‘Sou a favor de uma ampla reforma agrária’


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CAMPANHA ENXUTA - O candidato a deputado federal Paulo Afonso RibeiIo: “O preço do processo eleitoral é maior que o da democracia”
CAMPANHA ENXUTA - O candidato a deputado federal Paulo Afonso RibeiIo: “O preço do processo eleitoral é maior que o da democracia”

Defensor declarado do socialismo democrático e das classes operárias, o candidato a deputado federal Paulo Afonso Ribeiro (PT) foi claro e objetivo durante a sabatina que abriu a série de entrevistas que o GCN Comunicação fará com os postulantes a deputado com base eleitoral em Franca.


Com opinião definida em praticamente todos temas expostos à discussão, Paulo continua radicalmente contra o banco de horas para o trabalhador calçadista e não acredita que o empresário brasileiro tenha maturidade para negociar com operários. “A legislação sindical brasileira precisa ser discutida como um todo. Nós, trabalhadores, não vamos aceitar nenhuma reforma retalhada conforme estratégia da Fiesp e de outras instituições empresariais”, disse, no meio da sabatina com os jornalista Corrêa Neves Júnior (diretor-executivo do GCN), Edson Arantes (repórter e colunista do Comércio da Franca) e Fernanda Bufoni (editora do núcleo de TV do GCN).


A seguir, confira o diálogo entre candidato e jornalistas sobre aborto, invasões do MST, legislação trabalhista além, claro, de episódios que marcaram a carreira sindical de Paulo Afonso Ribeiro.


PRIMEIRO BLOCO
 
GCN Comunicação - Por que o senhor quer ser deputado federal?
Paulo Afonso Ribeiro -
Não sou candidato porque é bonito ou porque um grupo de pessoas acha que tenho que lançar uma candidatura. Sou candidato pela minha trajetória, porque acredito ter a experiência necessária para conduzir nossa região para um desenvolvimento sustentável. Eu gostaria de contribuir tanto na área social quanto na econômica. Estou preparado para ser deputado federal. Tenho convicções políticas para isso. Tenho convicções de idéias, não sou direcionado por esse ou aquele grupo.
 
GCN Comunicação -  Nas eleições de 2006,o senhor se candidatou a deputado estadual, mas depois desistiu da campanha. Como os eleitores podem confiar que, dessa vez, a candidatura é pra valer?
Paulo Afonso -
Em 2006, foi uma situação muito particular, uma discussão interna no sindicato. Dessa vez, embora estejamos passando por um problema sério, não há necessidade de meu envolvimento direto, porque a discussão é muito mais jurídica do que política. Dessa vez, tranquilizo a você, peço seu voto já, porque estaremos na disputa nem que seja com um carrinho de som e meia dúzia de militantes.
 
GCN Comunicação - O senhor estima ser necessário gastar quanto para ter chances de vitória?
Paulo Afonso -
O processo eleitoral no Brasil é caro. O preço do processo eleitoral é maior que o da democracia. Estamos buscando o financiamento de campanha em pessoas físicas. Nós temos a clareza de que os grandes empresários não vão apostar na nossa candidatura porque temos idéias claras para cumprir no Congresso Nacional, principalmente para defender os mais pobres e as classes operárias.
 
GCN Comunicação -  O candidato a deputado estadual pelo PT de Franca, Gilson Pelizaro, tem feito campanha para Vanderlei Siraque e Cândido Vacarezza que, como o senhor, querem uma vaga de deputado federal. O senhor não fica constrangido com essa situação? Esperava uma adesão maior dos petistas locais?
Paulo Afonso -
Constrangido não fico nunca, porque temos que estar preparados para as ações tanto internamente no partido quanto externamente. É lógico que seria importante termos duas candidaturas fechadas aqui de Franca para a região. Não sendo possível, respeito os companheiros que vêm de fora, mas esperem de mim um oponente para fazer o debate que for necessário.
 
GCN Comunicação - Está confortável dentro do PT? Já pensou em deixar o partido?
Paulo Afonso -
Sou filiado ao partido desde 1994. Sempre votei no PT, desde 1988, e não vou deixar de ser petista. Sou um dos mais afincados aqui de Franca, como militante.
 
