'Quero levar a música para a periferia'


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NO COMANDO - Lucia Garcetti assumiu há um mês a presidência da Orquestra Sinfônica de Franca. A luta agora é para levar música de qualidade às pessoas mais carentes
NO COMANDO - Lucia Garcetti assumiu há um mês a presidência da Orquestra Sinfônica de Franca. A luta agora é para levar música de qualidade às pessoas mais carentes

 

Com quase 60 anos de carreira, a pianista, compositora e professora francana Lúcia Helena Garcetti Ribeiro, 71, é uma entusiasta convicta quando o assunto é música. Não só pela paixão que nutre pelas notas musicais, mas pelo fervor e seriedade que lida com as questões culturais ligadas à realidade da cidade. 
 
Casada desde 1967 com o dentista Sylvio Puccinelli Ribeiro, Lúcia tem três filhos: a professora Myrna, 37; o dentista Guilherme, 35, e Marcílio, 31, que seguiu os passos da mãe e é percussionista. 
 
Lúcia é pianista formada desde 1956 pelo Conservatório Dramático e Musical Carlos Gomes, de Ribeirão Preto. Fundou em Franca o conceituado Instituto Musical Ars Nova em 1969 e o dirigiu até 1984. Na bagagem, a pianista carrega ainda mais quatro diplomas: graduação em música pela Faculdade de Canto Orfeônico da PUC Campinas; pedagogia pelos cursos de formação de professores do Instituto de Educação Torquato Caleiro; educação artística e pedagogia pela Universidade de Franca (Unifran). “Eu nasci para escolher e não para aceitar. Eu escolho o que eu quero. Essa é a minha maior característica”, destaca. Dessa vez Lúcia não escolheu, mas, aceitou do maestro Nazir Bittar o convite para assumir a presidência da Associação Cultural da Região da Alta Mogiana (Ascram), mantenedora da Orquestra Sinfônica de Franca (OSF), no último dia 1º de junho. 
 
A solenidade para marcar sua posse ocorreu de maneira tímida, dia 30 de junho, no espaço cultural da Feac (Fundação Esporte, Arte e Cultura). No entanto, de maneira contrária a cerimônia que a acolheu nessa nova empreitada, Lúcia pretende “fazer barulho” para conseguir mais visibilidade e garantir recursos financeiros para auxiliar melhor os 28 instrumentistas da OSF que recebem bolsa-auxílio de R$ 150 por mês. 
 
Por amor à música e às artes de um modo geral, Lúcia se rendeu ao convite do seu amigo. A pianista abraçou a Ascram consciente das dificuldades e limitações que vai encontrar, mas, com o anseio de superá-las logo com o apoio de toda a comunidade francana. “A OSF está cheia de medidas para serem tomadas. A primeira coisa que eu vou fazer é aparar algumas arestas, isso eu consigo fazer, sem ferir e passar por cima dos objetivos. Mas, eu vou trabalhar pela paz e pela união de todos nós. Porque a união faz a força”. 
 
Comércio da Franca - Como surgiu a Orquestra Sinfônica de Franca? 
Lúcia Garcetti - A Orquestra Sinfônica de Franca foi fundada há aproximadamente quatro anos. Primeiro, de uma tentativa frustrada da musicista Fátima Calixto, saíram alguns músicos que, entusiasmados, foram atrás de maestros e criaram um novo grupo, que também foi só até um certo ponto e morreu. Daí apareceu o maestro Nazir Bittar, recém-chegado da Alemanha e cheio de gás e talento. Era tudo que Franca precisava. Articulações daqui e dali, formou-se uma diretoria sob a sigla “Ascram” (Associação Cultural da Região da Alta Mogiana). Logo depois, com o apoio da Prefeitura e de empresas, surgia a orquestra.
 
Comércio - Como a senhora foi parar na presidência da Associação Cultural da Região da Alta Mogiana (Ascram)? 
Lúcia - Talvez essa tenha sido a primeira vez em que eu aceitei ser escolhida (risos). Há um ano, me convidaram para o conselho deliberativo da associação e logo depois para ser presidente. Mas, eu não quis. Precisava conhecer o que se passava, sem almejar cargo nenhum. Agora veio um novo convite e decidi aceitar. Eu assumi a orquestra. Entrei para organizar tudo, da parte administrativa até os músicos. Quero tudo registrado formalmente. 
 
