‘Amo meus alunos como filhos’


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TRABALHO DE SUCESSO - Elaine Muniz Sousa é diretora da Escola Municipal “Fausto Alexandre Sousa Teodoro” desde que a unidade foi inaugurada, em 2009. Apaixonada pela profissão, ela comemora o bom desempenho dos alunos, que considera seus filhos
TRABALHO DE SUCESSO - Elaine Muniz Sousa é diretora da Escola Municipal “Fausto Alexandre Sousa Teodoro” desde que a unidade foi inaugurada, em 2009. Apaixonada pela profissão, ela comemora o bom desempenho dos alunos, que considera seus filhos

Elaine Muniz Sousa, 36, é casada há doze anos com o microempresário Aparecido Donizeti Garcia, 39. Ainda não teve filhos, mas considera os 500 alunos da Escola Municipal “Fausto Alexandre Sousa Teodoro”, da qual é diretora, todos seus filhos. Sonha com um futuro promissor para eles, que sejam alfabetizados, desenvolvam habilidades e possam se tornar médicos, professores ou empresários.


A vontade de ser professora surgiu quando ainda era menina. Nas brincadeiras, sempre comandava a sala de aula improvisada com as amigas da pequena Itirapuã, onde nasceu. Elaine se sente realizada em poder ajudar e ensinar as crianças a aprender algo. Formada em Letras e Pedagogia, além do magistério, iniciou a carreira na sua terra natal, mas continuou em Franca. Assumiu classes em escolas estaduais, como a “João Marciano” e “Torquato Caleiro”, mas há 12 anos é professora concursada da rede municipal de Franca em escolas da periferia. Lecionou na Escola “Professora Maria Luzia Barcelos” e na “José Mário Faleiros”, no Jardim Aeroporto III, onde ficou por dez anos. Desde 2009, deixou as classes para assumir a diretoria da Escola “Fausto Alexandre Sousa Teodoro”, na mesma região. A unidade foi inaugurada no ano passado no Jardim Santa Bárbara.


Convidada pela secretária municipal de Educação, Leila Haddad, para a direção da nova escola, Elaine aceitou o desafio. À frente da instituição, prima pela alfabetização de 500 crianças de 4 a 10 anos, tem sob seu comando 30 professores e funcionários e batalha para aproximar a comunidade da escola. Para Elaine, o sucesso da educação depende da presença dos pais no ambiente escolar, da participação deles na vida dos estudantes. “Sou filha única e venho de uma família muito humilde. Meus pais sempre batalharam muito para que eu estudasse, me formasse e me ensinaram a acreditar nos meus sonhos e a nunca desistir. Acredito que as crianças que estudam aqui na escola precisam de apoio semelhante de seus pais para crescerem, por isso falo tanto da presença deles aqui”. Além das reuniões, a escola promove festas e cursos para os pais e os incentiva a abraçar projetos para ajudar a instituição.


As parcerias com os pais, empresas e comunidade tem rendido bons frutos. A escola participou em 2009 pela primeira vez do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), avaliação feita pelo Ministério da Educação, e obteve resultados satisfatórios. Para Elaine, o segredo do sucesso é a presença dos pais na vida escolar e comprometimento dos professores.


Elaine é contratada para trabalhar oito horas diária, mas passa pelo menos dez horas por dia na “Fausto Alexandre”. Já se acostumou com as brincadeiras das pessoas dizendo que a escola se tornou sua primeira casa. “Faço isso por opção, porque gosto muito da minha profissão e acredito na educação”.


Mesmo com rotina intensa, Elaine encontra tempo para curtir a família - ela não abre mão de visitar os pais em Itirapuã toda semana - e realizar trabalhos sociais. Ao lado do marido e amigos, mantém a ONG Amigos da Alegria há 11 anos. Durante todo ano, os voluntários arrecadam dinheiro para no fim do ano comprar brinquedos e doar para crianças carentes em Itirapuã. Para Elaine, a emoção do Natal acontece antes do 25 de dezembro. A entrega dos presentes é feita sempre no domingo que antecede a data.

