Berliques e berloques


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Esta é uma expressão em desuso. Conforme o Aurélio, significa “Arte ou habilidades misteriosas; artimanha, intrujice”. Mas também pode ter o sentido de “Coisas variadas”. É com este segundo sentido que apresento a fragmentada coluna de hoje.

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Quais os profissionais que certamente estão no céu? “Os jornalistas, com certeza,” teria respondido Alfredo Henrique Costa, professor e jornalista, diretor do Comércio da Franca antes da era Corrêa Neves. Dizia Alfredo Costa: “Não precisam de médicos no céu; lá ninguém fica doente. Não precisam de padres, pois todos ali já foram salvos. Mas as almas no sul do céu hão de querer saber o que estão fazendo as almas no norte. Aí vão precisar de jornalistas.”

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Um locutor da antiga PRB 5, Rádio Club Hertz de Franca, na década de 50, no dia em que houve um tiroteio no Laticínios Jussara, na Estação, anunciou aos motoristas, em face do perigo de uma bala extraviada: “Não saia de casa sem necessidade, a menos que seja necessário.”

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De um relatório de acidente de automóvel para uma companhia de seguro: “Meu carro não sofreu nenhuma avaria, e o outro ainda menos.”

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Júlio César D’Elia era o diretor respeitabilíssimo no antigo IETC, também na década de 50. Certa vez, num discurso de formatura, ele disse no palco do salão da escola, a professores, pais e alunos, em tom meio de advertência administrativa e conselho aos jovens formandos: “Há uma coisa a ter em mente: todas as decisões não são tomadas até que todas as decisões sejam tomadas.”

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Dr. Alfredo Rodrigues era nosso professor de Literatura Brasileira na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca. Gostava de fazer suas piadinhas, em que pese fosse cego e tivesse lá suas razões para ser um homem mal-humorado. Suas aulas, obviamente, eram apenas faladas, discursivas, e nós, alunos, tínhamos que anotar os dados principais. Em sua última aula em final de série, disse: “Meus alunos, tenho duas confissões a fazer antes de me retirar. A primeira é que em breve vocês descobrirão que metade do que ensinei não era a verdade. E minha segunda confissão é de que não tenho a menor idéia sobre que metade estou falando.”

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Dona Ilca era nossa professora de catecismo na igreja Nossa Senhora das Graças, em 1957. A turma era mista. Ela era auxiliada por sua irmã Dona Ivete. Por mais que esforçassem, não conseguiam com que nossa turminha cantasse mais ou menos afinada os cânticos para a primeira comunhão. Dona Ilca então pediu ajuda ao vigário, frei José Pinto Ribeiro. Em sua batina preta, com as mãos para trás, olhou-nos por trás de seus óculos de lentes grossas e disse: “Pensem do seguinte modo: para aqueles de vocês que foram abençoados por Deus com boa voz, é uma oportunidade de agradecerem a Ele. E para aqueles que o Bom Deus não abençoou com boa voz, é a sua oportunidade de se vingarem.”

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Do professor de Contabilidade, Luiz Puglia, numa de suas aulas noturnas no Pestalozzi: “Não há nada de errado com a nova geração que não possa ser consertado quando ela começar a pagar impostos.”

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Esta eu ouvi do dr. Cleomar Borges de Oliveira, citando Platão: “Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a verdadeira tragédia da vida é quando os homem têm medo da luz.” Bravo, não?

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Ficar deitado na cama seria uma experiência completamente perfeita e suprema se tivéssemos um lápis colorido bastante comprido para poder desenhar no teto.

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Não é tão importante ser sério como o é ser sério quanto às coisas importantes. O macaco tem uma expressão de seriedade que ficaria bem em qualquer sábio, mas o macaco fica sério porque sente coceira.

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Qualquer alemão parado e calado, contemplando o horizonte, já nos faz pensar: “Eis aí um filósofo!”

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Uma mulher, preenchendo um formulário de requisição de emprego, ficou sem saber o que escrever quando chegou à pergunta “Cor do cabelo”. Sua única resposta foi: “Quando?”

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O pianista cego George Shearing sempre manteve seu senso de humor em dia. Certa vez, antes de iniciar um concerto, anunciou alegremente do palco: “Num esforço para diminuir um pouco a conta de luz, estou com vontade de apagar todas as luzes do teatro.”

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Quando eu lecionava à noite, naqueles famosos cursinhos preparatórios para vestibulares que havia em Franca, comprei um filhote de cachorro e o dei de presente à minha jovem esposa. E ela passou a treiná-lo muito bem quanto a como se comportar em casa. Nossas filhas ainda não tinham nascido. Alguns dias da semana eu voltava tarde e ela não agüentava ficar acordada até eu chegar. Nessas ocasiões, sempre me deixava um bilhete dizendo: “Deixe o cachorro sair”. Eu caçoava com ela por ser tão pouco romântica, até que uma noite ela me surpreendeu com este bilhete:


Demora, querido,
O tempo que for;
Constante te espero,
Sonhando de amor.
Mas deixe o cachorro sair.

 

Everton de Paula
Acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 42 anos

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