Comércio - Presidir a Ascram é o seu maior desafio?
Lúcia - Não. Nem da minha carreira e nem da minha vida. O maior desafio da minha vida foi ter estudado piano quando meu pai perdeu os bens (ele foi caixeiro viajante por 30 anos) e queria me obrigar a parar de estudar porque achava que piano era coisa de rico. O segundo foi fazer faculdade em uma época em que as mulheres não podiam estudar.
 
Comércio - A senhora parece ser uma mulher bastante determinada e perfeccionista. Como será a sua postura à frente da presidência da Associação Cultural da Região da Alta Mogiana (Ascram)?
Lúcia - Eu nasci para escolher e não para aceitar. Eu escolho o que eu quero, na hora e do jeito que eu quero. Essa é a minha maior característica. A minha vida foi uma sucessão de desafios e eu venci todos. Tudo que eu quis fazer eu fiz e ainda hoje tudo que eu quero eu consigo. Eu não vivi em vão. Só faço o que quero. Toco o meu piano quase 24 horas por dia, não tenho dores nenhuma nas mãos, trabalho sem usar óculos, levanto e ando sem a ajuda de ninguém. Se Deus me deu todas essas bênçãos, com mais de 70 anos, é porque Ele quer que eu ainda trabalhe. 
 
Comércio - Não teme ser incompreendida por essa sua postura rígida?
Lúcia - Em toda a minha vida eu sempre fui incompreendida, invejada e criticada. Tudo porque eu enfrento tudo e todos pelo que eu acredito ser o certo. Muitas vezes fui incompreendida pelas pessoas que eu mais amei, as mais próximas a mim. Mas, por outro lado, pela comunidade sempre fui endeusada.
 
Comércio - Agora que a senhora já assumiu a presidência da orquestra, quais serão suas prioridades?
Lúcia - Vou tentar modificar a orquestra porque ela tem que se impor e não deve viver de esmolas. Iremos cobrar pelos espetáculos, por exemplo. Recebemos R$ 80 mil por ano e retribuímos com 10 apresentações. Esse valor ainda é insuficiente para renovar instrumentos ou fazer uma viagem para apresentação. A OSF está cheia de medidas para serem tomadas. Mas a cobrança será feita de quem pode pagar. Quero levar a música para a periferia, para os mais carentes. Estou até buscando parcerias para financiar a formação de músicos em comunidades mais pobres. 
 
Comércio - O que você acha do panorama musical em Franca atualmente?
Lúcia - Hoje vivemos um renascimento musical total. Eu leciono há quase 60 anos e posso falar que, até a década de 60 e 70, o piano e a música eram uma coisa de elite. Depois, nos anos 80, eles caçaram e exilaram os músicos de valor, como Caetano Veloso, Tom Jobim. Na década de 90, começou uma reação. Hoje, estamos renascendo. Nunca se esteve tão perto da música. Eu vejo isso acontecer por aqui. Aos poucos, espetáculos começam a aterrizar em nossa cidade, companhias de danças e grupos musicais de bastante talento se formam. Isso faz parte do progresso musical da cidade. 
 
Comércio - A senhora acha que haverá interesse por parte do público carente em conhecer mais de música erudita? Como a senhora pretende trabalhar para aproximar a orquestra da comunidade carente?
Lúcia - Temos que adaptar algumas obras para aproximar mais a arte das pessoas. A música não precisa ser sempre de alto nível intelectual em todas as apresentações. O maestro Nazir Bittar é de uma competência inegável para produzir espetáculos assim, de uma inteligência raríssima e um coração de ouro. Porém como todo  maestro, ele é enérgico e rígido. Como eu vejo todas essas características nele e eu sinto que a orquestra nasceu como continuação do projeto do Guri. As pessoas que vivem em comunidades carentes também gostam de música clássica. Basta olhar para orquestra e ver que não tem nem um filho de doutor. A maioria são jovens que chegam de igrejas evangélicas presentes nas comunidades mais carentes. 
 
