Um menino chamado João


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Para o pequeno João Toledo Franchini Corrêa Neves

"João [é] tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?"

In Um chamado João
Carlos Drummond de Andrade
 
 
 
João chegou, trazendo rios na alma.
Rios de risos, cantos, cristais...
"cada qual em sua cor de água
sem misturar, / sem conflitar".
Chegou João, afluindo cascatas,
desaguando colheitas. 
 
João chegou, trazendo mágicas na alma.
Prodígios "que há por trás dos reinos,
dos poderes, das / supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo..."
Tudo eclodindo, "florindo
como flor é flor".
 
Vem de um "reino cercado
não de muros, chaves, códigos..."
João vem de um "reino-reino",
aberto em rios, lírios, risos e brancuras tais
que ninguém duvidará de nada.
 
João tem plantados no peito,
além das cantigas da água,
o verde, as asas, as flores,
a brisa que perpassa o tempo...
E seu primeiro segredo será este.
 
Segredo de alegria infusa,
infensa a dores e a disfarces.
E seu fado será saber
cada gota desse reino
de águas e asas e flores...
"para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado".

Com Drummond, João,
"Hás de aprender o tempo.
E há de ser tua ciência
uma tão íntima conexão
de ti mesmo e tua existência, 
que ninguém [duvidará de] nada".
 
Rosa te abrirá veredas
"na renda trançada dos igarapés...":
ponta de outro mistério,
que "a gente mesmo, no comum,
não sabe encontrar".
E intuirás:
"Quando nada acontece
há um milagre que não estamos vendo".
 
Marina te levará
"para comer nozes frescas
na montanha"
e te mostrará "três lagos
no horizonte
três queijos maturando
numa adega
três lesmas
escondidas sob um vaso". 
 
E saberás, João, que "tudo é distinto de tudo,
[...] e sabe guiar-nos o mundo".
 
Mundo que te recebe como és:
alma de rio de águas de reino.
"Mágico sem apetrechos",
sem ilusões nem suspeições.
Porque sabemos que és João.
João que existe
"de se pegar".
João verdade
de se Amar.
 
 
Eny Miranda
Médica, poeta e cronista

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