Cerca de 320 mil habitantes e uma frota de 200 mil veículos circulando em suas ruas e avenidas já seriam ingredientes suficientes para complicar o trânsito na cidade de Franca.
Junte-se a isso, a obra na rotatória do Galo Branco - bem na junção de duas das avenidas de maior movimento do município -, ruas antigas e estreitas na região central, quatro radares adquiridos para fiscalização do trânsito e a proposta para que a Guarda Civil Municipal volte a multar os motoristas francanos. Está formado um quadro de muitas reclamações. À frente desse imbróglio está o secretário municipal de Segurança e Cidadania, Sérgio Buranelli.
Aos 57 anos, Buranelli é tenente reformado da Polícia Militar e atuou por 22 anos no Corpo de Bombeiros, 10 deles em Franca. Nesse período, iniciou o curso “Bombeiro nas Escolas” - deu aula em estabelecimentos de ensino públicos e particulares. Aposentou-se como segundo tenente na infantaria do 15º Batalhão da Polícia Militar do Interior. “Nasci em Altinópolis, mas vim para cá quando tinha dois anos de idade. Me considero francano”.
O secretário conta que entrou para a PM por acaso. “Era auxiliar de contabilidade e um dia vi um panfleto sobre o concurso. O que me atraiu foi o salário: três vezes o que eu ganhava”.
Passou a fazer parte da Prefeitura de Franca em 2005, logo após a posse de Sidnei Rocha (PSDB). Foi chefe da Guarda e recebeu seguidas promoções até assumir a secretaria em 2009.
Hoje é diretor de trânsito da cidade e tem histórias trágicas para contar sobre o tema. “Sou órfão de um pai que foi esmagado na Voluntários da Franca, no Centro. Ele era motorista de táxi. Há 50 anos, um caminhão passou em cima dele enquanto estava agachado ao lado do carro, mostrando um defeito no veículo Ford 50 antigo ao mecânico. Meu pai morreu na hora”, disse. Buranelli também já foi vítima de um acidente de moto e ficou três dias em coma. Quanto ao trânsito e os problemas que apresenta, acredita que a única solução para reeducar os motoristas francanos é fazer “doer o bolso”, mas nega a existência de uma “indústria da multa”. “O trânsito é formado por um tripé: engenharia, fiscalização e educação. Enquanto não tivermos fiscalização suficiente, o motorista vai achar que pode fazer o que quer”.
O imbróglio do trânsito não é o único com o qual o tenente convive. Ele respondia, desde 2007, a um processo de assédio moral, registrado contra ele pelo Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Franca, no TRT (Tribunal Regional do Trabalho). O processo foi arquivado após a assinatura de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), com o Ministério Público. Esse assunto é o único sobre o qual o tenente responde de forma mais evasiva e não detalha exatamente o que aconteceu. Deixa transparecer, apenas, que acredita que a reclamação se deu porque membros da Guarda Civil Municipal não concordavam com a disciplina que ele, tenente, impõe à corporação.
Comércio - A Prefeitura de Franca comprou e testou dois radares “dedo-duro”, mas eles ainda não têm data para começar a funcionar. Por quê?
Buranelli - Porque Franca é a segunda cidade do Estado de São Paulo a implantar isso. Apenas São José dos Campos tem esse tipo de equipamento em funcionamento. A CTBC Franca está tendo dificuldade para estabelecer a comunicação com a Prodesp - sistema da Secretaria de Segurança Pública. Estamos procurando outros caminhos. Logo, isso vai estar nas rodovias estaduais e federais. Aqui em Franca, chegando no posto rodoviário, será instalado um equipamento desses. Qualquer pessoa que estiver chegando a Franca e que o radar indicar algum problema, encosta na base e a (Polícia) Rodoviária já segura.
Comércio - Nos três primeiros dias de teste, 80 veículos foram apreendidos. O senhor não teme que o Pátio Modelo não comporte a demanda?
