Semana passada pela manhã, eu estava em Passos, preparando-me para ir à universidade quando o telefone do hotel chamou. Premonitoriamente, eu já sabia o que era. Voltei a Franca para o velório do meu pai Wilson. Por algum estranho motivo, na semana retrasada, eu havia viajado para conhecer Paracatu, cidade histórica mineira de onde meu bisavô Joaquim “Paracatu”, amansador de cavalos e tropeiro, saiu para vir morar aqui, casado com a Didinha, minha bisavó.
Meu pai nasceu na fazenda Limeira, em Cristais Paulista, onde morava minha avó Delminda e meu avô Arlindo Ferreira trabalhava como professor primário da prefeitura de Franca. Era o mais velho de cinco irmãos (Walter, Geralda, Aparecida e Zélia, depois meu avô casou-se de novo e ele teve mais irmãos, Wagner, Luiz Carlos, Álvaro, Altair e Adilson). Veio para a cidade para estudar incentivado pelo pai e foi morar na casa dos avós, perto do antigo beco dos Aflitos (hoje rua Geraldo Foroni), cedo ficou orfão da mãe. Aqui, ele estudou o primário, depois o propedêutico e tornou-se contador, profissão que exerceu sempre, mesmo depois de formar-se na primeira turma de Economia da FACEF nos anos 50 e estudar Direito.
Trabalhou desde criança. Nas Casas Pernambucanas, ia atrair clientes da roça na rodoviária. Depois na loja Combate, na Estação. Já contador, entrou na fábrica de calçados Palermo, onde virou vendedor. Talvez tenha sido o que o tornou um viajante contumaz, passando para os filhos o gosto por viagens. Escaldado pela fumaça dos trens e pelo pó das estradas de terra, usava um chapéu Ramenzoni que chamava de Bumbo. Quando ele pegava o Bumbo em cima do guarda-roupas, a gente já sabia que ele ia viajar. E chorava para ir junto.
Nesta época, conheceu uma italianinha da família Volpe, Helena, com quem se casou em 1946, logo após ser aprovado num concurso para o banco Hipotecário. Foram morar em Araguari, de onde retornaram em 1949. Tiveram seis filhos.
Era um empreendedor. Contador do banco e de outras firmas à noite, arrumava tempo para vender couros da Cortidora Campineira, depois para virar industrial, montou dois curtumes na cidade. Seu espírito irreverente o fazia criador de apelidos inesquecíveis, como Boca-da-Noite e Nego D´água, de colegas de banco. Futebolista, foi um centroavante goleador, daqueles com presença na grande área. Seu amor pelo futebol o fez virar diretor da Francana, pois torcedor fanático já era, não perdia um jogo no velho Nhô Chico. Assim como foi são-paulino, daqueles que viajaram 18 horas de trem para ver Leônidas no Pacaembu em 1940 e a inauguração do Morumbi em 1960.
Ajudou muita gente a estudar, a arrumar emprego, a empreender negócios. Mas sempre o fez silenciosamente, como foi maçon e vice-provedor da Santa Casa. Nunca precisou de homenagens ou bajulações para ajudar o próximo. Aposentado, na praça Barão, era a alegria do “Senado” e dos muitos amigos. Na viagem de Passos para cá, minhas lágrimas vieram molhando as estradas que ele tanto gostava. Embora triste, pensei, olhando os ipês amarelos do cerrado florescendo, a primavera se aproximando, que o dono do Bumbo deixou um norte e um exemplo sólido para a vida que continua. E isto não tem preço para os que o amaram.
Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.