 

Comércio da Franca - Você tem experiência em escolas de regiões centrais e está há quase 12 anos na periferia, como é dar aulas nesses bairros mais distantes?
Elaine Muniz -
Falo que estou no paraíso. As pessoas às vezes colocam uma barreira, um preconceito sem conhecer a realidade. Lecionei por dez anos no “José Mário Faleiros” (no Aeroporto) e esse é segundo ano aqui no Jardim Santa Bárbara. Eu me considero em casa. Aqui sou superconhecida e conheço todo mundo. É como em cidade pequena, você passa e todos cumprimentam. Acho isso muito importante porque eles precisam da gente e a gente precisa deles. É muito gostoso esse vínculo que a gente tem com a comunidade. Já trabalhei no Centro, mas sempre gostei de estar trabalhando com essas pessoas. É bom você estar em um ambiente em que você pode acrescentar na vida das pessoas, fazer a diferença. Acho que isso é importante. Esse é o meu propósito.
 

Comércio - O que já conquistaram a partir dessa relação?
Elaine -
Parto do princípio que a gente só vai conseguir nosso objetivo, que é a aprendizagem do nosso aluno, através da comunidade. Você tem que trazer a comunidade para a escola, trabalhar com ela, mostrar a importância dela e através disso ter os pais como parceiros.
 

Comércio - Quais as vantagens de tê-los tão próximos?
Elaine -
Se tem outro caminho para o sucesso da educação, ainda não consegui visualizar. Acho que a comunidade estando aqui dentro da escola, você consegue desenvolver melhor o trabalho.
 

Comércio - A escola conta com ajuda da comunidade?
Elaine -
Já conseguimos armários para a escola para colocar o material das crianças, fazer divisórias das salas e os quadros pintados no muro a partir de uma parceria com um professor de artes voluntário. Fizemos uma promoção na Páscoa e estamos esperando para comprar um parque infantil. Temos cerca de R$ 2.400 para isso, dinheiro que só foi possível obtermos com a ajuda dos moradores do bairro. Os alunos venderam cupons para sortear uma cesta de chocolate.
 

Comércio - Quanto ao ensino, sabemos de casos de meninos que chegam à 5ª, 7ª séries sem saber ler. Onde está o erro?
Elaine -
Onde está o erro é complicado falar. Se soubéssemos era mais fácil para corrigirmos. Acho que todas as escolas precisam buscar todos os caminhos possíveis, como parcerias, e tentar, desde o início, desenvolver as habilidades e envolvimento da comunidade.
 

Comércio - Qual a sua opinião sobre a progressão continuada?
Elaine -
É muito importante. É o caminho, com certeza. Com a progressão continuada, você trabalha com o aluno em um determinado ano. No ano seguinte, o professor vai dar continuidade daquele ponto para frente. Sem a progressão, o que acontecia é que o aluno ficava retido. Quando o aluno estava retido, às vezes ele desistia. É muito boa a progressão continuada porque dá a oportunidade de o professor saber em que ponto o aluno está e em que ponto ele deve continuar.
 

Comércio - Mas, às vezes, o aluno não está preparado para avançar uma etapa...
Elaine -
Mas o professor não vai deixar esse vácuo. A intenção é que o professor parta daquilo que o aluno sabe, porque senão, ele não vai conseguir nada. Se o aluno está no quinto ano, aí ele vai para o sexto ano. Se o professor não fizer um diagnóstico para ver o que esse aluno sabe, para ter um ponto de partida, aí ele não vai virar nada, não vai conseguir se desenvolver mesmo.
 

Comércio - Mas numa sala numerosa, o professor dificilmente terá condições de saber o estágio de cada aluno...
Elaine -
Acho que é possível. Trabalhei na rede estadual e, na minha sala, eu tinha condição de ver isso. É um pouco mais difícil, exige um pouco mais de trabalho, mas é possível. Acho que aí entra também aquela parte que estou nessa profissão porque gosto. Porque você vai acompanhar o aluno no dia a dia e é possível fazer um relatório, saber de cada aluno. Às vezes para o professor de 6º ao 9º ano isto seja mais difícil. O professor das primeiras séries é como uma mãe, é diferente, está muito próximo ao aluno. A gente acostuma muito com os alunos. Nós temos o relatório de todo mundo. Então o professor que recebê-lo no segundo ano, já terá o relatório do ano anterior, já saberá a necessidade de cada aluno, a atividade que precisará desenvolver com eles. Acho que isso é importante. No Estado é possível fazer isso, mas dá um pouco mais de trabalho.
 

Comércio - Então o problema não está no sistema, mas sim na atuação do professor?
Elaine -
Acredito que deveria ser mais próxima essa relação professor-aluno. Tem problemas no sistema? Sim, tem, mas na minha opinião, não dá para ficar jogando a culpa só no sistema porque, se agirmos dessa forma, a gente vai ficar de braços cruzados e não vai fazer nada.
 