Buranelli - Não vou descartar a possibilidade, mas temos visto que a maioria dos carros apreendidos já foi liberada. Na quarta-feira, por exemplo, foi pego um carro que estava desde 2004 sem licenciar. Se você somar IPVA, licenciamento e multas que por ventura tenha, às vezes, o valor a ser pago é maior do que o do veículo. Esse, então, provavelmente vai a leilão. Por outro lado, você acha que o dono de um veículo importado que foi recolhido na quarta-feira vai deixá-lo sob sol, chuva e poeira lá no Pátio? Já tirou! E colocamos um funcionário da Prefeitura dentro da Ciretran para agilizar a realização de leilões a cada 90 dias.
Comércio - Além dos dedos-duros, há outros dois radares de velocidade e o pedido do prefeito para que a Guarda Civil volte a multar. Tudo isso originou até CPI na Câmara Municipal - a da Indústria da Multa. O que o senhor acha de tudo isso?
Buranelli - Não é que a PM seja incompetente, mas a cidade está crescendo e preciso de mais gente no trânsito. Tem de ter uma fiscalização melhor para reduzir o número de acidentes. Depois que a cidade foi recapeada e sinalizada, nada mais impede a velocidade. E a pessoa quer correr. Tem que ter um equipamento que segure isso. Lembrando que o trânsito é formado por um tripé: fiscalização, engenharia e educação. Se não tiver fiscalização, a cidade não consegue segurar. Para você ter uma ideia, há situações em que colocamos o radar na Presidente Vargas e ele não consegue nem registrar a placa de algumas motos, porque elas passam acima de 110 (quilômetros) por hora.
Comércio - Isso no caso da velocidade. E o outro que verifica apenas documentação?
Buranelli - Os dois radares de documentação têm seu lado positivo: a partir do momento em que um carro participou de um assalto ou foi furtado e foi cadastrado, ele já está no sistema da Prodesp. Se esse carro passar em uma fiscalização, vai ser abordado e, se estiver com o bandido, ele será preso. Paralelo a isso, ele fiscaliza licenciamento. Em Franca, há 35 mil veículos sem licenciamento. Mas, não é só aqui. Quando instalarem isso aí nas rodovias, vão ter muita surpresa.
Comércio - Não tem a ver com a arrecadação da Prefeitura com multas e IPVA?
Buranelli - Não. Se não estou enganado, existe um repasse de valores. Mas essa multa por licenciamento não é do município, é do Estado.
Comércio - Sim, mas quando a PM fiscaliza o veículo, outras multas podem ser aplicadas. As de velocidade e estacionamento, por exemplo, são da Prefeitura. E os motoristas, para colocar a documentação em ordem, acabam pagando também o IPVA, 50% vão para os cofres do município...
Buranelli - Na época de aquisição do equipamento não foi pensado isso. Honestamente falando. E quem pediu a compra dos radares foi a Polícia Militar. Começaram a puxar a documentação dos veículos que se envolviam em acidentes e viram quatro, cinco, seis anos de atraso na documentação. Foi quando pedimos o levantamento do número de veículos sem licenciamento em Franca. Então, esse equipamento não foi comprado com o intuito de arrecadar IPVA. Essa não foi a intenção. A arrecadação acaba sendo automática, mas também tira carros que estão com problemas de conservação, com pneu liso, sem a parte elétrica...
Comércio - O prefeito já declarou que tinha dificuldades para resolver os problemas de trânsito. Qual seria a solução?
Buranelli - Trânsito é igual futebol: todo mundo entende. Querem que vire mão para cá, mão para lá. Só que eu tenho que olhar a parte técnica. O prefeito dá liberdade, mas o orçamento é limitado, pouco mais de R$ 3 milhões. Só para a empresa que fará a sinalização são R$ 2,8 milhões. Temos oito pessoas e, se a Guarda Civil passar a fazer a fiscalização, serão mais 59 agentes que ajudariam. Só melhora quando dói no bolso. Não é “indústria de multa”, mas o francano só vai mudar quando intensificarmos a fiscalização. Não adianta.
Comércio - No início do ano, o prefeito chegou a dizer que acabaria com a Guarda Civil se o projeto que autorizava a corporação a multar não fosse aprovado pelos vereadores. Como ficou essa situação?
