Morar em um lugar cercado por árvores e longe de barulho dos centros urbanos é opção de muitas famílias, que buscam refúgio em áreas afastadas das cidades. Mas a tranquilidade e segurança, comuns a chácaras, sítios e fazendas, deixaram de ser realidade em muitas delas. Desde abril, pelo menos cinco assaltos violentos foram registrados em propriedades rurais às margens da Rodovia Tancredo Neves, entre Franca e Claraval (MG). Na semana passada, um vendedor de 59 anos foi baleado após reagir à invasão em sua chácara. O medo passou a fazer parte da vida dos moradores. Os donos das fazendas e empregados temem que sejam as próximas vítimas ou revivam os momentos de pânico que já enfrentaram nas mãos de bandidos.
Há 22 anos, um fazendeiro de 71 anos e sua mulher, 69, que pediram anonimato, trocaram uma casa no Centro de Franca para viver numa bela fazenda às margens da Tancredo Neves. Ambos passaram a infância na zona rural e quiseram reviver suas raízes. Em pouco mais de um ano, a família foi vítima de dois assaltos, com reféns. O casal não abre mão “do conforto” de morar na fazenda, mas tem vivido temeroso e foi obrigado a mudar hábitos. A segurança no local foi reforçada com instalação de câmeras. A grande porta de correr da sala não fica mais aberta. Está sempre trancada. “Foram dois assaltos traumatizantes. Confio muito em Deus e coloco minha vida nas mãos Dele, mas é bastante difícil. A gente fica trancado dentro de casa, qualquer movimento já nos deixa apavorados. É um outro tipo de vida que a gente vive hoje, parece que constantemente ameaçados”, disse ela, chorando.
Em março de 2009, a aposentada estava sozinha cuidando da casa quando foi abordada por dois homens encapuzados e armados. O crime aconteceu durante o dia, por volta das 10h30. Os ladrões fizeram um limpa na casa. Levaram joias, máquina fotográfica, celular e o carro Meriva da família. No dia 7 de junho deste ano, o terror voltou a ser vivido e por mais vítimas. A fazenda foi invadida por quatro homens, também encapuzados e com revólveres. O bando rendeu o caseiro, a mulher e filha dele e seguiu para a casa do dono, onde o renderam junto com a esposa. “Eles colocaram nós cinco no banheiro e ficaram aterrorizando, mandando calar a boca e pedindo dinheiro e joias. Agressão física não houve, graças a Deus, mas a psicológica é horrível, porque você fica traumatizado, não tem mais sossego”, disse a senhora. Os bandidos levaram computador, impressora, joias, máquinas fotográfica, ferramentas, celulares e fugiram transportando tudo na saveiro do fazendeiro. “Quero continuar minha vida, só que a gente tranca tudo e os ladrões ficam andando por aí”, disse o fazendeiro.
A fazenda vizinha a do casal também foi alvo dos marginais no dia 30 de junho. Um jovem de 22 anos, retireiro de leite, foi uma das vítimas. Continua traumatizado. “Quando chega a noite e os cachorros latem, a gente já imagina tudo aquilo acontecendo de novo”. Mineiro, ele mora na propriedade há nove meses. Era noite de uma quarta-feira quando se preparava para lavar o curral e, com dois funcionários, foi surpreendido por assaltantes. Dez homens fortemente armados invadiram o local, amarraram os empregados com cordas e roubaram roupas, aparelhos eletrônicos e celulares. O rapaz evita ficar fora da casa quando escurece. “Eles estavam armados, nós ficamos com muito medo, pensamos que eles iam fazer alguma coisa com a gente. Tive medo mesmo de morrer”.