Resgate


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Quando Houaiss ensina que resgatar é tirar do esquecimento, alimenta meu apreço pelo gosto de cultuar história, figuras que a escreveram, seus momentos, seus precursores. Não existisse alguém para registrar a passagem de Cristo, não conheceríamos o que hoje conhecemos. Incluo também no caso, o nascimento de Martinho Lutero na Alemanha.


Foi ele um Agostiniano, responsável por grande reforma da igreja. Fe a primeira tradução da Bíblia do latim para o alemão, introduziu a ordem da missa – Deutsche Messe 1526 celebrando os cultos na língua do povo, abandonando o latim, para permitir melhor entendimento ao povo .


A Lutero atribui-se a citação: ‘Não fazem as boas obras um bom cristão, mas um bom cristão faz boas obras’. Eram comuns encômios ao reformador Lutero, Doutor em Teologia: “Este frade derrotará todos os doutores; introduzirá uma nova doutrina e reformará toda a igreja; pois ele se funda sobre a palavra de Cristo, e ninguém no mundo pode combater nem destruir esta Palavra...” (Melchior, Adam. Vita Lutheri, p. 104).


A Igreja Presbiteriana iniciou sua ação evangelizadora em Franca na década de 20 do século passado. Inúmeros frutos foram colhidos e estão gravados nos anais de sua história, onde é indelével o desprendimento obreiro e doador do casal Mateus Gomes do Val e Filipina Borges do Val.


Foram muitas as lembranças programadas pelo Reverendo Ronaldo Gomes Sathler para resgatar a expressiva memória de sua igreja. A comemoração dos 84 anos de evangelização incluiu reviver uma figura cuja dedicação e participação na vida da comunidade não se pode esconder no esquecimento.


No início de 1936 chegava à cidade, recém-saído do seminário, ainda não ordenado pastor, um jovem logo conhecido por “seu” Júlio. Trazia consigo o manto da fé, a esperança e coragem da mocidade empreendedora. Firmou-se como professor de sociologia da Escola Normal Livre e, em pouco tempo, líder do movimento presbiteriano.


Com destacado mérito granjeou amizade, respeito e apreço da sociedade local. Falo do Reverendo Júlio Andrade Ferreira, com justiça homenageado no último dia 31 de julho com o lançamento da reedição de sua obra, O Apostolo de Caldas, publicado em 1948.


O livro traz narrativa envolvente e atraente para quem o percorre no afã de conhecer os primórdios do presbiterianismo no Brasil a partir da região sul de Minas Gerais. A valentia e sacerdócio, as dificuldades, a doença, a difícil locomoção nos meados dos anos 1800, encontram no relato do Rev. Júlio, encantamento na vida e ação do pastor português Miguel Gonçalves Torres.


No lançamento da segunda edição de O Apóstolo de Caldas, a viúva do autor, Professora Alzira Helena Valim Ferreira – 93 anos – culta, lúcida, elegante, deixou cinzelado em emocionado discurso, raro amor pela cidade e famílias na moldura de grande saudade.

 

Garcia Netto
Jornalista

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