As lembranças nada custam


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-Aproveita, freguês, é só hoje, cinco misturas por sete real.


 Aquela era a arenga dos comerciantes. Percebia-se a familiaridade entre as pessoas:
- Como vai, Dona Fulana? Vai levar queijo hoje? Tá fresquinho, tem também o mais curado...


A fila do pastel era quilométrica, mesmo assim alguns agüentavam o sol a pino para comprá-lo. O burburinho da feira-livre dava a impressão de que todos estavam felizes, não havia crise, nem eleição, e até a derrota do Brasil na Copa já era coisa muito distante.


Ao receber o troco, depois de dispensar outras mercadorias que lhe ofereceram, olhou instintivamente para o muro verde.


Viu, com assombro, uma cabecinha branca contra ele. Pensou estar ficando maluco. Entretanto, as reminiscências foram brotando assim, caudalosamente, aos borbotões.


 Lembrou-se que a parede dos fundos era o lugar preferido dela, que ali se recostava, “vendo o movimento”, como dizia. Quantas vezes estivera ali também lhe fazendo companhia. Mudos ambos, olhando a avenida agitada, aspirando a brisa refrescante.


Viu, em retrospectiva, a cadeira caindo aos pedaços na qual ela se empoleirava, ignorando os perigos e a idade avançada.


 - Por que você é tão teimosa? Não tá vendo que a cadeira tá quase caindo?


- Deixa eu sossegada, tô distraindo um pouco.


Era o seu espaço favorito; fresco e recheado de movimentação. Lembrou-se da vez em que, estando ela por lá, notou que uma mulher atravessava o pátio, vindo na sua direção. Quando a desconhecida se aproximou mais, ela aguçou o olhar e destampou a rir, um riso frouxo, a principio, depois uma gargalhada incontrolável. A outra começou a ficar irritada, gesticulava com mais vigor, perguntava. A que estava sentada não conseguindo conter o riso, não respondia, atiçando mais a raiva da estranha. Por fim, esta lhe deu uma banana, acompanhada de um palavrão, e foi-se...


Ele chegou em seguida, encontrou-a ainda rindo ruidosa. Quis saber o motivo de tanta graça. Quando se acalmou, ela disse:
 - A mulher estava com uma calcinha na cabeça e eu não consegui parar de rir para avisar.
Assim era ela, assim seu jeito intenso de ser.

 

Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português

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