Mês agosto: desgosto. Porque, quando e como agosto passou a ser relacionado ao desgosto e ao azar ninguém sabe, muito menos qual a pinimba associada ao número treze. Idem sobre restrições à sexta-feira.
Agora, junte-se agosto, o 13 (numeral e dia do mês), mais sexta-feira. Ponha-se tudo no caldeirão, respingue-se água - caso haja alguma gota sobrando por aí - e obteremos uma mistura de crendices, superstições, lendas, ditos e um manual do que pode e do que não pode ser feito para evitar o azar ou ter sorte.
Na infância diziam-nos que comer manga com leite matava. Às parturientes, advertiam que o ‘mal de sete dias’ pegava recém-nascidos: não era conveniente deixá-las sair do quarto antes de uma semana. Fomos criados ouvindo que ‘é de pequeno que se torce o pepino’. E avisavam que ‘rir muito na sexta-feira é choro certo no domingo’. Superstições e crendices. Ao inventarem o liquidificador, toda fruta passou a combinar com leite. O tal mal que matava as crianças desapareceu com assepsia: era tétano, subproduto de más condições higiênicas. A Psicanálise nos ajudaria a mudar internamente, independente de idade. E lá um dia percebemos que a alegria, a tristeza e uma de suas manifestações - o choro -, independiam de determinação sazonal... Concluímos: a superstição é fruto da ignorância e esta é mãe do medo.
Há muito os estudiosos perceberam que o ser humano dá caráter sagrado, misterioso e intocável a tudo aquilo que as limitações de sua percepção e conhecimento não conseguem explicar. Rimos dos índios que temem os efeitos da natureza e acreditamos em horóscopos, não passamos sob escadas, não deixamos gato preto atravessar nossa frente, tememos usar o dia 13 para fazer negócios, evitamos casamentos em agosto. Interpretamos sinais da natureza, consideramos mágico qualquer acontecimento que nosso entendimento não alcança como explicar ou justificar e aceitamos dogmas religiosos, sem contestação. Vai entender...
Paixões à parte, agosto é simplesmente o oitavo mês do calendário gregoriano. Uma homenagem ao imperador romano Júlio César fez chamar julho a um mês no calendário gregoriano. César Augusto, também imperador, não querendo ficar atrás – dizem os fofoqueiros históricos –, deu um jeito de dar-se um mês, também de trinta e um dias, ao qual chamou de... agosto.
Eventos mundiais e nacionais importantes marcam os agostos. Nos registros, encontro um muito bom: em 1926 o mundo teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, as cenas de um filme – Don Juan –, com sincronia entre efeitos sonoros e trilha musical. Mortes, muitas: Jorge Amado, Rodolfo Valentino, Glauber Rocha. De morte matada, dizem, Getúlio Vargas e Juscelino (os feios) e Marilyn Monroe (a linda). As duas Guerras Mundiais começaram em agostos e a primeira eletrocução de um condenado à morte nos Estados Unidos, também.
O destaque associado ao desgosto e ao nefasto é creditado, de forma tendenciosa, para o oitavo mês mas, a bem da verdade, em toda parte do mundo onde existiu, exista ou possa existir um ser humano - independente de ser no começo, meio ou fim de qualquer mês e em todos os anos - ocorreram e ocorrerão fatalidades, catástrofes, renúncias e posses de líderes políticos (bonzinhos ou mauzinhos), quedas de avião, incêndios, tomadas de poder, invasões, epidemias, explosões, mortes e nascimentos, inaugurações, desaparecimentos, sucessos e fracassos, invenções e descobertas. A vida e os feitos humanos possuem essa habilidade. Para acabar de vez com essa peja, vamos à redenção de agosto como mês de catástrofes: o tsunami asiático ocorreu num dezembro; Lula nasceu em outubro; José Dirceu, em março; Delúbio em outubro, Dilma em dezembro, Sarney em abril e Roseana em junho.
CRENDICE
‘Mulher menstruada não deve lavar a cabeça durante o ciclo’. A menstruação não impossibilita qualquer atividade. O manual O que você deve saber sobre aqueles dias, da Johnson & Johnson, viria nos esclarecer no final dos anos sessenta. Faz tempo, mas ainda hoje há quem afirme essa besteira! Ah! Na Argentina, dizem, as mulheres são desaconselhadas a lavar a cabeça neste mês.
RENÚNCIAS
Jânio Quadros renunciou em agosto. Nixon, depois do Watergate, também. Ariano Suassuna anunciou sua renúncia às atividades literárias e se isolou dos olhos dos fãs e leitores num mês como este.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.