“Quem me leva adormecida
por dentro do campo fresco,
quando as estrelas e os grilos
palpitam ao mesmo tempo?”
Cecília Meireles
in Passeio
in Passeio
Navegava em direção à ilha dos sonhos. As águas flutuavam em si mesmas, pele sobre entranhas, e marulhavam segredos indecifráveis. Nelas, eu boiava: pluma silenciosa.
Então, veio aquela brisa e me fez balançar, leve, leve... Podia senti-la me tocando os ombros, convidando a pluma a erguer-se; chamando-me com seu canto, que ecoava nas águas. Era suave a voz da brisa, vinda de muito longe, me embalando... e quase me erguendo.
E eu dormia, ao som que se refazia em ecos, e ao vaivém, contínuo e delicado, da superfície macia. Dormiam o céu, a noite, as estrelas, que surgiam, piscando, aclarando-apagando... águas e sonhos.
Havia lua?
Talvez...
Havia a brisa, agora só a brisa, adensando-se, e me tocando mais forte, como se criasse mãos, ainda leves mas decididas a me tirarem dali. Mãos que me pareceram, então, bem familiares, tanto quanto a voz, insistente, e já muito próxima, trazendo-me, finalmente, à vigília.
Dois olhos me fitavam, quando abri os meus. Uma luz tênue, amarelada, vinha do corredor. Papai estava ali, à minha frente, meio sonho, meio realidade; meio quebra de encantamento, meio promessa de novidades. Chamava-me a ir com ele. Mas parecia tão noite ainda, o que significava cedo para eu acordar.
- Venha, disse-me, venha ver! Está na hora!
“Quem me leva adormecida
sobre o perfume das plantas,
quando, no fundo dos rios,
a água é nova a cada instante?”
sobre o perfume das plantas,
quando, no fundo dos rios,
a água é nova a cada instante?”
Levantei-me e segui-o, confiante.
No quintal, não havia estrelas visíveis, só a lua, enorme.
Caminhamos poucos metros, em silêncio. Audíveis, apenas, o meu coração, saltando no peito (papai era um sábio, e dele sempre esperava as maiores descobertas, as melhores surpresas), e os nossos passos, rítmicos, no chão batido e varrido.
“Quem me leva adormecida
pelas dunas, pelas nuvens,
com este som inesquecível
do pensamento no escuro?”
pelas dunas, pelas nuvens,
com este som inesquecível
do pensamento no escuro?”
Não demorou para que os visse, brilhando, à luz farta que anima os luares da infância.
Não me lembro de quantos eram. Lembro-me apenas das rachaduras nas cascas, seguidas dos buraquinhos, que se faziam às bicadas vindas de dentro.
Não me lembro de quantos eram. Lembro-me apenas das rachaduras nas cascas, seguidas dos buraquinhos, que se faziam às bicadas vindas de dentro.
Lembro-me bem das criaturinhas frágeis, envoltas em substância viscosa, gemas vivas, pedacinhos de ouro maleável, lutando, tentando se livrar dos duros invólucros e acordar para a vida. (Lembro-me da enorme vontade de ajudá-los a se desprenderem daquelas carapaças, grudadas nos corpinhos, quase a lhes arrancarem a pele).
Lembro-me também de seus passinhos, miúdos e confiantes, a seguirem - imediatamente depois - a mamãe-pata até o laguinho, construído para eles, no fundo de nosso quintal. E da água, pele sobre entranhas, a recebê-los, marulhando segredos indecifráveis. Nelas, eles boiavam: plumas silenciosas.
Lembro-me da brisa que os fez balançar, leves, leves... chamando-os a se erguerem. E do som que se refazia em ecos, ao vaivém, contínuo e delicado, da superfície macia.
Havia lua?
Sim, havia!
Havia luz. A luz de duas verdades, presentes no momento da vinda à vigília: o milagroso e o corriqueiro, que se fazem e se refazem, no que fica e no que passa; que se imbricam e se confundem; que se fecham, em círculo de amor e confiança; e que eu, privilegiada, fui convidada a viver, por mãos, sabedoria e desvelo de um homem sensível e amoroso.
Agora, uma voz longínqua no tempo me diz, em palavra única, e muito clara, trazida pelo vento da saudade, “quem me leva adormecida / por dentro do campo fresco, / quando as estrelas e os grilos / palpitam ao mesmo tempo”.
Eny Miranda
Médica, poeta e cronista
Médica, poeta e cronista
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