 
SEGUNDO BLOCO
 
GCN Comunicação - Recentemente os Estados Unidos liberaram a pesquisa com células tronco para testes em seres humanos. A ciência aposta numa revolução e na chance de cura inclusive de doenças degenerativas. A Igreja Católica condena a pesquisa. Qual a posição do senhor a respeito?
Paulo Afonso -
Eu sou a favor de que nós possamos usar as novas tecnologias e os conhecimentos científicos a favor da vida. Eu votaria a favor porque nós estamos em um processo de evolução do ser humano e nós temos que buscar alternativas para alimentação, para a questão da saúde. Nós temos que apostar na tecnologia como uma possibilidade de melhorar a vida da população mundial.
 
GCN Comunicação - A Argentina acaba de aprovar uma legislação que autoriza a união civil entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil, a questão segue controversa. Como o senhor vê essa questão? O senhor defende a regulamentação dos direitos dos homossexuais?
Paulo Afonso -
Não só dos direitos dos homossexuais, como eu trabalho com a possibilidade de ampliar o processo de liberdade que nós temos. Tanto da liberdade democrática, da liberdade de imprensa, da liberdade de todas as formas. Eu acho que limitar a união de pessoas do mesmo sexo é regredirmos na história. Eu tenho a convicção de que nós não podemos impedir que pessoas que se amam, que querem se dedicar umas as outras, possam viver. Eu não vou me opor, enquanto deputado federal, a união de pessoas do mesmo sexo. Eu defendo e não me oponho.
 
GCN Comunicação - E como é que o senhor avalia a postura de algumas denominações religiosas, principalmente evangélicos, que são radicalmente contra a união civil de homossexuais?
Paulo Afonso -
O amor é um sentimento universal. Todas as religiões tem suas convicções. A minha posição é de que nós não devemos misturar algumas coisas, devemos cuidar das pessoas, dos seres humanos.
 
GCN Comunicação - O senhor acha inclusive que os casais homossexuais deveriam ter o direito de adotar crianças?
Paulo Afonso -
Eu prefiro que as pessoas cuidem dessas crianças abandonadas sejam quais forem suas opções sexuais. É melhor do que deixar essas crianças nas ruas, sem pai e sem mãe, sem alimentação e sem escola.
 
GCN Comunicação - Se o senhor for eleito, que postura terá com relação aos projetos de desoneração tributária da indústria?
Paulo Afonso -
Desde a constituição de 1988 que nós estamos falando da reforma tributária no Brasil. Estou sempre à disposição da indústria e fazendo a luta dos trabalhadores. Eu tenho a convicção que temos que instalar no Brasil uma discussão específica no congresso nacional, uma constituinte tributária para nós refazermos o código tributário brasileiro e acabarmos com a guerra fiscal interna. Porque nós já temos uma guerra fiscal internacional que acaba prejudicando muito a indústria nacional. Eu sou amplamente favorável a revisão da tributação das empresas brasileiras.
 
GCN Comunicação - O presidente Lula disse recentemente que a carga tributária no Brasil é adequada. O senhor concorda?
Paulo Afonso -
Não concordo com o presidente. Lógico que ele tem muito mais informações por ser o presidente do Brasil, mas eu não tenho uma concordância que não há o que fazer. (...) Eu acho que tem o que fazer sim para melhorar. (...) Então eu sou a favor de uma reforma tributária no Brasil que dê conta de gerar empregos e uma melhor qualidade de vida para a nossa população.
 
GCN Comunicação - Qual a sua opinião sobre o projeto de lei que proíbe palmadas, beliscões, castigos físicos em crianças e adolescentes?
Paulo Afonso -
Eu fui conselheiro dos direitos da criança e do adolescente por dois mandatos. Acredito que qualquer medida que leve à violência não deve ser praticada pela família. Acho que o projeto que está no congresso nacional acaba tentando regulamentar uma condição que acontece tanto dentro da casa das pessoas, das famílias. Como é que você faz com isso? Como é que você impede um pai e uma mãe de dar o beliscão ou palmadinha? Eu não tenho filhos, mas não acho que a lei seja um método para educar os seus filhos.
 
GCN Comunicação - O senhor acha que não é uma intromissão excessiva do Estado na forma como a pessoa resolve educar?
Paulo Afonso -
O projeto comete equívocos no sentido de querer estabelecer através de um projeto de lei a mudança de um comportamento social. Eu, como legislador municipal, acredito que as novas leis devam surgir de demandas sociais reais e eu acho que essa não é uma demanda social real para o povo brasileiro.
 
