Exagerado


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Quando criança, o pai repousava a mão sobre meu ombro. Desperto, sorvia o café rapidamente, pois sabia que lá fora o homem já me aguardava impaciente com uma peneira nas mãos. Descíamos uma ladeira que à época eu achava imensa, hoje, não a vejo tão grande assim.


Eu tirava os chinelos, botava-os à margem , e o riacho bebia-me as pernas até os joelhos. O dedo calejado norteava os pontos em que a bateia de treliças arrancaria as pequenas pratas para meu aquário. Certo dia, a visão adulta percebeu movimentação diferenciada por ali. A voz rouca escreveu frase aos ventos, disse que aproveitasse a pescaria, porque os lambaris iriam embora. Não acreditei, meu pai exagerava. Mas as máquinas vieram, desbastaram a colina, um bloco de cimento surgiu imponente, operários apareceram, casas foram erguidas, o asfalto apagou toda a poeira que havia e o cimento afogou de uma só vez o córrego.


Quando adolescente, o pai chacoalhava-me a fim de me acordar, punha-me de pé. Impaciente, eu sabia que o homem estava lá fora com os estilingues nas mãos. O sol ia nascendo, as aves acordavam famintas, hora boa para uma pequena caçada. Havia, sim, muitos pássaros, mas nunca matamos nada, o embornal vinha sempre vazio, a mãe caçoava. Não existia jeito de se acertar, no momento em que visava qualquer plumagem, o estilingue vizinho agia antecipadamente, sem mira; assustando tudo ao redor, os cascalhos partiam em vão, e as gargalhadas grossas ecoavam. Um dia nossa casa sofreu tremores, saltei da cama e fui ver o que era. Máquinas rugiam, serras-elétricas demonstravam voracidade, árvores grandes e pequenas foram subjugadas. Depois de algum tempo visitamos aquele descampado, espalhados pelos chão, os seixos choravam a ausência das aves que eles jamais abateram., enquanto meu pai reclamava uma ardência incomum nos olhos.


Adulto agora, vivo precipitadamente, como as antigas pedras atiradas. Sem tempo, deixei de cultivar pequenas ilusões. Mas há sempre o convite para o almoço de domingo. O frango, a macarronada, muitos silêncios. Às vezes, meu pai passeia os olhos pelo meu rosto, percebe vínculos, reconhece pequenas geadas, conta piadas repetidas, vasculha o sorriso fácil, que não vem.


- Está envelhecendo, filho.


Exagero do senhor, o senhor sempre foi exagerado.


Marco Antônio, Marquinho, professor de Língua Portuguesa e Membro do Grupo Educacional Veredas.

 

Marco Antonio Soares
Professor de Lingua Portuguesa

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