Comércio - Quais problemas você já consegue detectar no sistema?
Elaine -
Sempre fui muito ligada no 220v. Sabe quando você não fica procurando problema no sistema e fala ‘vamos resolver’.
 

Comércio - Se você fosse ministra da Educação quais seriam suas prioridades para melhorar a qualidade do ensino público?
Elaine -
Investir na formação do professor e, quando falo em formação, falo em formação profissional e salarial. A parte salarial precisa melhorar. A partir do momento em que a pessoa tem uma formação boa, tem um salário legal, que faz o que gosta, incentiva os alunos. O grande desafio é melhorar a educação de toda rede, fazer com que o aluno aprenda, com que desenvolva competências, para que não haja alunos com 14 anos que não sabem ler. Acho que na hora que conseguirmos trazer para a escola 100% da família, a situação vai mudar e conseguiremos vencer o desafio.
 

Comércio - Muitas crianças não sabem o que é limite e na escola é preciso exigir que respeitem regras. Como é esse processo?
Elaine -
Temos nossa orientadora que trabalha diretamente nesses casos. Conversamos com as mães sobre isso e tentamos criar uma aproximação para que elas ajudem neste processo. Pedimos para que não esperem a gente chamá-las na escola para correções. Frisamos que a escola está sempre de portas abertas para a família. Tem que existir vínculos com a comunidade, com os alunos, professores, tem que ter o aprender todo dia e juntos. Sempre falo para eles para a gente ser feliz porque tirando a casa da gente, o outro lugar que temos é a escola, onde a gente mais passa o tempo.
 

Comércio - Em seu primeiro ano, a “Fausto Alexandre” conseguiu boa pontuação no Ideb -avaliação do governo federal. A que se deve o bom desempenho?
Elaine -
Acredito que seja à parceria que desenvolvemos com a família dos alunos. Os pais ajudam porque estão inteirados do que queremos desenvolver com os filhos deles, ajudam com lições de casa, sabem da vida escolar dos filhos, têm condições de apoiar em casa o trabalho da escola. Além do comprometimento dos professores e empenho das equipes da Secretaria de Educação e equipe escolar.
 

Comércio - O que você espera para os alunos?
Elaine -
Sonho que eles tenham uma vida melhor, diferente da que os pais tiveram. E para isso espero que os pais possam estar junto com a gente proporcionando um futuro melhor para todas essas crianças, longe das drogas, de tantas coisas ruins que tem no mundo. Porque eu falo que são 500 filhos que a gente tem. É muito gostoso sair pelo corredor da escola e eles virem me abraçar.
 

Comércio - Como está o trabalho da ONG Amigos da Alegria que doa brinquedos aos carentes no Natal?
Elaine -
Há 11 anos surgiu esse projeto. Nasci e cresci em Itirapuã e via que as pessoas se preocupavam muito com doação de cestas básicas no Natal. Meu pai já distribuía balas para crianças vestido de Papai Noel, mas a bala acabava e eu ficava pensando em enfeitar a caminhonete e distribuir brinquedos também. Sempre tive um olhar muito voltado para criança, que amo, e comecei a pensar em algo mais. Amadureci a ideia e, depois de um ano de casada, chamei meu marido para fazermos algum trabalho voluntário. Eu e meu marido chamamos oito amigos daqui de Franca para pagar mensalidade de R$ 10 ao longo do ano e comprar brinquedos. Compramos os presentes para as crianças e foi muito bom, por isso continuamos nos anos seguintes. Começamos a fazer rifa para ter mais dinheiro e comprar brinquedos melhores. De repente, a iniciativa chamou atenção de outras pessoas que começaram a ajudar também e, nessa trajetória, temos 45 casais e solteiros contribuindo com a campanha da associação no Natal, doando R$ 10 ou R$ 15 por mês. O interessante é que não temos no grupo pessoas que lavam roupas para fora, donos de padaria, aposentados. Temos quem se veste de palhaço, Papai Noel ou personagens da Disney para o dia da entrega. Além das crianças, visitamos o asilo de Itirapuã e doamos presentes para os idosos, que geralmente nos pedem roupas.
 

Comércio - Como você se sente realizando esse trabalho?
Elaine -
Muito feliz. É algo que me dá muito, mas muito prazer. Você trabalha o ano todo e é muito bom ver a alegria nas crianças e mesmo nas pessoas da cidade que já ficam esperando os presentes. O envolvimento da equipe também me orgulha muito.

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