GCN Comunicação - Qual a posição do senhor quanto a reforma trabalhista que moderniza as relações entre patrões e empregados?
Paulo Afonso -
Eu sou favorável a uma reforma, não a que retira direitos, mas a que modernize o cumprimento dos direitos dos trabalhadores no Brasil. O que os empresários tem pregado no Brasil nos últimos anos é que o custo Brasil é muito alto e por isso tem que tirar o direito dos trabalhadores através de reformas. Eu sou favorável a uma reforma completa da CLT a partir dos acordos, a partir dos consensos. Agora 13º, férias, fundo de garantia, esses direitos básicos dos trabalhadores, esses são imexíveis em qualquer reforma para mim.
 
GCN Comunicação - Quem propõe o fim do 13º, férias ou outros direitos fundamentais como fundo de garantia?
Paulo Afonso -
Nós temos no Brasil a falta de cumprimentos desses direitos. A CLT dá o direito, mas a forma da cobrança que obriga o empregador cumprir esses direitos é muito solta, ou seja não tem punição, ninguém vai par a cadeia no Brasil, ninguém vai processado no Brasil.
 
GCN Comunicação - O senhor é contra ou a favor da pena de morte?
Paulo Afonso -
Radicalmente contra. Eu não acho que a pena de morte resolva o problema da violência. A maioria dos crimes hediondo acontece porque as pessoas não foram formadas adequadamente, tanto dentro da sua família quanto pelo Estado. Eu sou contra a pena de morte por convicção e, segundo, porque sou cristão.
 
 
TERCEIRO BLOCO
 
GCN Comunicação - Em março de 2009 algumas empresas de Franca, por conta da crise mundial, viram seus negócios minguarem. Como alternativa para não demitirem, propuseram a redução da jornada, combinada com a criação de um banco de horas. Apesar do amplo apoio dos funcionários, o senhor foi contra. É melhor um trabalhador demitido que com jornada reduzida?
Paulo Afonso -
A legislação sindical brasileira precisa ser discutida como um todo. Nós trabalhadores não vamos aceitar nenhuma reforma retalhada conforme estratégia da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e de outras instituições empresariais. Como presidente da entidade, naquele momento, eu não poderia assinar o banco de horas ou qualquer outro tipo de flexibilização de direito dos trabalhadores. Flexibilizar jornada é flexibilizar direitos. Estou seguindo não a minha opinião simplesmente, mas uma orientação da democracia operária.
 
GCN Comunicação - Na época, o senhor disse que respeitaria a vontade do trabalhador, mas, na prática, se recusou a anuir o acordo celebrado entre os funcionários da Carmen Steffens e a direção da empresa. Isto não é um pouco de teimosia?
Paulo Afonso -
Nós respeitaríamos a vontade dos trabalhadores, mas jamais dissemos que iríamos assinar o acordo.
 
GCN Comunicação - O senhor não acha que os funcionários já têm maturidade no Brasil contemporâneo de terem vontade própria e celebrarem acordos com as empresas?
Paulo Afonso -
Acho que os trabalhadores têm, quem não têm são os empresários. O nosso setor tem mais de duas mil empresas no município. No nosso caso, é impossível controlar. Não tem como controlar o banco de horas da nossa categoria e esse é um dos principais motivos que os trabalhadores da categoria não concordam.
 
GCN Comunicação -  O senhor foi presidente do Sindicato dos Sapateiros dos últimos nove anos. Desde então, as assembléias e greves intentadas pela entidade não chegaram a aglutinar mais de 15% da categoria. O senhor não acha que esse distanciamento entre o que quer o trabalhador e o que faz o sindicato tenha provocado esse desinteresse por parte do trabalhador em relação às lutas da categoria?
Paulo Afonso -
Nenhuma categoria profissional do Brasil conseguiu no último período reunir na sede do seu sindicato 10, 12 ou 14% dos trabalhadores, igual ao que chegamos a reunir no último período. Acredito que o trabalhador vem até o sindicato para fazer a sua manifestação. Isto é altamente positivo.
 
