Tatu é analfabeto e sempre morou e trabalhou na roça. Hoje vive no Jardim Planalto em Franca e passa parte do dia na confecção de calendários manuais. Apaixonado por datas, ele consegue adivinhar sozinho em que dia da semana elas caíram neste ano, no ano passado e em qual cairá no ano seguinte.
Com 68 anos - ele fará 69 em 3 de dezembro - Tatu na verdade se chama Ismael Bernardo Alves e é morador do Lar de Ofélia, mantido pela Fundação Judas Iscariotes. Solteiro, sem filhos, ele faz parte de uma triste estatística da cidade, a de idosos esquecidos pela família ou sem parentes vivos. Levantamento realizado em quatro dos principais lares de idosos de Franca, mostra que dos 207 moradores destas instituições, 42 estão nestas condições, sem laços de família.
Uns mais falantes, outros acuados e alguns até totalmente abstraídos da realidade, eles não recebem visitas em datas comemorativas, no dia do aniversário ou quando precisam de um maior cuidado. Ligia Andrian Leal, assistente social do Lar de Ofélia, disse que as falsas promessas da família e a falta de contato causam uma grande decepção aos idosos e até levam a morte. “Eles ficam em profunda depressão que acarreta uma série de problemas. Muitas vezes acontece até do idoso vir a falecer. Quando chegam aqui, eles se esforçam, mas depois acabam por ter um retrocesso”.
Para a assistente social, o esquecimento das famílias demonstra uma falta de amor que mesmo com os passeios, atividades e encontros promovidos pela instituição não consegue ser substituída. “A gente tenta fazer o que pode, mas não é suficiente. Os idosos são pessoas muito carentes e precisam deste suporte familiar”.
Dos quatro lares pesquisados pela reportagem, o Lar de Ofélia é o que possui o maior número de idosos esquecidos. Dos 113 internos, pelo menos 34 não tem ligação com aqueles que fizeram parte do seu passado. No Lar São Vicente, que está há de 100 anos em atividade, dos 35 idosos, cinco sofrem com o problema da falta de parentes.
Já os que possuem, mantém apenas familiares mais distantes, como no caso de sobrinhos. “Quando a idosa fica esquecida, sem visita ou família, nós arrumamos os padrinhos que se encarregam de adotar estas senhoras”, disse Maria Luzia Inácio Correia, assistente social do Lar Dona Leonor, da Instituição Espírita Nosso Lar. A entidade, voltada somente para o atendimento de mulheres, conta com 40 senhoras. Destas, três integram a lista.
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