Famílias da zona sul esperam até dois anos para ter casa própria


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ATÉ QUANDO? - A revendedora Fátima Lima é vista na janela do barraco de madeira onde mora há 13 anos com o marido e os filhos no Jardim Lima: família espera casa do Santa Bárbara
ATÉ QUANDO? - A revendedora Fátima Lima é vista na janela do barraco de madeira onde mora há 13 anos com o marido e os filhos no Jardim Lima: família espera casa do Santa Bárbara

A comerciante Juliana Maria dos Santos, 34, está casada com Sidmar dos Reis da Silva, 37, há 12 anos e, desde que decidiram dividir o mesmo teto, vivem nos três cômodos nos fundos da casa da mãe dela, que empresta a edícula para morarem. A família cresceu. O casal, até algum tempo atrás, dividia o único quarto com os três filhos de 17, 12 e 4 anos. Juliana e Sidmar estão dormindo apenas com a filha caçula, porque a mãe da comerciante cedeu um quarto na casa da frente. A família sonha com o lar próprio. O desejo esteve muito perto de ser realizado, mas vem sendo adiado há dois anos. Juliana e Sidmar fazem parte do grupo de 72 famílias contempladas com uma casa no Jardim Santa Bárbara, mas não sabem quando terão a chave nas mãos. 

Eles se cansaram das promessas. A construção das casas começou em julho de 2007 e tinha previsão de ser concluída em doze meses, em julho de 2008. Dois anos se passaram depois da primeira data prometida e a família continua alojada num espaço acanhado, morando de favor. Os 72 imóveis que estão sendo erguidos no Santa Bárbara começaram a ser feitos em mutirão, pelos próprios moradores, mas o projeto não engrenou. Neste ano, a Prefeitura buscou parceria com o governo estadual e contratou profissionais para agilizar as obras. Com esperança de conseguir o quanto antes uma casa para chamar de sua, Juliana sonhava em receber o imóvel em dezembro próximo, como presente de Natal. Planos frustrados mais uma vez. A secretária de Urbanismo, Valéria Marson, apresentou outra data. Serão pelo menos mais nove meses de espera. Os imóveis devem ficar prontos apenas em abril de 2011. “Assumimos a construção em abril e temos doze meses para concluir os serviços. Precisaremos do prazo total para acabar as casas e entregar as 72 de uma vez”, disse a secretaria.
Juliana está inscrita na Prohab há 15 anos e terá de esperar mais para, se a promessa for cumprida desta vez, se mudar para sua casa. “Trabalhei durante dois anos e meio no mutirão, como servente. Carreguei tijolo, reboquei parede, empurrei carriolas. Muita coisa que tem nas casas tem minha mão. A gente fica angustiada porque não consegue realizar o sonho. Quem casa quer casa e eu quero a minha”, disse. “A espera é triste. Eu ainda tenho uma casa cedida e não pago aluguel, mas muitos pagam. Alguns chegaram a ser despejados da casa, sabemos de duas pessoas da turma de mutirantes que faleceram e não tiveram tempo nem de conhecer a casa”.
 
Os vigilantes Ana Cristina Cordeiro, 28, e Alberto Xavier Primo, 29, moram com os dois filhos pequenos num barraco de madeira construído em terreno público no Jardim Lima. Faz quase dez anos que o endereço da família é o imóvel improvisado. Numa das laterais, portas de madeira que um dia formaram um guarda-roupa servem de parede. O casal também trabalhou aos fins de semana, durante anos, para erguer paredes nas casas do Jardim Santa Bárbara. Já fizeram contagem regressiva no calendário ao menos seis vezes, na esperança de deixar o barraco e dormir numa casa com paredes de concreto, com teto sem goteiras. Ana Cristina não perdeu as esperanças e faz planos para dar ao futuro lar um toque pessoal. “Quero montar o quartinho dos meus filhos, comprar uma cama para eles que não molhe quando chover. Aqui tem muita goteira, muitos bichos e nós ainda enfrentamos preconceito. Meus filhos sofrem preconceito na escola, porque as pessoas pensam que aqui mora bandido”, disse ela, que tem um filho de 8 anos e uma filha de 6.
A tia de Ana Cristina, a revendedora Fátima Lima, mora num barraco de madeira vizinho há 13 anos. Ela estava grávida de quatro meses, quando se mudou de São Paulo com o marido e dois filhos para Franca. Deixou na capital todos os móveis. De ônibus, trouxe apenas uma mala com roupas, dois colchões e um berço. A família, que buscava emprego no interior paulista, decidiu morar no barraco que, segundo Fátima, teria sido construído para alojar os pedreiros que construíam um prédio naquela região, mas as obras foram paralisadas e o alojamento inutilizado.
 
Há mais de uma década no local, Fátima parece ter se acostumado às adversidades da moradia, como a convivência com baratas e ratos, além de calor e frio intensos. Embora prefira continuar no Jardim Lima, por ser um bairro mais centralizado que o Santa Bárbara, sabe que terá de desocupar o barraco invadido e faz planos para quando se mudar para a nova casa. “Quero construir mais um quarto para meus filhos”.

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