GCN Comunicação - No começo deste ano o senhor votou pelo aumento dos salários dos vereadores na Câmara Municipal. O senhor acha que um vereador ganha pouco?
Paulo Afonso -
Não acho que um vereador ganhe pouco e quero até esclarecer que o salário dos vereadores não foi aumentado. O que existia no projeto era a possibilidade de que, se o presidente da Câmara aprovasse, uma resolução poderia estabelecer o mesmo reajuste (dos servidores municipais) para os vereadores. (...) Tudo na Câmara, infelizmente, é apresentado na última hora e a estrutura que a Câmara oferece para o trabalho dos vereadores é muito limitada. O prefeito sempre encaminha os projetos para a Câmra muito encima da hora e acaba impossibilitando o trabalho dos vereadores.
 
GCN Comunicação - O senhor se disse favorável a normas impostas que limitam o trabalho da imprensa na Câmara Municipal. As críticas o incomodaram?
Paulo Afonso -
Não. As críticas nunca me incomodaram. Sou muito criticado por alguns e elogiados por outros. Mas ser criticado no processo político faz parte. Se você não tem condições de ser criticado não dedique sua vida a fazer política. Em relação a esse ponto específico da Câmara, o plenário era uma baderna. Mas na Câmara nova nós já temos um acordo interno com os vereadores, vamos estabelecer uma forma de relacionamento saudável com a imprensa. Inclusive vai ter uma sala para todos os órgãos de imprensa utilizarem. Acho que temos que facilitar o trabalho da imprensa e também a Câmara tem que exigir cada vez mais que a imprensa dê os espaços para que ela possa fazer os debates abertamente.
 
 
QUARTO BLOCO
 
GCN Comunicação - O senhor é contra ou a favor da legalização do aborto?
Paulo Afonso -
Essa questão é bastante complicada. Precisamos analisar algumas coisas antes de ser contra ou a favor. Por exemplo, qual é a condição que a mulher tem, no sistema único de saúde brasileiro, para ser orientada no sentido de não ficar grávida quando ela não pode ficar? O processo para esclarecimento das mulheres é limitado. A maioria das mulheres ainda é educada para ser mãe e dona de casa. Isso complica um pouco. Deveríamos abrir um grande debate na sociedade brasileira. Eu, no Congresso Nacional, não votaria a favor da plena liberação do aborto no Brasil, porque eu acho que a sociedade brasileira não está preparada.
 
GCN Comunicação - O senhor se diz um dos articuladores e apoiadores dos assentamentos dos sem-terra. Acha que a invasão de terras particulares é um meio de luta legítimo?
Paulo Afonso -
Essa também é outra questão que nós deveríamos ter um debate muito longo. Os trabalhadores rurais sem terra têm direito. Boa parte da população que faz o debate na terra no Brasil é a população negra, que foi expulsa da terra ou os imigrantes, que vieram por míseros salários e nunca tiveram a oportunidade de serem donos de suas próprias terras. Sou a favor de uma ampla reforma agrária que nos permita no futuro não ter mais ocupação de terra. Uma das primeiras questões que têm que ser discutidas no Brasil é o índice de produtividade...
 
GCN Comunicação - O deputado Aldo Rebelo (PC do B), que coordena agora a formação do código florestal, traz dados impressionantes sobre a questão. Diz que 95% das propriedades rurais brasileiras estão na mão de pequenos e médios produtores e 5% são de grandes propriedades, 90% delas produtivas. Qual o sentido da invasão nesse contexto?
Paulo Afonso -
Não podemos negar que existe uma demanda por reforma agrária no Brasil e aqui na região também. Sou a favor da reforma agrária.
 
GCN Comunicação - Como o senhor analisa o sistema de educação continuada?
Paulo Afonso -
A aprovação continuada não é ruim na síntese da ideia. O problema é que aqui no Estado de São Paulo encheram as salas de aula de aluno, precarizaram as condições dos professores e temos cada vez mais dificuldade de formar os nossos jovens. Temos que rever essa questão educacional. (...) Só tem que passar de ano quem tem condições pra isso.
 
GCN Comunicação - Se o socialismo prevalecesse, haveria menos desigualdade?
Paulo Afonso -
A visão criada do socialismo no mundo é do socialismo totalitário, ou seja, autoritário do Leste Europeu. O Partido dos Trabalhadores hoje defende o socialismo democrático, que respeita a propriedade privada. Defendemos que o acúmulo de riquezas não pode ser simplesmente em benefício próprio. Não há problema em um grupo econômico crescer e ser proprietário de bilhões de reais. Mas nós defendemos que essas riquezas têm que estar a serviço da população, da geração de emprego, de melhores condições de vida para a população.

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