Comércio - A senhora fala muito do maestro Nazir Bittar, como o conheceu?
Lúcia - Eu era diretora do Instituto Ars Nova e ele estudava em outro conservatório, o Pestalozzi. Sempre ouvia falar de seus feitos como aluno brilhante e talentoso. Acompanhei de longe a sua entrada na Unicamp e, depois, o perdi de vista. De lá, soube que ele foi estudar na Alemanha. De volta ao Brasil, Nazir me convidou para fazer a parte de teclado no Magnificat de Bach, num concerto. Ensaios, encontros, apresentações nos aproximaram. Eu o admiro muito como maestro, o reverencio como ele merece e o acolho no meu colo, com muito carinho quando ele precisa de mim. Foi atendendo a um pedido dele que assumi a presidência da Ascram e da orquestra. Na verdade, eu já andava meio cansada de participar de diretorias, ajudar a apagar os incêndios, etc. Mas, aceitei, assumi e aqui estou para o que der e vier, de corpo e alma. Às vezes, o fato de eu ter vivido um pouco mais faz com que a gente entenda alguma crise com naturalidade e menos paixão. 
 
Comércio - Para que a orquestra criou a AOSF (Amigos da Orquestra Sinfônica de Franca)?
Lúcia - Em fevereiro de 2010 surgiu a AOSF (Amigos da Orquestra Sinfônica de Franca) que consistia em pessoas que queriam ajudar a orquestra acudindo as suas emergências, colocando ordem em prioridades, enfim, não deixando a peteca cair até que alguma divergência ou outra fosse resolvida. Eram pais de músicos, amigos do maestro e admiradores que se prontificaram a ajudá-la, a colocar a orquestra no palco, cumprindo os contratos que tinha com a Prefeitura de Franca. E isso foi feito com galhardia: concertos maravilhosos, todos, de alto nível. Brigas à parte, a música flui. Isso é que era importante. Pretendo retomar a AOSF mas, não ficar só na dependência dela. Temos que trabalhar de outras formas. 
 
Comércio - Por que a OSF ainda não despontou e não é tão reconhecida no cenário musical erudito do Estado, assim como acontece com as orquestras de Ribeirão Preto e Campinas?
Lúcia - É isso que eu quero descobrir. Por que a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, por exemplo, não se abala com as brigas internas? Troca maestro, presidente e muda de músicos sempre. Mas, cadê essa força em Franca? Nós músicos temos que nos unir mais.
 
Comércio - A senhora falou em brigas internas, dando a entender que há divergência entre diretores e músicos. Há brigas dentro da Orquestra Sinfônica de Franca? Qual é sua postura diante de conflitos?
Lúcia -  Sempre há. As pessoas se desentendem mesmo por vários motivos momentaneamente. Pessoas mudam de lugar, diretorias vão e vem. Um músico não se constrói de um dia para o outro. Um bom maestro leva anos e anos para empunhar uma batuta. Os profissionais da música precisam de uma retaguarda para que sua música flua como preciso. A diretoria administra, trabalha e dá o sangue para que o concerto seja realizado com êxito. Nós (da administração) executamos “o trabalho da coxia”, como costumamos dizer (nos bastidores). Mas os aplausos têm que ser para os músicos sempre. Eu, pessoalmente, nasci no palco, fui criada no palco, mas holofotes à parte, sempre gostei mais mesmo da coxia. 
 
Comércio da Franca - A senhora tem a expectativa de que a Orquestra Sinfônica de Franca (OSF) alcance o tamanho e a qualidade da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto?
Lúcia Garcetti- Eu não sei se vou estar viva para ver isso, porque demora. Mas, eu te garanto que, com essa nova diretoria, com o maestro Nazir Bittar, com firmeza, com humildade e com meus anos de estudo, eu vou colocá-la em uma posição melhor. Se Deus colocou um maestro como Nazir em nossa cidade e o projeto Guri para preparar as crianças, é importante ter um espaço para colher esses profissionais. Por isso a importância de uma Orquestra Sinfônica em Franca.

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