Mudar a Capital para o Interior


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O período é eleitoral e é natural que novas ideias, muitas delas inviáveis e até mirabolantes, venham a público por meio dos candidatos. Feita essa ponderação para que não se caia na sedução de oportunistas, é preciso reconhecer que há um caldo de cultura política favorável à discussão da mudança da Capital paulista para o Interior.

Na segunda-feira, dois políticos de expressão deram declarações objetivas nesse sentido. Em S. José do Rio Preto, Celso Russomanno, candidato a governador pelo PP, afirmou ao Diário da Região que essa é única forma de evitar o estrangulamento da Região Metropolitana de São Paulo. “Em oito anos, não tem mais água em São Paulo”, dramatizou. Nascido na Capital, ele defende que a região central do Estado deva ser a escolhida, após estudo “profundo” sobre o tema.


Dessa forma, Russomanno é coerente dentro do partido com o ex-governador Paulo Maluf que na década de 80 lançou a ideia de mudar a Capital para Piratininga, cidade próxima a Bauru onde ele também sonhou fazer jorrar petróleo.


Em Bauru, o deputado federal Nelson Marquezelli (PTB), que é nascido em Pirassununga, foi além na proposta ao visitar o Jornal da Cidade. Para ele, Bauru tem que ser a futura capital. “Está na hora de o governo do Estado levar a Capital para o Interior”, pregou. A transferência seria viável financeiramente, segundo ele, e inclusive contaria com o apoio do governo federal. O custo da transferência não seria tão elevado quanto a construção de Brasília. “A cidade está pronta. A localização é invejável até para países de fora”, afirma. Além de aliviar São Paulo, facilitaria o deslocamentos para a maioria dos municípios.

 

NA ASSEMBLEIA
Em 2007, a deputada estadual Célia Leão (PSDB, base eleitoral em Campinas) apresentou o projeto de resolução 68/07 que solicita ao Tribunal Regional Eleitoral a realização de plebiscito à população sobre a mudança da Capital do Estado, etapa necessária para a realização de estudos de viabilidade. O texto diz que a Capital deveria ser transferida a uma área no mínimo 150 quilômetros de São Paulo. “O Estado possui imensas áreas no Interior com possibilidades de crescimento e de instalação de sua sede administrativa”, disse Célia Leão à época. “Diversas áreas do empresariado nacional e especificamente o paulistano já descobriram esses locais e têm deslocado sedes ou unidades de produção em direção ao Interior Paulista”.


EM BAURU
No ano seguinte, o deputado estadual Gilson de Souza (DEM), que é mineiro de Delfinópolis e tem a base eleitoral em Franca, apresentou o projeto de resolução 8/08 para a realização de estudos visando a mudança da Capital para região administrativa de Bauru por ser o centro geográfico do Estado. “É só olhar Brasília no mapa”, afirma ele. “E todos diziam que Juscelino estava equivocado”. Ele lembra que a atual Capital tem enormes problemas de tráfego.


HIBERNANDO
Os projetos de Célia e Gilson foram aprovados pela Comissão de Constituição e Justiça, com pareceres favoráveis da relatora Maria Lúcia Amary (PSDB, região de Sorocaba). Mas nunca foram levados a plenário. Como tantos outros, hibernam à espera da vontade política da maioria parlamentar que forma a base governista na Assembléia para que seja colocado em discussão e votação. Certamente, isso não ocorrerá neste semestre de eleições e em final de mandatos do Executivo e Legislativo. O assunto, se esquentar, só voltará à tona a partir de 2011.


FALTA INTEGRAÇÃO
Se o governador tivesse a flexibilidade do presidente de uma estatal como a Petrobras ou de uma grande empresa como a General Motors, o governo estadual já teria mudado há muito tempo. A estrutura de secretarias estaduais em São Paulo é caótica devido à distância física entre elas. A Agricultura fica na Imigrantes, a Educação na Praça da República, a Segurança Pública na Sé, e o governador fechado no Palácio no Morumbi. É o samba do crioulo doido. Secretários enfrentam trânsito pesado para reuniões. Prefeitos e assessores fazem uma maratona de dar dó entre os órgãos. A moradia do governador e primeira-dama é um museu. O conjunto é de causar espanto a quem consulta os manuais modernos de administração. A comunicação horizontal é dificultada pela ultrapassada teia de secretarias espalhadas pela Capital. O mundo virtual não vai resolver o problema, pois governar ainda tem um fator presencial muito grande.

 

Wilson Marini
wmarini@apj.inf.br

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