Experiências com a verdade


| Tempo de leitura: 2 min

Existe em mim uma necessidade de tempos em tempos de saber e sentir mais esta pessoa que foi Gandhi, o hindu que, com uma filosofia de não-violência, conseguiu libertar a Índia do jugo inglês, no início do século passado.


Einstein, ao comentar a sua figura impressionante, dizia que as futuras gerações não iriam acreditar que existiu sobre a face da Terra um ser como Gandhi. Pelo menos uma vez por ano assisto ao filme de sua vida, tão bem representado pelo ator Ben Kingsley. Mesmo em outros papéis, em outros filmes, me vejo reverenciar algo neste ator, divino, por ter sido capaz de encarnar, com verossimilhança, uma das maiores personalidades das quais tivemos notícia neste planeta, no século XX.


Lendo a biografia escrita por Humberto Rohden, pela Martin Claret, Mahatma Gandhi, o apóstolo da não-violência, tive ciência de um momento da sua vida, que desconhecia.


Retirado do livro autobiográfico “Minha vida e minhas experiências com a Verdade”, que revela o que enfrentou para se tornar o Gandhi que conhecemos. Uma delas foi ter contrariado alguns preceitos dos pais, ter tentado o suicídio, e ainda ter roubado um elo da pulseira de ouro do irmão para saldar algumas dívidas. Tinha por volta de 15, 17 anos. Não conseguindo encarar seu pai, escreveu uma carta, e ficou ao seu lado, tremendo todo o corpo. O pai, acamado, leu a carta, e chorou muito. Gandhi percebeu o sofrimento da alma do pai. “Se eu fosse pintor, poderia reproduzir, ainda hoje, toda essa cena, tão vivamente ela se estampou no espírito. Essas lágrimas de amor purificaram meu coração e lavaram os meus pecados. Só quem experimenta em si tamanho amor é que sabe o que dizemos neste cântico: ‘somente quem pelas setas do amor foi ferido lhe conhece o poder’”


Gandhi relata que o impressionou observar como o temperamento do pai, explosivo em geral, se mostrou calmo e sofrido, naquele instante. Sentiu-se amado, melhor, compreendido.


Gandhi reflete sobre como esta reação do pai lhe mostrou o caminho desta estrada, onde praticou a não-violência, e reflete sobre a sua atitude, ao lhe escrever a carta: “uma confissão, sem reservas, unida ao voto de evitar o pecado, feita a quem de direito, é esta a mais pura forma de arrependimento. O que sei é que minha confissão deu ao meu pai perfeita tranquilidade sobre mim, aumentou imensamente o amor que ele me tinha.”


Este senso de humildade o acompanhou e é reiteradamente relatado por quem conheceu Gandhi.


O húmus, de onde surgiu a palavra humildade, é feito do melhor e do pior que fazemos, e é desta composição complexa que nasce o melhor e o pior do que somos. Esta é uma experiência de verdade.

 

Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários