“mas o leque havia sido posto nas mãos do príncipe, aberto dia a dia, dobra a dobra, pelas
narrativas. Fechá-lo parecia agora sem sentido. Então os pesados batentes foram apartados de par em par, como se uma passagem se desobstruísse na montanha. E a comitiva seguiu em frente, logo aquecida pelo sol.”
23 Histórias de um viajante, Marina Colasanti.
SÁBADO, dia 14 de agosto, o grupo Calendas vai promover um evento que promete leituras significativas. Vamos ouvir Marina Colasanti!
Penso na leitura não como algo erudito ou pobre treino didático para alfabetização. Aqui podemos pensar na leitura como ato civilizatório, como forma de adentrar universos que mexem com os sentidos, com os órgãos sensuais do nosso corpo, com os significados que podemos encontrar para a nossa vida (e a dos outros).
O analfabeto (literal ou funcional) não está somente alijado do dito mundo culto, está aleijado para a densa vida, intensa, sem luz, água canalizada, esgoto, sem sistema de trocas. Tudo o que poderia estar disponível a ele (se soubesse ler) como ferramenta essencial ao desenvolvimento!
Um grande autor traz sentido pensar, sopesado no entremeio da Palavra.
O escritor, em geral, já leu seus autores favoritos, e a Palavra é o seu instrumento mágico de criar leitores. Os leitores também criam seus autores por afinidade eletiva.
Ler é retirar véus, trabalho inverso ao do escritor. Pela própria natureza da Palavra, o autor não desvela tudo. É da natureza da Palavra (poética) mostrar e velar. Clarice Lispector dizia que é o símbolo que permite o acesso à Verdade. Como a Bíblia diz de Deus, que não pode ser visto diretamente, sua Luz mataria a quem ousasse. Deus é Verbo, Palavra, sempre vária, a depender de quem - e como - nela crê.
Um grande autor nos torna conscientes do grupo social ao qual pertencemos, conscientes de como vestimos e desvestimos verdades interiores, vivemos ou morremos delas, ou não as enfrentamos.
Embora a tecnologia tenha maximizado a velocidade da informação, encurtando a distância entre a vivência e a narrativa do fato, o cérebro do ser humano processa dentro de um limite preciso de velocidade. Temos uma alma paquidérmica que necessita de outra para ser despertada, ser aconchegada, ser expandida, até para simplesmente ser.
A alma é complexa, lenta de nascença, nem adianta tentar acelerar. Ela não funciona em sistema binário como o computador sim/não, “on-off”. A alma é múltipla, contraditória, criativa exatamente por ser vária.
Somos leitores já que uma vida só cansa. Uma única vida é pouco para viver intensamente. Uma vida só é um desperdício na vastidão da Vida!
Na UNIFRAN, ainda, teremos Ricardo Azevedo, formador de leitores. Heloisa Prieto, professora de oficinas literárias e Regina Machado, contadora de estórias. Todos são autores.
Procurem a Equipe Calendas, na promoção do I Encontro Calendas de Educação Ler: um ato vital.
Atenção ao mote, Ler: um ato vital, por ele se vislumbra a passagem através da montanha da Ignorância humana, fonte de tantos equívocos.
Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga
Psicanalista e Psicóloga
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