Quem não lê, vê TV


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Fortes emoções estão de volta. Prepare seus ouvidos e os olhos também. Hoje começa a propaganda eleitoral obrigatória no rádio e na televisão. Somente os políticos gostam desta divulgação. Não só por ser gratuita. Sabem que o conteúdo da programação é gravado com antecedência. Candidato nenhum corre o risco de sofrer um questionamento embaraçoso.


Já para a população não há escapatória. O ouvinte ou o telespectador tem agora uma hora a menos no seu lazer diário. O programa eleitoral é apresentado em dois blocos, tanto no rádio, quanto na televisão. O conteúdo acaba sendo quase que o mesmo para os dois veículos de comunicação. A tevê apenas oferece as imagens mais favoráveis à boa performance do candidato.


Devido à inércia natural do telespectador, a TV influi muito mais na decisão do eleitor. A pessoa está sentada na sala ou em outro lugar, assistindo a seu programa favorito. De repente, lá na tela irrompe a imagem sorridente (muitas vezes, de quem nunca sorriu antes na vida!), acompanhada de palavras cheias de promessas. Por comodismo, só para não se levantar, o eleitor assiste a tudo passivamente. Ainda acha bonito, convincente. Ou até engraçado!


Não bastasse o fato de assistir ao horário eleitoral por assistir, o perigo maior está na quantidade de eleitores que tem a TV como a principal fonte de informação. De cada grupo de 100 pessoas em condições de votar, 65 são telespectadores. A seguir, 12 leem jornal para se informar. Dos 23 restantes dos 100, 7 ficam com o rádio, 7 são internautas, 6 sabem das coisas por meio de colegas, amigos ou familiares e os últimos 3 nem conversam.
 

Pelas contas, fica fácil perceber que entre os eleitores a maior fonte de informações sobre os candidatos está na TV e no jornal.


A equação simplificada dá larga vantagem à televisão. O perigo reside ainda noutra atenuante. Se na imprensa os postulantes a cargo eletivo dispõem de igual cobertura, no meio audiovisual o tempo de exposição depende do partido.
 

Faz tempo que a TV vem decidindo eleição em função de sua enorme audiência, acompanhada de visualização real.


Quanto mais recursos uma agremiação eleitoral pode injetar na imagem de um candidato, mais chances têm de fabricar o vencedor do pleito haja vista que a quantidade de telespectadores a receber influência direta da telinha mágica consegue suplantar com folga o número de leitores, ouvintes ou internautas somados.
 

Isso faz com que os políticos de plantão continuem a ser favoráveis a este nefasto horário eleitoral obrigatório no rádio e na TV, implantado no País na época da Ditadura Militar. Também, não é à toa que até incentivem o analfabetismo funcional entre a população.


Afinal, quem não lê, vê TV. Quer constatação melhor para o candidato de um partido cheio de coligações?

 

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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