A Copa do Mundo acabou. Pela terceira vez, torci pela Holanda numa final e ela perdeu, temo estar ficando com a síndrome do pé-frio como o Mick Jagger. Depois de assistir tanto futebol e ser azucrinado pela vuvuzela, nada como ver XV de Piracicaba e União São João para dar razão àqueles que preferem o silêncio obsequioso das catedrais desertas. As arquibancadas vazias, apenas uns trinta torcedores abnegados se protegendo do frio de danar, êta silêncio gostoso para assistir um jogo de bola.
Restaram as figurinhas da copa. Na praça do cemitério, ainda resistem alguns colecionadores tentando encerrar o álbum sem gastar muito com aquela figurinha difícil que ainda falta. Quando criança, também gostava de colecionar figurinhas, fiz vários álbuns, o mais legal foi o da Branca de Neve de Walt Disney, um prodigioso filme de desenho animado daqueles tempos. Tinha o dragão, a fada madrinha, a bruxa má, o espelho falante, os sete anões. Como o álbum deste ano, tinha também o Dunga, mas isso nem é bom lembrar.
Na verdade, eu queria falar de outras figurinhas da copa: as da copa da casa da minha mãe. Tinha o Manoel Mazzotta que, toda terça-feira à tarde, aparecia para saborear um chá mate Leão quente, bem tolerado pelo seu estômago fraco, e a Isa Gasparini, que era amiga das minhas irmãs, também freqüentadora assídua. Eram tardes brilhantes, o sol vindo dos lados da estação ferroviária, que ainda funcionava, penetrava pela casa afora deixando as sombras alongadas, enquanto os comes e bebes iam sendo dispostos numa mesa frugal sobre uma toalha que até eu tinha ajudado minha mãe a bordar. Chá com açúcar cristal, pão francês, manteiga com sal (as pragas da margarina, da pressão e do colesterol alto ainda eram desconhecidas por todos nós), às vezes uma geléia de amora, bolachas maisena da Duchen. A rua Júlio Cardoso ainda era silenciosa, com seus paralelepípedos intactos, eram poucos os carros, as buzinas, os transeuntes.
Eram tardes cálidas, regadas pela conversa jogada fora e pelo aroma inconfundível do mate (que vinha a granel numa elegante e preciosa caixinha de madeira que depois eu usava para guardar meus jogadores dos times de futebol de botão) e pelas conversas despreocupadas de quem ainda não sabia o que queria e nem o que viria pela frente. O Mazzotta ainda era professor de inglês, sem saber que se tornaria um servidor da Receita Federal bem melhor pago, já que a educação não é o forte dos tucanos paulistas. A Isa não sabia que iria viver no exterior e desaparecer completamente no mundo, casada com o namorado Pililico, que também vivia na Júlio Cardoso e que aparecia para o chá de vez em quando.
E eu ainda teria que viver muito para saber como foram importantes e bons aqueles momentos vividos, de formação, para o futuro que chegou logo. Como diz o Niemeyer, a vida é mesmo um sopro.
Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor
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