Buranelli - A Guarda Civil em Franca acompanha de perto o trabalho da prefeitura, é importante, mas não aparece muito aos olhos da população. Não sei qual foi a intenção do senhor prefeito, mas a Guarda tem que acompanhar tudo o que acontece na cidade. Por exemplo, tenho Guarda Civil que fica no PS “Dr. Janjão” 24 horas. E ai se não estivesse lá! Porque as agressões a médicos e enfermeiros aconteceriam uma atrás da outra. Ela é que consegue segurar. Nós ajudamos no Busca Ativa. Temos guardas 24 horas no Pátio...
Comércio - Mas, então por que o prefeito implicou com a Guarda na época?
Buranelli - O senhor prefeito é um administrador dinâmico que tem uma visão muito grande e quer resultado. Depois foi explicado para ele. Veja bem, se o Guarda não tiver o poder de polícia no trânsito, como é que na hora de um acidente ele vai interditar a rua para que ninguém mais morra naquele local durante o atendimento às vítimas? Outro exemplo, tenho dois guardas lá no Distrito Industrial por causa das obras no canal, próximo ao Galo Branco, fazendo o papel de semáforo, puxando o trânsito naquele setor. Explicamos isso para o prefeito. No trânsito, hoje, a Guarda faz pouca coisa. Não fiscaliza. Orienta. Na época, em dezembro, os vereadores falaram: “Que presente que nós vamos dar para Franca, liberando mais uma corporação para multa”. Isso foi nos bastidores. Gostaria que quem tiver o poder para decidir isso dê uma olhadinha em Franca para ver se há ou não necessidade de mais gente para fiscalizar.
Comércio - E o projeto para que a Guarda portasse armas não-letais (por eletrochoque), avançou?
Buranelli - Temos uma verba de R$ 250 mil liberada pelo Governo Federal que o deputado federal Maro Aurélio Ubiali conseguiu, só que ainda não foi repassada. O projeto está pronto, foi aprovado e com toda a documentação, só esperando o repasse. Agora depende apenas de Brasília.
Comércio - Há um processo contra o senhor no TRT (Tribunal Regional de Trabalho) de assédio moral. O que houve e quem deu origem ao processo?
Buranelli - Veja bem, aqui não é quartel. Os Guardas Civis não são militares, mas foram treinados e a corporação foi criada por militares. Houve uma confusão de alguns deles. Fala-se muito em assédio moral. Está na moda. Eu e Jerônimo (Sérgio Pinto, secretário de Administração) fomos denunciados nesse processo e fizemos um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) no Ministério Público Estadual. Todos tivemos de fazer um curso para explicar direito o que é assédio moral. Então, isso já está resolvido. E lhe digo uma coisa: nem a Guarda nem a secretaria se transformarão em quartel. Não, mas em todo o lugar da vida tem disciplina e hierarquia.
Comércio - Mas a reclamação foi quanto à disciplina? E o processo fez com que mudasse alguma coisa na rotina da Guarda?
Buranelli - As determinações continuam e as ordens têm de ser cumpridas. Já pensou se todo mundo fizesse o que quer? Então, por exemplo, a Guarda tem de andar com o cabelo cortado, com a bota engraxada, com a roupa arrumada. Já pensou um guarda civil chegar cabeludo, barbudo... Tem um regulamento a seguir. Por exemplo, quando chegar perto do prefeito, do presidente da Câmara Municipal, tem que cumprimentar com uma continência. “Ah, mas continência é de militar...”. Não. É um cumprimento apenas. Uma questão de educação. E até disso reclamaram. Disseram que eu queria transformar aquilo em quartel.
Comércio - Mas a Guarda foi criada há 20 anos e o senhor está no comando desde 2005, porque reclamações como essa aconteceram apenas sob sua administração. Não é de estranhar secretário?
Buranelli- É. Principal-mente se você pensar que a Guarda sempre foi comandada por policiais militares ou de-legados. Acho que virou moda. Todo mundo agora é assediado. Um processo de assédio moral é coisa séria, mas essa acusação que provocou isso, não aconteceu. Tive oportunidade de ver o processo. Meu Deus! O que falava lá era apenas sobre o não cumprimento de ordens.
Comércio - O senhor se considera uma pessoa autoritária?
Buranelli - Não. Minha fisionomia fechada se deve à ascendência italiana. Eu gosto que cumpram minhas ordens. Sou rígido no cumprimento de minhas obrigações e cobro o mesmo de quem trabalha comigo.
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