
CF - Qual conselho o senhor daria à pessoa que quer aprender a escrever bem?
Ignácio - Para escrever bem? Saber a língua, primeiro. Ler muito, ver como os grandes escreveram e escrevem. Desmontar os bons livros para aprender como funciona o motor. Ler, ler, ler, ler. Escrever, escrever. Saber que a vida é um contínuo aprendizado. Ser curioso.
CF - Em entrevista recente, o cartunista Ziraldo se disse preocupado com o fato de as crianças hoje se encantarem mais com o Halloween do que com o saci, por exemplo. O senhor acredita que, por causa da globalização, estamos perdendo nossas referências folclóricas e culturais?
Ignácio - Haverá sempre quem se preocupe com os mitos, os princípios da cultura, a própria cultura. O mundo inteiro está se globalizando e as cosias mudam. O que fazemos? Recolhemos-nos à casca, nos fechamos como Cuba, como a Albânia de anos atrás? Não é todo mundo que está querendo curtir o Halloween. É uma parte. Também poucos curtem o saci. Não é por isso que o saci vai morrer, mitos são indestrutíveis. Veja os mitos gregos. São mais a-tuais do que nunca e inspiram a psicanálise, o estudo da alma e do homem.
CF - Em uma de suas entrevistas, o senhor disse que fez parte de uma geração marcada pelo sentimento de poder, pelo desejo de mostrar um país oculto, de mostrar os porões do Brasil. Como o senhor vê a participação política e social da atual geração?
Ignácio - Não estou vendo. Ainda estou procurando. Cadê a utopia? Cadê a reforma do mundo? Cadê a ideologia? Cadê os caras pintadas?
CF - Em seu romance Não Verás País Nenhum (1981), o senhor abordou a possibilidade de um futuro sombrio sobre questões ambientais e humanas. O senhor continua acreditando que caminhamos para dias piores?
Ignácio - Os dias piores já estão aí, caro amigo. Veja os aviões demolindo as Torres Gêmeas. Veja o Iraque. O Afeganistão. O PT. O vazamento de petróleo no Golfo do México. A corrupção. O PCC. O narcotráfico. O Hugo Chávez. A cirurgia plástica deformando os rostos. O Dunga. Os americanos exigindo que o Irã não tenha bombas, enquanto eles têm. Israel construindo muro para os palestinos. A Aids. As grades fechando as nossas casas. A violência. Os assaltos. Os assassinatos e as mortes.
CF - Quais são seus projetos literários e pessoais para este segundo semestre e para 2011?
Ignácio - Terminei a biografia de Ruth Cardoso, que deve sair em outubro. Chama-se Ruth Cardoso, Fragmentos de Uma Vida. Terminei um novo livro infantil, O Menino que Perguntava, continuação de O Menino que Vendia Palavras. Estou escrevendo uma série de contos e crônicas, todos tendo as ferrovias, os trens, as viagens como tema. Vai ser uma espécie de memória de infância e juventude. Chama-se A Moça da Estação. Para 2011 tentarei terminar meu romance O Enforcado do Terno Amarelo. Agora, estou feliz com a edição de aniversário de meu romance Zero, que acaba de completar 35 anos no Brasil. Saiu uma edição especial, com cem páginas de making of, fotografias, diários de trabalho etc. Uma edição primorosa!
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